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Diplomacia · EUA × Brasil · 12 de agosto de 2026

A celeuma da nomeação do
embaixador americano

Celso Amorim chamou de "bizarra" a forma como Washington conduziu a indicação de Daniel Perez para a embaixada em Brasília. Fomos à cronologia — inclusive a fontes americanas — para separar o que é fato do que é interpretação. E o detalhe muda bastante a leitura do episódio.

1º jun Trump anuncia Perez
51 × 47 Senado confirma (7 ago)
Sem agrément Brasil segura a aprovação
▶ A fala de Celso Amorim sobre a indicação do embaixador dos EUA. Publicado em @Andre17121979 (X).
▶ Outro registro da mesma declaração na CREDN. Publicado em @Pri_usabr1 (X).

01 · Os fatos, em ordemA cronologia do agrément

A fala de Amorim mistura duas etapas: a indicação pública de Perez e o pedido reservado de agrément. Abaixo, cada ação do lado de quem a praticou — Washington à esquerda, Brasília à direita — com a página da fonte que a documenta.

Estados Unidos Brasil
EUA 1º de junho de 2026

Trump anuncia publicamente Daniel Perez — então presidente da Câmara da Flórida — como embaixador dos EUA no Brasil. O anúncio veio antes de Washington pedir formalmente o agrément.

Matéria do Jornal do Comércio sobre Daniel Perez, o deputado escolhido por Trump para embaixador no Brasil.
Jornal do Comércio ↗
EUA Fim de junho de 2026

Os EUA encaminham ao Itamaraty o pedido formal de agrément — semanas depois do anúncio, invertendo a praxe. Até meados de julho, o Brasil ainda não havia dado o aval.

Matéria do Poder360: indicado de Trump a embaixador ainda não tem o aval do Brasil.
Poder360 ↗
Brasil 30 de julho de 2026

O Brasil segura o agrément havia semanas. Segundo o noticiário, a demora é deliberada — para evitar interferência às vésperas das eleições de outubro.

Matéria do Brasil 247: Brasil segura a aprovação do novo embaixador dos EUA para evitar interferência eleitoral.
Brasil 247 ↗
EUA 7 de agosto de 2026

O Senado americano confirma Perez por 51 votos a 47, num grande bloco de indicações votado em conjunto. Mesmo confirmado, ele não assume sem o agrément brasileiro.

Matéria da CNN Brasil sobre a aprovação de Daniel Perez pelo Senado dos EUA.
CNN Brasil ↗
Brasil 12 de agosto de 2026

Na CREDN, Amorim classifica de "bizarro" os americanos terem tornado a indicação pública e levado o nome ao Senado antes da concessão brasileira do agrément.

Matéria do Correio Braziliense com a fala de Celso Amorim chamando de bizarra a indicação.
Correio Braziliense ↗

Um lado terminou; o outro nem respondeu

Somadas as etapas, forma-se um quadro assimétrico: os Estados Unidos cumpriram tudo o que dependia deles — anúncio, pedido de agrément e confirmação no Senado — enquanto o Brasil sequer respondeu ao pedido.

Estados Unidos — etapas concluídas

  • Indicação anunciada por Trump1º de junho
  • Pedido formal de agrément enviado ao Itamaratyfim de junho
  • Confirmação no Senado, 51×47, em bloco com outras indicações7 de agosto

Do lado americano, o processo terminou.

Brasil — aguardando

  • Concessão do agrément — sem resposta

Decisão do governo Lula: não conceder agrément a nenhum novo embaixador antes das eleições de outubro. Não é recusa ao Perez.

O que diz Amorim: o chanceler frisou que o Brasil não recusou o nome. Foi uma decisão do governo não aceitar pedidos de agrément até o período eleitoral — o Planalto pretende analisar o caso só depois do segundo turno, em novembro. Ou seja: a porta não se fechou ao Perez em específico; ficou fechada a todos até a eleição.

02 · A avaliaçãoEntão Amorim tem razão?

Em uma parte factual, sim. Mas há uma diferença considerável entre "quebrar o protocolo" e uma "indicação às pressas".

No plano factual: Trump tornou pública a escolha de Perez antes de pedir formalmente o agrément. A sequência é confirmada pelo noticiário, que registra o pedido chegando ao Itamaraty semanas depois do anúncio.

Matéria do Poder360: o indicado de Trump ainda não tem o aval do Brasil; o pedido veio após o anúncio.
Fonte — Poder360 ↗

Mas "às pressas" é outra coisa. Perez foi anunciado em 1º de junho. O pedido ao Brasil chegou cerca de três a quatro semanas depois. Seu certificado oficial no Departamento de Estado é de 29 de junho. E o Senado só o confirmou em 7 de agosto — mais de dois meses após o anúncio. O processo americano não parece uma nomeação improvisada em questão de dias.

~3–4Semanas entre o anúncio e o pedido de agrément
2+Meses entre o anúncio e a confirmação no Senado
4Fontes ouvidas pela Reuters sobre a ordem dos fatos
1Passo fora da sequência: anunciar antes do agrément

O ponto realmente fora da sequência diplomática tradicional foi ter anunciado o nome antes de obter o agrément brasileiro — não a velocidade do processo.

E os americanos já responderam

Quando a Reuters perguntou diretamente ao Departamento de Estado sobre a demora brasileira, um porta-voz disse que Trump tem o direito de determinar quem representa os interesses americanos no exterior, que montava sua equipe diplomática "America First" sujeita ao conselho e consentimento do Senado, e concluiu:

"We reject any effort by foreign countries to interfere in our domestic processes." "Rejeitamos qualquer tentativa de países estrangeiros de interferir em nossos processos internos." — Porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, à Reuters

É uma interpretação quase oposta à de Amorim — e é o que estrutura o choque entre as duas capitais.

03 · O direito internacionalE a Convenção de Viena?

Aqui vale uma precisão importante — porque há duas afirmações diferentes sendo tratadas como se fossem a mesma.

O artigo 4º da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas determina que o Estado que envia um embaixador deve certificar-se de que o país receptor concedeu o agrément para que aquela pessoa seja acreditada como chefe da missão.

O Estado acreditante deve certificar-se de que a pessoa que pretende acreditar como chefe da missão obteve o agrément do Estado acreditado. "...must make certain that the agrément of the receiving State has been given for the person it proposes to accredit as head of the mission." — Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, art. 4º

Isso sustenta a importância do agrément. Mas é preciso cuidado com a afirmação mais forte — a de que a Convenção proíbe o presidente americano de anunciar seu pretendente ou de submetê-lo ao Senado antes do agrément. O costume diplomático é pedir o agrément confidencialmente primeiro; o próprio Manual de Redação do Itamaraty descreve essa sequência — mas costume e proibição jurídica não são a mesma coisa.

Página do Itamaraty no gov.br: Manual de Redação Oficial e Diplomática, que descreve a praxe do agrément.
Fonte — Itamaraty / MRE ↗

✔ "Os EUA quebraram o protocolo diplomático tradicional."

Há evidência forte de que sim: anunciar o nome antes de pedir o agrément inverte a praxe consagrada.

⚠ "Os EUA violaram a Convenção de Viena só por anunciar Perez antes do agrément."

Isso exige uma demonstração jurídica bem mais cuidadosa. A Convenção condiciona a acreditação — não necessariamente o anúncio ou a etapa no Senado.

Pista reveladora: mesmo depois de o Senado confirmar Perez, os próprios EUA reconhecem que ele não pode assumir a embaixada em Brasília enquanto o Brasil não conceder o agrément. Ou seja: a confirmação no Senado é um ato interno americano; a posse depende do sim brasileiro.
Matéria da CNN Brasil: Senado aprova Perez, mas ele não assume sem o agrément brasileiro.
Fonte — CNN Brasil ↗

04 · O choque de versõesDuas sequências, dois países

O episódio é, no fundo, um desacordo sobre qual é a ordem correta dos passos.

Brasil — a leitura de Brasília

Washington deveria ter seguido a sequência tradicional, com a consulta reservada vindo antes de qualquer anúncio.

consulta reservada ao Brasil → agrément → anúncio da indicação → Senado americano

EUA — a leitura de Trump

São coisas distintas: o presidente escolhe seu representante, o Senado decide se confirma, e o Brasil decide depois se aceita recebê-lo.

Trump escolhe → Senado confirma → o Brasil decide se aceita recebê-lo

05 · A pergunta em abertoO que ainda falta apurar

A pergunta decisiva — "quando exatamente o governo Trump entregou o nome ao Itamaraty?" — é a que pode esclarecer se houve mesmo "pressa". Até aqui, a janela foi estreitada para a semana de 22 a 26 de junho de 2026, mas não há documento público do Departamento de Estado com uma data exata do tipo "o pedido foi entregue em 24 de junho".

Isso não surpreende: pedidos de agrément são normalmente confidenciais. O próprio Itamaraty recusou-se a dar detalhes à Reuters, alegando a confidencialidade prevista no procedimento diplomático.

A pergunta objetiva que força uma resposta oficial

"On what date did the United States formally request agrément from the Brazilian government for Ambassador-designate Daniel Perez, and how does the State Department respond to Celso Amorim's August 12 assertion that the nomination was rushed and violated diplomatic convention?"

Ela obriga Washington a responder duas coisas separadamente: a data do pedido e a acusação de Amorim. Depois da fala pública de hoje na CREDN, o Departamento de Estado pode ser questionado sobre isso no próximo briefing — e aí teremos, enfim, a versão oficial americana sobre a acusação específica.

06 · ReferênciasFontes

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