A ideia, que sobrevive até hoje, de que os Estados Unidos comandaram o golpe de 1964 apoiou-se, em boa parte, em documentos falsos. Eles não eram americanos. Eram tchecoslovacos — fabricados em Praga pela polícia secreta comunista. Esta é a operação, em fonte primária.
DesclassificadoA “participação americana” no golpe, na parte que se sustentou em papéis e boletins, não foi descoberta: foi plantada. E quem a plantou deixou tudo registrado — porque eram seus próprios arquivos secretos que, décadas depois, viriam a público.
No centro da operação havia um documento de aparência impecável: um boletim de informação da USIS — o United States Information Service, o braço de propaganda do governo americano. Tinha papel timbrado, linguagem oficial, o tom certo. Só faltava uma coisa: ser verdadeiro. O serviço secreto da Tchecoslováquia (a StB) o fabricou do zero, e o objetivo estava escrito, sem rodeios, na pasta da operação:
Falsificação de materiais da USIS com o objetivo de comprometer os EUA e a Thomas C. Mann.— Arquivo da StB, citado em 1964 — O Elo Perdido
Thomas C. Mann era o homem de Washington para a América Latina e o rosto da Aliança para o Progresso. Atingi-lo era atingir a política dos EUA na região. E o método foi industrial: nada de “vazamento” espontâneo — o texto inteiro foi inventado, traduzido e impresso na central, em Praga.
A operação ativa foi preparada totalmente na central, começando pela elaboração e tradução do texto inventado (baseando-se no conhecimento da política dos EUA) e terminando com a execução técnica em folhas produzidas pela Seção 9.— Arquivo da StB
Pronto o falso, faltava distribuí-lo de modo que parecesse autêntico. A solução foi clássica: enviar o boletim forjado a jornais brasileiros acompanhado de uma carta anônima, como se viesse de um funcionário arrependido da própria embaixada americana.
Esta versão fabricada (pelos especialistas da Seção de Desinformação em Praga) deste boletim foi enviada a alguns jornais brasileiros, juntamente com uma carta anônima de um funcionário da embaixada [dos EUA].— Arquivo da StB · execução registrada em 11–14 / 02 / 1964
Funcionou melhor do que o previsto. O próprio relatório da operação se gaba do resultado — e é aqui que a desinformação deixa de ser uma intenção e vira fato consumado na imprensa e no Congresso:
A credibilidade de nossos materiais não chegou nem a ser questionada e por isso a imprensa progressista não hesitou em publicá-los. Houveram também reações no parlamento e a embaixada dos EUA foi obrigada a desmentir os nossos materiais.— Arquivo da StB
Não é especulação saber quem operava a máquina. A estrutura está nominada nos arquivos: a operação saía da Seção D — a seção de desinformação e ações ativas do I. Departamento da StB.
Chefe da seção de desinformação e ações operativas do serviço de inteligência tchecoslovaco.
Vice-chefe da desinformação. Anos depois desertou para os EUA, testemunhou ao Senado americano e virou autoridade mundial no tema.
Produzia o suporte físico — o papel timbrado e a impressão que davam ao falso a aparência de original.
A ironia é total: o homem que ajudou a fabricar a desinformação é a mesma fonte que, do outro lado da Cortina, ajudou o Ocidente a entendê-la. Ladislav Bittman descreveu operações da Seção D em seu livro The KGB and Soviet Disinformation (Washington, 1985) e diante de uma subcomissão do Senado dos EUA. Quando os arquivos de Praga foram abertos, o que se leu neles confirmou o que o desertor já dissera.
A AO TORO nasceu para atacar a Aliança para o Progresso. Mas, quando veio o 31 de março de 1964, a operação não foi encerrada — foi reaproveitada. O mesmo aparato de falsificação que comprometia Mann passou a servir a um alvo novo e muito mais ambicioso: convencer a opinião pública de que os americanos eram os donos do golpe.
AO TORO também foi aproveitada como recurso apropriado para comprometer os EUA em relação ao golpe brasileiro. [...] Do golpe de estado, foi possível continuar a impor a falsa interpretação de que eram os EUA que estavam por trás do golpe.— Arquivo da StB · grifo nosso em “falsa interpretação”
Não foi uma operação isolada. Combinada a outras duas — AO MOSKIT e AO RACHOT —, virou uma campanha sistemática contra toda a política dos EUA na América Latina, e foi exportada de país em país:
E havia um objetivo de engenharia por trás disso: uma mentira bem construída não precisa de mais mentirosos. Em registro de 10 de julho de 1964, o oficial Peterka observa que a operação já podia caminhar com as próprias pernas —
[A operação poderia] seguir funcionando sozinha, causando danos aos EUA sem a necessidade de ingerência dos oficiais ou dos agentes.— Arquivo da StB
Era exatamente esse o ponto. A desinformação foi projetada para sobreviver aos seus próprios autores — e sobreviveu. Em 1965, a pasta da AO TORO foi recolhida ao arquivo da StB e esquecida. A narrativa que ela plantou, não: seguiu circulando, sendo recontada e citada como se fosse memória nacional espontânea.
Aqui está o coração do argumento. Durante décadas, parte da certeza de que “os EUA dirigiram o golpe” se ancorou na existência de papéis — boletins, comunicados, materiais atribuídos ao aparato americano. A abertura dos arquivos da Cortina de Ferro fez a peça girar 180°: esses papéis não nasceram em Washington. Nasceram em Praga, na Seção D, e em coordenação com o aliado maior — a desinformação soviética da KGB, com quem a StB mantinha pasta de colaboração registrada.
Ou seja: a “prova documental” da autoria americana é, ela mesma, a evidência de uma operação de inteligência comunista. O documento que parecia incriminar os EUA incrimina, na verdade, quem o forjou. É essa inversão — a fonte primária trabalhando contra a lenda que ajudou a criar — que dá nome ao estudo: o elo perdido.
Os próprios autores, trabalhando a partir do arquivo, recusam o exagero simétrico. Eles não afirmam ter provado a inocência de tudo: afirmam, com precisão, que o que está documentado é a fabricação, não um plano americano comprovado.
“...não é possível concluir que os americanos planejaram o golpe.”
“Ao usufruir dos acervos de arquivo da StB, sempre estaremos expostos a uma certa unilateralidade — na medida do possível, nos esforçamos para verificar [cruzando com fontes russas e os arquivos de Praga].”
É justamente essa contenção que separa o estudo da propaganda que ele descreve: ele mostra a forja sem inventar uma contra-lenda.
A versão de que os Estados Unidos estavam “por trás” do golpe de 1964 — na parte que se sustentou em documentos — não é uma descoberta do jornalismo investigativo nem da memória popular. É o produto entregue de uma medida ativa da StB, a Ação Operativa TORO: um boletim falso da USIS, escrito e impresso em Praga, distribuído com carta anônima em fevereiro de 1964, e depois reciclado, ao lado das operações MOSKIT e RACHOT, para “impor a falsa interpretação” de autoria americana — e exportado ao México e ao Uruguai.
O carimbo de “secreto” caiu. O que ficou exposto não foi a culpa de Washington: foi a assinatura de Praga numa narrativa que o Brasil repetiu por sessenta anos sem saber de quem era a letra.
Todas as citações entre aspas foram extraídas dos relatórios da StB (Státní bezpečnost — Segurança do Estado da Tchecoslováquia), I. Departamento, Seção D, conservados no Arquivo dos Serviços de Segurança (ABS), Praga, e reproduzidos no estudo “1964 — O Elo Perdido” (História Heroica). Referências de fólio (ex.: I_SF_0041_18_0015) remetem aos documentos digitalizados do arquivo.
Corroboração independente: testemunho e obra de Ladislav Bittman, ex-vice-chefe da Seção D da StB, perante o Senado dos EUA e em The KGB and Soviet Disinformation (Pergamon-Brassey’s, Washington, 1985).