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Homero no banco dos réus  ·  um contraponto por Laudelino

A querela entre
a filosofia e a poesia

Você acabou de admirar a Odisseia. Agora acompanhe o processo em que o maior filósofo da Antiguidade a pôs no banco dos réus — e o veredito que nunca foi dado.

← Leia antes: A Odisseia, a longa volta para casa Este texto é o contraponto natural daquele.
≈ 30 min de leitura  ·  o outro lado da Odisseia

Há uma frase de Platão que quase ninguém repara, e que abre um abismo sob os pés de qualquer amante dos clássicos. No livro X da República, ao terminar de esculhambar Homero, ele menciona de passagem uma “antiga desavença entre a filosofia e a poesia” (República, X, 607b). Antiga já no século IV a.C. — ou seja, quando Platão escreve, o pleito já corre há gerações. De um lado, a razão, que quer a verdade nua. Do outro, o canto, que encanta. E no banco dos réus, o mais ilustre dos acusados: Homero — e, com ele, a própria Odisseia que você acabou de percorrer.

Eu quero reconstituir esse julgamento inteiro. A acusação, montada peça por peça por Platão e antecipada por outros. A defesa, engenhosíssima, que salvou Homero pela porta dos fundos e criou um método que atravessaria mil anos — e que um dia se voltaria para a própria Bíblia. E, no fim, um segundo veredito, o de Aristóteles, que absolveu a poesia por razões que Platão jamais aceitaria. É uma história que diz menos sobre Homero e mais sobre nós: sobre o que fazemos com os livros que decidimos venerar — e sobre por que continuamos brigando por eles.

Busto de Homero em mármore
Homero — o réu. Um poeta cego a quem os gregos entregaram a própria identidade (cópia romana, Museu Britânico).

Antes de abrir os autos, um aviso que dá o tom de tudo: quando os gregos ouviam a Odisseia, eles não a liam como você e eu — como aventura, entretenimento, matéria de série e filme. Para muitos deles, aquelas pessoas dentro da história eram reais. Ulisses existiu, Aquiles existiu, Helena existiu. E o poeta que os cantava não era um romancista qualquer: era quase um profeta. É justamente aí que a encrenca começa. A um contador de histórias não se cobra nada. A um profeta se cobra a verdade — e é isso que Platão vai fazer.

o réuPor que se dá ao trabalho de julgar um poema?

Jovem cantando e tocando a kithara, vaso ático de figuras vermelhas
A epopeia era ouvida, não lida — cantada pelos aedos ao som da lira (ânfora do Pintor de Berlim, c. 490 a.C., Metropolitan Museum).

Ninguém processa um livro irrelevante. Se Platão gasta três livros da República com Homero, é porque Homero importa como nenhum outro. E convém entender o tamanho dessa importância. Na origem, a Odisseia nem sequer era um livro: era performance — poesia oral cantada ao som da lira pelos aedos, em banquetes e cortes. O próprio poema exibe dois deles: Fêmio, em Ítaca, e Demódoco, o aedo cego dos feácios que faz Ulisses chorar. Guarde Demódoco: ele reaparece, no fim, protagonizando a cena mais escandalosa de todas.

Com os séculos, porém, Homero deixa de ser o astro dos banquetes e se torna a espinha da paideia, a formação grega. As crianças aprendem a ler e a escrever copiando os seus versos; conhecer Homero vira marca de identidade — não conhecê-lo tornava alguém menos grego. É o próprio Platão quem cunha a fórmula que mede esse prestígio: Homero, diz ele, foi “o educador da Hélade” (República, X, 606e). Só que — repare no veneno — ele diz isso não para elogiar, mas para acusar. Um poema que apenas diverte não presta contas a ninguém. Um poema que forma um povo inteiro tem de responder por cada palavra. É por educar a Grécia que Homero merece um tribunal.

a testemunha antigaXenófanes: deuses com cara de gente

Xenófanes de Colofão, gravura do século XVII
Xenófanes de Colofão (séc. VI a.C.) — a primeira testemunha de acusação (gravura de Thomas Stanley, 1655).

A acusação não nasce com Platão. Já no século VI a.C., dois séculos antes, um pensador chamado Xenófanes de Colofão aponta o dedo. O problema, para ele, é teológico: Homero apresenta os deuses de forma humana demais — invejosos, mentirosos, adúlteros, ladrões. A frase dele é direta:

“Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo o que, entre os homens, é vergonha e censura: roubar, adulterar e enganar-se uns aos outros.” Xenófanes de Colofão — fragmento DK 21 B11

E vai além, com uma ironia surpreendentemente moderna: os mortais imaginam que os deuses nascem, se vestem e têm voz e corpo como os seus (B14); os etíopes fazem seus deuses negros e de nariz achatado, os trácios os fazem ruivos e de olhos azuis (B16); e se os bois e os cavalos soubessem desenhar, desenhariam deuses com corpo de boi e de cavalo (B15). A tese está lançada — os poetas projetam nos deuses os vícios dos homens — e é essa a semente que Platão vai fazer germinar num sistema.

o tribunalO tribunal de Platão: as histórias que moldam as crianças

Busto de Platão
Platão — o promotor. Formar um cidadão começa por controlar as histórias que ele ouve na infância (cópia de Silânion, Museus Capitolinos).
Busto de Sócrates
Sócrates — a voz que, nos diálogos, conduz o interrogatório (cópia romana, Louvre).

Aqui está o ponto que dá liga a todo o processo, e que costuma passar despercebido. Sócrates — que, nesses diálogos, é mais ou menos a voz de Platão — não é contra as histórias. Muito pelo contrário: ele acha que precisamos delas. Uma criança não vai destrinchar um tratado filosófico nem entender conceitos abstratos; então é fundamental educá-la por meio de narrativas, mitos, ficções. Platão chega a defender o que chama de “nobres mentiras” (República, III, 414b): histórias falsas na letra, mas que geram coesão e coragem. Uma boa ficção é remédio.

E por que isso é tão sério? Por causa de quem as ouve primeiro. A alma da criança, diz Platão, é mole como cera: o que a marca cedo fica gravado para sempre, e ela ainda não tem juízo para separar o sentido oculto do sentido aparente (República, II, 377a–b). Ou seja: as primeiras histórias decidem o adulto. Aquilo que a criança absorve como modelo — o que é um deus, o que é um herói, o que é uma vida digna — vira o molde do caráter dela. Por isso o conteúdo dos mitos não é assunto de crítica literária: é assunto de Estado.

É essa a chave da condenação. Se as nobres mentiras são remédio, os poemas de Homero são, para Platão, “mentiras feias” — falsidades que, em vez de curar, envenenam a alma tenra de quem se forma com elas. Um veneno pedagógico. E a denúncia se desdobra em quatro frentes: os deuses, os heróis, o próprio poeta e, por fim, a natureza mesma da poesia.

O indiciamento, em quatro artigos

A peça de acusação da República, antes de destrincharmos cada uma:

  1. Os deuses são indignos — causam o mal, mudam de forma, mentem e guerreiam entre si. Teologia falsa, ensinada às crianças.
  2. Os heróis não têm virtude — Aquiles é um chorão ganancioso; e a imagem que a obra dá da morte apaga a coragem. Modelos ruins de imitação.
  3. O próprio poeta nada sabe — Homero não governou, não venceu, não fundou escola, não deixou virtude alguma. Compõe possuído, não por conhecimento.
  4. A poesia é sombra da sombra — imitação três graus afastada da verdade, que alimenta a emoção e não a razão.

acusação IDeuses indignos de serem deuses

A primeira frente endurece Xenófanes num molde rígido: existe o que se pode e o que não se pode dizer sobre o divino (República, II, 379a–383c). Homero viola tudo.

Estátua de Zeus / Júpiter entronizado
Zeus entronizado — na Ilíada, distribui bem e mal de dois jarros; para Platão, o deus é causa apenas do bem (Júpiter de Esmirna, Louvre).

Primeira: os deuses causam o mal. Na Ilíada, Zeus tem à porta dois jarros — de um tira desgraças, do outro bênçãos, e os despeja sobre os mortais (Ilíada, XXIV, 527–528). Para Platão, isso é inadmissível: o deus é bom, e só pode ser causa do bem (República, II, 379c).

Segunda: os deuses mudam e se disfarçam. Mas o perfeito é imutável — se muda, só muda para pior (República, II, 380d–381e). E, no entanto, Homero mostra Afrodite ferida por um mortal, Diomedes, que lhe fura o pulso e faz correr o ícor, o sangue divino (Ilíada, V, 335).

Terceira: os deuses mentem. Zeus envia a Agamêmnon um sonho deliberadamente falso, só para arrastá-lo à batalha (Ilíada, II, 1–40). Mas o divino não engana, nem por palavra nem por ato (República, II, 382a–383a).

Quarta: os deuses guerreiam entre si. A teomaquia da Ilíada põe os deuses pró-Troia contra os deuses pró-gregos, em combate aberto (Ilíada, XX, 67ss; XXI). E discórdia no céu é impensável para quem vê o divino como ordem pura.

Vênus ferida por Diomedes é socorrida por Íris
Afrodite ferida por Diomedes e socorrida por Íris (Joseph-Marie Vien, 1775) — um mortal fazendo sangrar uma deusa.

Some tudo e o retrato é devastador: um panteão de seres invejosos, mentirosos, feríveis e brigões. Para um adulto que lê por prazer, é folclore. Para a criança da cidade ideal, que ainda vai formar sua primeira ideia do sagrado a partir dali, é catástrofe. Não se educa a piedade com deuses assim.

acusação IIHeróis sem virtude — o problema de Aquiles

A segunda frente é a que mais surpreende, e é o coração pedagógico do processo. Os heróis deveriam ser modelos: as crianças hão de querer imitá-los. Mas os heróis de Homero, diz Sócrates, são péssimas referências — e o pior de todos, justamente, é o maior de todos.

Aquiles é um chorão. A expressão é, em substância, do próprio Sócrates: o herói máximo se lamenta em excesso, rola pela areia da praia, cobre a cabeça de cinzas, chora e geme sem controle (República, III, 387d–388d). Ora — se queremos guardiões capazes de encarar a morte com firmeza, que exemplo é esse, o de um semideus que desaba em prantos? Um homem bom, argumenta Platão, não considera a morte, nem a de um amigo, coisa tão terrível a ponto de se desfazer assim.

Tirésias prediz o futuro a Odisseu no submundo (Füssli)
Odisseu no submundo (Henry Füssli, c. 1780) — é ali que Aquiles diz preferir ser servo vivo a rei entre os mortos, verso que Platão quer riscar.

E Aquiles é ganancioso. Ele é ávido, cobiçoso de bens, e trata mulheres como propriedade — pilhadas em campanha, como aquela cuja posse desencadeia toda a sua briga com Agamêmnon. Aceita presentes para voltar a lutar, arrasta o corpo de Heitor, é insolente até com os deuses (República, III, 389d–391c). Filho de uma deusa, educado pelo sábio centauro Quíron — e ainda assim escravo da avidez e da ira. Não à toa Platão generaliza: os heróis de Homero se entregam à luxúria, à avidez e ao pranto excessivo. São tudo, menos virtude. E o veneno está exatamente aí: entregar a uma criança, como ideal a copiar, um herói sem autodomínio é ensiná-la a admirar o descontrole.

Há ainda um golpe fino, específico da Odisseia. Lembra da descida de Ulisses ao mundo dos mortos? Lá, a sombra de Aquiles — o herói — confessa algo terrível:

“Preferia estar na terra, como servo de outro, de um homem sem terra e de poucos recursos, a reinar sobre todos os mortos que já pereceram.” A sombra de Aquiles — Odisseia, XI, 489–491

Para o leitor da Odisseia, é uma comovente lição de humildade. Para Platão, é sabotagem: se o maior dos heróis pinta a morte como um horror, até para os valorosos, então o poema apaga a coragem do futuro soldado. Por isso Sócrates quer literalmente riscar esses versos da educação (República, III, 386c). Uma imagem sombria da morte é veneno para um exército — e para uma criança que ainda vai decidir se a coragem vale a pena.

acusação IIIUm poeta que não sabe o que diz

Até aqui, o problema estava no conteúdo. Agora Platão sobe um degrau e ataca o autor. E a acusação é dupla, demolidora.

Primeiro, num outro diálogo, o Íon, Platão nega ao poeta qualquer saber. O poeta não compõe por arte nem por conhecimento — compõe possuído, fora de si, como um profeta em transe. Sócrates usa a imagem do ímã: assim como a pedra magnética de Heracleia sustenta uma corrente de anéis de ferro, a Musa inspira o poeta, que inspira o rapsodo, que arrebata a plateia — e nenhum deles sabe o que faz; todos apenas transmitem uma força que vem de fora (Íon, 533d–534a). Daí a célebre definição:

O poeta é “uma coisa leve, alada e sagrada, incapaz de criar antes de estar inspirado, fora de si, quando a razão já não habita nele”. Platão — Íon, 534b

Parece um elogio; é uma sentença. Se o poeta cria sem razão e sem saber, então não é fonte de conhecimento nenhum — é um belo instrumento tocado por um sopro que ele mesmo não entende. Encanta sem compreender. E é por encantar sem compreender que se torna perigoso como educador.

Segundo, no livro X da República, vem o interrogatório quase ad hominem. Homero fala de guerra, de governo, de medicina, de navegação — mas o que ele foi? Sócrates crava as perguntas e responde a todas com um silêncio: Homero venceu alguma guerra por seu conselho? Inventou algo útil para a vida? Governou alguma cidade? Fundou uma escola e um modo de vida, como Pitágoras, deixando discípulos que o seguissem? Nada (República, X, 599b–600e). Não se conhece uma só pessoa que tenha se tornado melhor por causa dele. Ele fala de tudo e não fez nada; imita a aparência de todos os saberes sem possuir nenhum. Nas palavras que o vídeo que inspirou este texto bem resumiu: Homero “não tem virtudes próprias” dignas de serem celebradas. Um mestre sem sabedoria e sem virtude — eis o retrato final do acusado.

acusação IVA sombra da sombra

Falta a acusação mais filosófica, e mais radical: suponha que Homero tivesse teologia impecável e heróis exemplares. Ainda assim a própria poesia seria condenável (República, X, 595–608). Por quê? Pela mímesis, a imitação. Existe a Ideia perfeita de uma coisa — a cama; o artesão fabrica uma cama, cópia da Ideia; o pintor pinta aquela cama, cópia da cópia. O poeta, como o pintor, está “três graus afastado da verdade” (República, X, 597e–598e): produz sombras de sombras, aparências de aparências.

E há o efeito sobre a alma. A poesia épica apela à emoção, aos sentidos, à imaginação num registro baixo — e de menos à razão. Ela rega, no cidadão, exatamente as faculdades que deveriam ficar sob rédea. Treina a chorar com o herói que chora, a temer com quem teme. O bom cidadão deve ser mais racional que emocional; a poesia ensina o contrário. Fechada a quarta acusação, o promotor pede a pena máxima: banir os poetas da cidade ideal. Fim da acusação. Alguém defende o réu?

“Uma coisa leve, alada e sagrada.”— A definição do poeta no Íon soa como louvor, mas é a acusação central: quem cria fora de si, sem razão, não possui conhecimento algum para transmitir.

a defesaA defesa que Platão não previu: e se Homero quisesse dizer outra coisa?

Papiro grego homérico, século II d.C.
A leitura alegórica é antiquíssima: o papiro de Derveni (rolo de c. 340 a.C.) já a praticava. Acima, papiro homérico do séc. II d.C. (Biblioteca Britânica).

Sim, alguém defende — e a defesa é tão engenhosa que fundou uma tradição milenar. A tese é uma pirueta: “Concordo que, lida na superfície, a historinha é mesmo indecorosa. Só que Homero não estava falando apenas desse nível. Sob a casca da aventura ele escondeu conhecimentos profundos, que só os iniciados alcançam.” Nasce a leitura alegórica — as coisas não são o que parecem.

Ela é mais antiga do que se imagina. O mais velho documento grego que se conhece dessa prática é o papiro de Derveni — um rolo de cerca de 340 a.C., achado em 1962 perto de Salônica, que interpreta alegoricamente um poema órfico. E o defensor mais radical, já no século I d.C., é Heráclito, o Alegorista, que abre suas Questões Homéricas com uma frase que vira a acusação do avesso:

“Pois em tudo Homero teria sido ímpio, se nada quisesse dizer por alegoria.” Heráclito, o Alegorista — Questões Homéricas, §1 (séc. I d.C.)

Sacada brilhante: o escândalo deixa de ser prova de impiedade e vira prova de que há um sentido oculto — pois um poeta divino jamais diria aquilo ao pé da letra. O pioneiro dessa chave, ainda no século VI a.C., teria sido Teágenes de Régio, tido como o primeiro intérprete alegórico de Homero. E o exemplo dele é justamente a cena que mais escandalizava — a batalha dos deuses. Homero, diz Teágenes, não fazia teologia ali, e sim física: cada deus é uma força natural, e o combate entre eles é o jogo dos elementos que sustenta o mundo.

Hera é o ar. Hefesto, o fogo. Poseidon, a água. Apolo (ou Hélios), o sol. Ártemis, a lua. A “guerra” entre eles é apenas a tensão dos elementos — fogo contra água, seco contra úmido — de que se faz a natureza. Alegoria física atribuída a Teágenes — escólio à Ilíada, XX, 67 (via Porfírio)

De um só golpe, a passagem “blasfema” desaparece e no seu lugar surge um tratado de ciência natural disfarçado de mito. A partir daí, o método não para mais de crescer — até chegar ao seu auge, com uma ironia que Platão não poderia ter previsto.

o augeOdisseu vira a alma do mundo

Retrato de Proclo, filósofo neoplatônico
Proclo (412–485 d.C.) — salvou Homero ponto por ponto, e com as próprias armas de Platão (retrato imaginário).

A ironia é esta: quem leva a alegoria ao ápice são os neoplatônicos — gente da própria linhagem de Platão. Eles fazem as pazes entre o mestre e o poeta com um argumento astuto: Platão está certíssimo ao atacar a leitura superficial de Homero; mas, partindo da própria filosofia platônica, encontram-se no texto sentidos sublimes. Salva-se Homero com Platão, contra a letra de Platão. O grande nome é Proclo (séc. V d.C.), num monumental Comentário à República — e a chave que ele oferece é de tirar o fôlego para quem acabou de ler a Odisseia como aventura:

Odisseu é a alma racional. Toda a sua história — a luta para escapar do mar e voltar para casa — é a jornada da alma de cada um de nós, tentando se desvencilhar das tentações do “mar da matéria” para retornar ao verdadeiro lar: o Uno, o princípio único de onde tudo emana. Proclo — leitura alegórica da Odisseia
Ulisses e as Sereias (Waterhouse)
Amarrado ao mastro diante das Sereias (Waterhouse, 1891) — para Proclo, a alma que quer conhecer a tentação sem se entregar a ela.

Reveja, com esses olhos, o artigo anterior. Ulisses resistindo a Circe, recusando a imortalidade de Calipso, tapando os ouvidos dos remadores diante das Sereias — nada disso é mais aventura marítima. É a alma lutando para não afundar nas tentações da matéria, purificando-se rumo à união com o divino. A viagem de volta a Ítaca é a viagem de volta a Deus.

E o teste final da alegoria é aquela cena que ficou pendente lá atrás — a canção de Demódoco (Odisseia, VIII, 266–366). Afrodite, casada com o feio e coxo Hefesto, o trai com Ares. O Sol dedura o casal; Hefesto forja uma rede invisível e os prende, nus e ridículos, sob a gargalhada dos deuses. É comédia debochada, impiedosa — o pesadelo de Platão. Como Proclo salva isso?

Marte e Vênus surpreendidos por Vulcano
Ares e Afrodite presos na rede de Hefesto (Alexandre Guillemot, 1827) — comédia de adultério ou segredo do cosmos?
Afrodite é o princípio da união — o amor que mantém coeso o cosmos. Ares é o princípio da separação — o que produz individualidade e distinção. Só união: tudo viraria uma massa única. Só separação: tudo se dissolveria no caos. O demiurgo — o Hefesto da história — uniu os dois com seu artifício, e desse jogo de opostos nasceu a realidade que conhecemos: diversa, mas coesa. Proclo — a alegoria da rede de Hefesto

A cena de sexo mais debochada da Odisseia acaba de virar uma lição sobre a estrutura do universo. Onde havia um chifre divino, agora há metafísica. E é exatamente essa plasticidade — a de extrair do texto o que se quiser — que reaparecerá, para nossa surpresa, num lugar bem mais próximo de nós.

o ecoA mesma arma, agora na Bíblia

Porque essa escola não se limitou a Homero. Os Padres da Igreja e pensadores judeus como Fílon de Alexandria viviam num mundo saturado de cultura grega; todos conheciam Homero e os métodos alegóricos. E a Bíblia sofreu exatamente os mesmos ataques que Homero — e foi defendida exatamente da mesma maneira.

Fílon de Alexandria
Fílon de Alexandria — aplicou a Moisés a alegoria que os gregos aplicavam a Homero (gravura de A. Thevet, séc. XVI).
Orígenes de Alexandria
Orígenes de Alexandria — comparou abertamente ler Homero e ler os Evangelhos (gravura antiga).

Os críticos anticristãos — Celso, Porfírio, o imperador Juliano — acusavam a Bíblia do mesmíssimo pecado de Homero: um Deus antropomórfico e imperfeito, que se arrepende, é ciumento, e parece não saber de tudo — afinal pergunta a Adão “onde estás?” (Gn 3,9), como se não soubesse. É Xenófanes, palavra por palavra, virado contra as Escrituras. E a defesa? Idêntica à de Proclo. Fílon resolve a dupla criação do Gênesis alegoricamente: o capítulo 1 é a criação do mundo no plano das ideias; o capítulo 2, a materialização daquele protótipo (De opificio mundi). Orígenes ridiculariza o literalismo — seria preciso ser muito simplório para crer que Deus, como um agricultor, plantou um jardim, ou moldou o homem do barro como um oleiro (Dos Princípios, IV) — e chega a dizer, explicitamente, que do mesmo modo que Homero é lido generosamente pelos seus intérpretes, assim se devem ler os Evangelhos (Contra Celso, I). A ponte entre os dois mundos não é invenção minha: é dele.

Santo Agostinho em seu estúdio (Botticelli)
Agostinho de Hipona (Botticelli, c. 1490) — deu à alegoria uma régua: toda leitura deve levar ao amor a Deus e ao próximo.

Os próprios cristãos souberam nomear o dilema. Basílio de Cesareia, no século IV, escreveu aos jovens um pequeno tratado sobre como ler os poetas pagãos — Homero incluído — sem se corromper: com discernimento, à maneira das abelhas, que “não pousam em todas as flores, nem levam a flor inteira, mas tomam o que serve e deixam o resto” (Aos Jovens, §4). Colher o néctar, descartar o veneno. E Agostinho de Hipona — contemporâneo de Proclo — dá o exemplo mais arrematador. Pegue o Salmo 137 (136 na Vulgata), o lamento do exílio na Babilônia, que termina num verso brutal: “Feliz quem pegar os teus pequeninos e os arrojar contra a pedra.” Ao pé da letra, uma fantasia de infanticídio. Como um cristão engole isso?

“Não pode ser esse o sentido real do texto, porque Deus é bom.” Os “pequeninos da Babilônia” são os começos do pecado, as más inclinações quando ainda nascem; e a pedra contra a qual arrojá-los é Cristo. Esmagar o pecado no berço, antes que cresça, submetendo-o a Cristo — eis o sentido. Agostinho — Comentário ao Salmo 136 (Vulgata)

E a régua que rege tudo, para Agostinho, é a dupla caridade: toda interpretação da Escritura deve conduzir ao amor a Deus e ao próximo; se a sua leitura não chega lá, você está lendo errado (Da Doutrina Cristã, I e III). É a mesma engenharia dos leitores de Homero — buscar, sob a letra, um sentido digno do texto que se decidiu venerar.

o segundo vereditoAristóteles absolve a poesia

Platão e Aristóteles, detalhe da Escola de Atenas
Platão e Aristóteles (Rafael) — o mestre aponta para o alto das Ideias; o discípulo, a mão para a terra. A poesia divide os dois.

Há, porém, uma voz que o vídeo que me inspirou não menciona, e sem a qual a querela fica pela metade: a do maior discípulo de Platão. Aristóteles ouviu toda a acusação — e, na sua Poética, deu um veredito oposto, ponto por ponto.

Contra a acusação de que a imitação é vil, Aristóteles responde que a mímesis é natural e cognitiva: imitar é o primeiro impulso do ser humano desde a infância, e é imitando que aprendemos nossas primeiras lições; e há um prazer próprio, e legítimo, em reconhecer o mundo nas imitações (Poética, 4, 1448b). Onde Platão via cópia degradada, Aristóteles vê a forma mais antiga de conhecer. Contra a acusação de que a poesia rega paixões perigosas, ele propõe a catarse: a tragédia suscita o medo e a piedade justamente para purgá-los, dando-lhes vazão ordenada em vez de deixá-los apodrecer na alma (Poética, 6, 1449b). E então a inversão mais audaciosa:

“A poesia é algo mais filosófico e mais elevado do que a história: pois a poesia tende a exprimir o universal, e a história, o particular.” Aristóteles — Poética, 9, 1451b

Repare no tamanho disso. Platão expulsara o poeta por estar “três graus afastado da verdade”. Aristóteles responde que a boa poesia está mais perto da verdade do que o relato dos fatos — porque não conta o que aconteceu a este ou àquele, e sim o que pode acontecer a qualquer um: o humano em geral. A Odisseia não vale por Ulisses ter existido; vale porque todo homem, nela, se reconhece. A ficção não é mentira: é a via para uma verdade que o mero fato não alcança. É a absolvição — dada pelo próprio herdeiro do promotor.

para fecharA querela que nunca se encerrou

Repare no que aconteceu com o réu ao longo destes séculos. Platão o condenou como veneno pedagógico e o baniu da cidade. Os alegoristas o reintroduziram pela janela, transfigurado em escritura secreta sobre a alma e o cosmos. Aristóteles o absolveu num terceiro tribunal, por um motivo que nem o promotor nem os advogados haviam alegado — a poesia diz o universal. E os cristãos pegaram as ferramentas todas emprestadas para julgar o seu próprio livro sagrado. O mesmo Homero, os mesmos doze mil versos, cabendo em vereditos que se contradizem.

Fica no ar a pergunta que dá a este texto o seu fio de ouro. Quando Proclo diz que Odisseu é a alma, ou quando Agostinho diz que os bebês da Babilônia são o pecado nascente — eles estão retirando um véu e revelando um sentido que sempre esteve ali? Ou estão sobrepondo um significado novo a um texto que a sua época já não aceita, para mantê-lo relevante à custa do sentido original? Eu não tenho resposta fechada, e desconfio de quem tem. Mas há um fato que me fascina, e que independe da resposta: qualquer cultura que venera um texto o transforma ao longo do tempo sem mudar uma letra sequer. Basta trocar a interpretação. O texto é uma pedra; o que muda é a luz que se joga sobre ela.

E é por isso que este ensaio é o companheiro exato daquele que você leu antes. Ali seguimos Ulisses como quem lê uma aventura. Aqui descobrimos que os gregos a liam como escritura, que o maior dos filósofos a quis banir como veneno, que os místicos a converteram no mapa da alma e que Aristóteles a defendeu como verdade universal. Talvez seja essa a definição mais honesta de um clássico: não o livro que guarda um sentido eterno, mas aquele em que cada época enxerga o rosto de que precisa — e que, por sobreviver a todos os seus juízes, nunca envelhece. Platão perdeu a causa. A Odisseia continua de pé.

Vá além do texto · Biblioteca do Peregrino

A República de Platão na voz do Prof. Monir

Você assistiu Homero ser levado ao banco dos réus na República de Platão. Agora ouça a interpretação da República pelo Prof. José Monir Nasser — o diálogo inteiro, no acervo da Biblioteca do Peregrino.

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