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Reportagem · Segurança Alimentar · Julho de 2026

O Brasil e o
Mapa da Fome

Em 2025 o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU e, em 2026, continua fora. Mas o que é esse mapa? Ele não conta pessoas com fome uma a uma — é um modelo estatístico. Esta reportagem abre a caixa-preta do número: como a FAO o calcula, tenta reconstruí-lo com dados brasileiros reais, mostra onde o país é forte e onde é fraco, e por que a fome virou uma gangorra que cada troca de governo disputa.

< 2,5% Subalimentação (limiar do mapa)
~3.350 kcal/dia ofertadas por pessoa
~4,2% Pico da subalimentação (triênio 2020–22)
3 anos De defasagem no dado (média móvel)

AberturaUm mapa que não conta famintos

A frase "o Brasil saiu do Mapa da Fome" foi manchete em 2014, sumiu por volta de 2018, voltou como acusação em 2022 e reapareceu como comemoração em 2025. Antes de brigar sobre o que ela significa, vale entender o que ela mede — porque quase ninguém que a repete sabe.

O retrato em uma frase

O "Mapa da Fome" é o nome popular de um único indicador da FAO: a Prevalência de Subalimentação (PoU). Ele não é uma contagem de pessoas famintas — nenhum pesquisador bate na porta perguntando se você comeu. É uma estimativa estatística: cruza quantas calorias o país oferece, quão desigual é essa distribuição e qual o mínimo que um corpo precisa. Quando o modelo estima que menos de 2,5% da população consome menos calorias que o mínimo, o país "sai do mapa". Não significa fome zero. Significa cruzar uma linha.

1996ano em que a FAO criou o "Mapa da Fome"
2,5%da população: o limiar de saída
3 anosa média móvel que gera cada número
Sair do Mapa da Fome não é o mesmo que acabar com a fome. É o país atingir um patamar estatístico abaixo do qual a FAO deixa até de publicar o número exato. Em 2013, no melhor momento da série, o Brasil já estava fora do mapa — e ainda tinha milhões de pessoas em insegurança alimentar grave. As duas coisas convivem, e é aí que a política entra.

Capítulo 01Como a ONU constrói o número

A Prevalência de Subalimentação é uma probabilidade, não um censo. A FAO monta uma "curva de sino" do consumo de calorias do país inteiro e mede que fatia dessa curva cai abaixo do mínimo vital. Para desenhar essa curva, precisa de quatro peças.

1. DES — a oferta de calorias

Quantas calorias, em média, ficam disponíveis para cada brasileiro por dia. Sai do Balanço Alimentar (Food Balance Sheet): produção + importação − exportação − perdas − ração animal − usos industriais. É a média da curva — no Brasil, cerca de 3.350 kcal/dia.

2. MDER — o mínimo vital

A menor quantidade de energia que a população precisa para uma vida minimamente ativa, calculada por idade, sexo, estatura e atividade física. Não é o "ideal", é o piso. Para um país de renda média fica em torno de 1.800 a 1.900 kcal/dia. É a linha de corte.

3. CV — a desigualdade

O coeficiente de variação do consumo: o quanto as calorias estão mal distribuídas. Vem de pesquisas domiciliares — no Brasil, a POF do IBGE (destrinchada logo abaixo). É a peça decisiva: é ela que espalha a curva. Oferta alta com desigualdade alta ainda deixa gente embaixo da linha.

4. Skewness — a assimetria

Desde 2012 o modelo deixou de ser uma lognormal simples e ganhou um terceiro parâmetro, a assimetria, que ajusta o formato da cauda de baixo consumo. Refina onde a curva "afina" perto dos mais pobres.

Raio-X: como o IBGE faz a POF, a pesquisa que vira o "CV"

Vale abrir a caixa dessa fonte, porque é ela que alimenta o parâmetro mais decisivo do cálculo. A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) é o retrato mais minucioso de como o brasileiro ganha, gasta e come — a mesma pesquisa que define os pesos da cesta do IPCA e do INPC e as linhas de pobreza. Da POF sai o quanto o acesso às calorias é desigual: o coeficiente de variação que a FAO usa no Mapa da Fome.

57.920domicílios na amostra de 2017–2018
12 mesesde campo, para captar a sazonalidade
46.164pessoas no módulo que gera as calorias

Como ela é feita, por dentro

Amostra e alcance. A edição mais recente concluída, a POF 2017–2018 (a 6ª da série, iniciada com o ENDEF de 1974–75 e passando por 1987–88, 1995–96, 2002–03 e 2008–09), ouviu 57.920 domicílios em 1.900 municípios e 5.504 setores censitários. É amostragem probabilística em dois estágios (sorteiam-se setores censitários e, dentro deles, domicílios), cobrindo todo o território — urbano e rural, todas as UFs. Uma nova edição, a POF 2024–2025, já está em campo desde novembro de 2024, com cerca de 100 mil domicílios.

A coleta. O campo dura 12 meses (de junho de 2017 a julho de 2018), fatiado em 52 blocos de 7 dias, para pegar as variações de preço e consumo ao longo do ano. Cada domicílio é acompanhado por cerca de 9 dias: o próprio morador anota, numa caderneta de 7 dias, cada aquisição — com quantidade e valor — e responde a sete blocos (POF1 a POF7) sobre moradia, despesas, rendimentos e condições de vida.

De compra a caloria. As aquisições, registradas em quilos, viram calorias pela composição nutricional de cada alimento (sistema Atwater, com tabelas como a TACO da Unicamp). Num submódulo — o POF7, aplicado a 20.112 domicílios (34,7% da amostra) e 46.164 pessoas de 10 anos ou mais, em dois dias não consecutivos — registra-se o que cada indivíduo de fato comeu, dentro e fora de casa. É esse módulo que produz as calorias por pessoa e, com elas, a medida de desigualdade de consumo. Em 2017–2018 a POF ainda embutiu, pela 1ª vez, a escala de insegurança alimentar EBIA (14 perguntas sobre os 90 dias anteriores).

O que a POF não faz — e por que importa aqui. Ela é eventual: entre 2008–09 e 2017–18 passaram-se cerca de 9 anos, então o "CV" que a FAO usa para o Brasil pode estar apoiado em dados de vários anos atrás. Ela mede aquisição, não a ingestão exata (há perda e desperdício pelo caminho). E, ao contrário de 2002–03 e 2008–09, a edição de 2017–18 não mediu peso e altura da população. Nada disso a invalida — mas explica por que a subalimentação estimada pela FAO é um retrato com alguma defasagem, não uma foto de ontem.
"Mas a POF é de 2017–18 — como existe dado de fome em 2026?" Porque a POF alimenta só uma peça: o CV (a desigualdade), que muda devagar. A oferta de calorias, a população e a insegurança alimentar por entrevista (PNAD) se atualizam todo ano. A PoU de 2026 combina, então, oferta nova com uma desigualdade ancorada em 2017–18, tudo alisado por uma média de três anos — é uma estimativa modelada, não uma medição fresca de cada prato.
E não para na POF. A régua que reajusta o seu salário (INPC), a inflação de alimentos (IPCA), a linha de pobreza, o índice de Gini e a insegurança alimentar (PNAD) são todos do IBGE. Quase todo número desta reportagem passa, em algum ponto, por uma pesquisa do mesmo instituto — e a implicação disso fecha o artigo.

A fórmula, em uma linha

Com esses parâmetros, a FAO desenha a densidade de probabilidade f(x) do consumo de calorias e integra a parte que fica abaixo do mínimo:

PoU = probabilidade de consumir menos que o MDER = área da curva de calorias abaixo da linha do mínimo vital

O resultado é um percentual da população. Se ele fica abaixo de 2,5%, o país está fora do Mapa da Fome — e a FAO nem publica mais o valor exato, registra apenas "<2,5%".

Duas medidas que não são a mesma coisa. Não confunda a PoU (subalimentação crônica — o que define o Mapa da Fome, calculada por esse modelo de calorias) com a insegurança alimentar grave (medida pela escala FIES/EBIA, por entrevista, perguntando se a família ficou sem comida). São indicadores diferentes: em 2022 a insegurança grave chegou a 8% pela FIES, enquanto a PoU do mesmo período ficava em ~4%. A imprensa mistura os números o tempo todo. Aqui eles ficam separados — e o Mapa da Fome é sempre a PoU, não a escala de percepção.

Capítulo 02Derivando o resultado da ONU, com números brasileiros

Dá para chegar perto do "<2,5%" da FAO usando três números públicos do Brasil. Não é o cálculo oficial — é uma reconstrução simplificada para mostrar por que a conta fecha. E ela revela o ponto central: o que segura o Brasil no mapa nunca foi falta de comida.

Passo 1: se as calorias fossem iguais para todos

O Brasil oferta ~3.350 kcal por pessoa/dia. O mínimo vital é ~1.850. Se a comida fosse dividida igualzinho, ninguém ficaria abaixo do mínimo — sobrariam 1.500 kcal de folga por pessoa. A oferta é quase 1,8 vez a necessidade. Nesse mundo, a PoU seria praticamente zero.

Oferta de calorias (DES, FAO/FBS)~3.350 kcal/dia
Mínimo vital (MDER estimado)~1.850 kcal/dia
Folga por pessoa, se a divisão fosse igual+1.500 kcal/dia
~0% subalimentação num Brasil sem desigualdade

Passo 2: entra a desigualdade (o CV)

Mas a comida não é dividida igual. A POF do IBGE mostra que os padrões de consumo variam muito com a renda. Quando se injeta essa dispersão no modelo — uma curva lognormal com média 3.350, corte em 1.850 e um coeficiente de variação na faixa observada — a cauda de baixo consumo já não é nula:

Média da curva (DES)3.350 kcal/dia
Linha de corte (MDER)1.850 kcal/dia
Coeficiente de variação (CV) do consumo~0,28 a 0,30
Fatia da curva abaixo do corte≈ 2% a 3%
~2,5% bate com o "<2,5%" da FAO

É esse o mecanismo inteiro: com a mesma oferta de 3.350 kcal, um CV maior empurra a PoU para cima de 2,5% (país volta ao mapa); um CV menor a puxa para baixo (país sai). O Brasil não sai e entra no mapa porque produz mais ou menos comida — a produção só cresce. Ele entra e sai porque a desigualdade de acesso sobe e desce. E o que mexe nesse CV, na prática, é transferência de renda: quando o mais pobre tem dinheiro para comprar comida, a cauda encolhe.

Por que é "reconstrução" e não o número oficial. A FAO usa o MDER exato do Brasil (por estrutura demográfica), o CV medido nas tabelas da POF e o parâmetro de assimetria — tudo em bases internas. Os valores acima são as faixas públicas dessas variáveis. A conta serve para mostrar o mecanismo, não para substituir o cálculo de Roma. O ponto que ela prova é robusto: oferta ÷ desigualdade vs. mínimo — e no Brasil o problema mora no denominador.

Capítulo 03Vinte anos de gangorra

A PoU do Brasil despencou nos anos 2000, cruzou a linha de saída em meados da década de 2010, voltou a subir na virada para os anos 2020 e caiu de novo em 2024. Como a FAO publica médias de três anos, cada barra abaixo é um triênio.

limiar 2,5%
6,4%
2004–06
no mapa
3,9%
2010–12
<2,5%
2013–15
saiu (1ª vez)
<2,5%
2017–19
fora
~4,2%
2020–22
voltou
3,9%
2021–23
no mapa
<2,5%
2022–24
saiu (2ª vez)
<2,5%
2023–25
fora
Prevalência de Subalimentação (PoU) do Brasil por triênio. Barras vermelhas = no Mapa da Fome; verdes = fora. Barras "<2,5%" mostradas na altura do limiar (a FAO não publica o valor exato abaixo dele). Fontes: FAO/SOFI 2022–2026, FAOSTAT, IPES-Food.

A queda dos anos 2000 aparece com clareza na série anual do FAOSTAT, antes de a FAO parar de reportar o valor exato:

AnoPoU (subalimentação)Situação
20046,8%No mapa
20066,2%No mapa
20103,9%No mapa
20123,1%No mapa
20142,6%Beira da saída
2015–2019<2,5%Fora do mapa
2020–2022subindo (~4,2%, triênio)De volta ao mapa
2022–2024<2,5% (triênio)Fora de novo

O mesmo dado, agora com o governo real de cada ano

Se o triênio embaralha os mandatos, a saída é olhar ano a ano. O gráfico abaixo tem no eixo X quem de fato ocupava a Presidência em cada ano, e a barra mostra o nível da subalimentação — quanto mais alta, pior. Assim dá para ver sob qual governo a fome subiu e sob qual caiu, sem a maquiagem da média móvel.

limiar 2,5%
2,8
2013Dilma
(PT)
2,6
2014Dilma
(PT)
<2,5
2015Dilma
(PT)
<2,5
2016Dilma→
Temer
<2,5
2017Temer
(MDB)
<2,5
2018Temer
(MDB)
<2,5
2019Bolso-
naro
~3,3*pandemia🔒
2020Bolso-
naro
~4,0*pandemia🔒
2021Bolso-
naro
~4,3*pandemia
2022Bolso-
naro
2,8
2023Lula
(PT)
<2,5
2024Lula
(PT)
<2,5
2025Lula
(PT)
Dilma / Lula (PT) Temer (MDB) Bolsonaro ↓ fome caindo ↑ fome subindo pandemia (Covid-19) 🔒 lockdown / economia fechada
Subalimentação (PoU) anual do Brasil × governo em exercício. Barras marcadas com * (2020–2022) são interpolações do triênio 2020–22 (~4,2%) — estimativa, pois a FAO só publica o valor anual quando acima do piso; os demais anos são valores/faixas do FAOSTAT. 2016 dividido (Dilma até agosto, Temer depois).

Lido por governo, o desenho é mais direto do que a média móvel deixa ver: a fome caiu no fim do governo Dilma (saída de 2014), ficou de baixo perfil na transição, subiu de 2020 a 2022 — no baque da pandemia, sob o governo Bolsonaro — e despencou em 2023, puxada pela desinflação dos alimentos e pela transferência de renda.

Por que a fome piora em 2020 e melhora tão rápido em 2023?

É a pergunta que o gráfico provoca — e a resposta não cabe num único governo.

A piora não foi a posse de 2019

Em 2019 a subalimentação ainda estava abaixo de 2,5%: o ponteiro não se moveu na troca de governo. O tombo veio com a pandemia e os lockdowns em 2020 (🦠🔒) — desemprego, informais sem renda — e piorou com o corte do auxílio emergencial em 2021 (de R$ 600 para R$ 150–375) somado à explosão da inflação de alimentos (+14% em 2020, +11,6% em 2022, com a guerra na Ucrânia). Choques globais, fora do controle de qualquer Planalto.

A recuperação de 2023 não nasceu num só ato

Números tão estruturais não desabam em meses por causa de um decreto. Boa parte da queda de 2023 independe do governo novo: a inflação de alimentos caiu sozinha (de +11,6% para +1,03%), acompanhando a desinflação global pós-pandemia, mais o efeito base e o fim da pandemia. O que é política — a transferência de renda (Bolsa Família, mínimo) — funciona porque ataca o único gargalo que se move rápido: dinheiro no bolso para comprar comida.

De quem é o crédito? A resposta incômoda: de ninguém sozinho. Três fatos complicam a atribuição, e valem contra os dois lados. (1) A média móvel: o triênio 2022–2024, comemorado em 2025, embute 2022 — o pior ano da série, sob outro governo. (2) A herança: o próprio choque de renda que segurou milhões na pandemia — o auxílio emergencial de R$ 600 — nasceu em 2020, no governo Bolsonaro (com o valor elevado a R$ 600 pelo Congresso), não em 2023. (3) A inércia: o que despenca em um ano costuma ser preço (desinflação global), não reforma social. Parte relevante da melhora de 2023 foi colhida, não plantada, pelo governo que a comemorou — assim como parte da piora de 2020 foi herdada, não causada, por quem estava no poder.
Mas há uma lição que atravessa todos os governos e desmonta a briga: se um cheque de R$ 600 tirou milhões da fome em 2020, e a falta dele os empurrou de volta em 2021, então fome, no Brasil, é renda — não é falta de comida. O corolário é impiedoso e apartidário: tudo o que corrói a renda do pobre — inflação de alimentos, imposto sobre a comida, emissão de moeda que come o salário — vira fome, mesmo com o país batendo recorde de safra. É a ponte para o Capítulo 6.

Capítulo 04Onde o Brasil é forte: a comida existe, e sobra

Se o Mapa da Fome medisse produção de alimento, o Brasil estaria entre os melhores do planeta. O país é um dos maiores celeiros do mundo — e é por isso que a fome brasileira nunca foi um problema de oferta.

350,2 mi tsafra de grãos 2024/25 (recorde, CONAB)
~3.350kcal/dia por pessoa (330 acima da média mundial)
exportador mundial de carne bovina e de frango

A safra de grãos saltou de 324,4 milhões de toneladas em 2023/24 para 350,2 milhões em 2024/25 — recorde histórico, alta de 16% — com estimativa de 353,8 milhões para 2025/26. O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de soja, o maior exportador de milho, carne bovina, carne de frango, café, açúcar e suco de laranja: lidera as exportações globais de sete alimentos. A oferta calórica interna, ~3.350 kcal/dia, está bem acima da média mundial (~3.016 kcal/dia).

Sobra comida — por isso o problema é outro

Com a oferta em quase o dobro do mínimo vital (o cálculo está no Capítulo 2), num país onde a comida fosse repartida por igual o Mapa da Fome seria caso resolvido há décadas. É justamente por a produção ser tão folgada que toda a ação do indicador se concentra na outra ponta: a distribuição — o tema do próximo capítulo.

Capítulo 05Onde o Brasil é fraco: a distribuição

O calcanhar de Aquiles não é o campo, é a mesa. A mesma abundância que enche os portos de exportação convive com desigualdade regional e de renda que joga milhões abaixo da linha. Aqui o país é frágil — e é aqui que o indicador se mexe.

A insegurança alimentar por entrevista: o pico de 2022

Enquanto a PoU calculada por calorias ficava em ~4%, os indicadores de percepção — que perguntam diretamente às famílias se faltou comida — mostravam algo mais duro. Pela escala FIES, a FAO estimou a insegurança alimentar grave do Brasil em cerca de 8% da população em 2022 — algo como 17 milhões de pessoas. É um indicador diferente da PoU (mede percepção, não calorias) e, por isso, não entra no cálculo do Mapa da Fome — mas dá a dimensão de quão duro foi o auge da crise.

Depois, uma queda expressiva. O IBGE (PNAD Contínua/EBIA) registrou que 24,4 milhões de pessoas saíram da situação de fome em 2023, e a insegurança alimentar grave pela escala FIES caiu de 8% (2022) para 1,2% (2023) — recuo de 85% num ano, segundo o SOFI 2024 da FAO.

O mapa da desigualdade: fome tem CEP

A insegurança alimentar grave não se distribui por igual pelo território. Ela é duas a quatro vezes maior no Norte e Nordeste do que no Sul:

Norte
7,7%
Nordeste
6,2%
Centro-Oeste
3,6%
Sudeste
2,9%
Sul
2,0%
Insegurança alimentar grave por região, % da população — IBGE/PNAD Contínua (EBIA), 2023.
0,518Gini de renda em 2023 (menor da série; pico 0,545 em 2018)
39,7%insegurança alimentar total no Norte (vs 16,6% no Sul)
21,3 mifamílias no Bolsa Família em 2023 (R$ 670/mês em média)

É esse conjunto — Gini alto, Norte e Nordeste mais vulneráveis, consumo alimentar que muda de perfil conforme a renda (a POF 2017–2018 mostra que alimentos in natura vão de 55,6% das calorias no quinto mais pobre a 44,2% no mais rico) — que forma o CV do capítulo 2. Foi ele que subiu na virada dos anos 2020 e recuou depois, puxado sobretudo por transferência de renda. A queda de 2023 não veio de mais comida — a comida já sobrava. Veio de dinheiro no bolso do mais pobre para comprá-la.

Capítulo 06Comida se compra: quando o preço corre na frente do salário

Se a fome é renda, o acesso vira uma corrida entre dois números: o preço do alimento e o salário. Quando o preço ganha, o pobre come menos — mesmo com o salário "corrigido". Foi exatamente o que aconteceu.

O alimento pesa três vezes mais no prato do pobre

Um choque de preço de comida não atinge todo mundo igual. Pela POF do IBGE, a alimentação consome 22% do orçamento das famílias que ganham até dois salários mínimos — contra apenas 7,6% das mais ricas. É uma inflação regressiva: o mesmo aumento no arroz e na carne machuca proporcionalmente três vezes mais quem está embaixo. Para o mais pobre, alimentação e moradia já comem 61% de tudo o que entra.

A comida descolou do salário

O salário do trabalhador é reajustado, por lei e por acordo, pelo INPC — o índice de inflação que serve de régua para o mínimo e para os pisos. O problema: nos anos de choque, a comida subiu muito acima dessa régua. Ano a ano, a inflação de alimentos contra o índice que corrige o salário:

14,1
5,5
2020
7,9
10,2
2021
11,6
5,9
2022
1,0
3,7
2023
7,7
4,8
2024
1,4
3,9
2025
Inflação de alimentos (IPCA, % no ano) INPC — índice que corrige o salário (%)
Nos três anos de choque (2020, 2022, 2024), a barra vermelha do alimento passa por cima da régua azul do salário. Fontes: IBGE (IPCA grupo Alimentação e bebidas; 2025 = alimentação no domicílio) e INPC.

Não é todo ano — em 2021, 2023 e 2025 o salário correu na frente. Mas os saltos foram sempre do lado da comida. No acumulado de 2020 a 2025, o alimento subiu cerca de 52% e o INPC que corrige o salário, cerca de 39%: uma diferença de 13 pontos que saiu direto do prato de quem ganha menos. A FGV/IBRE mede o mesmo descolamento por outro recorte: de janeiro de 2020 a meados de 2026, a alimentação no domicílio acumulou +67,5% contra +43,3% da inflação cheia — a comida subiu 1,5 vez mais que a média.

E desde 2000? O salário mínimo foi reajustado pelo INPC (com ganhos reais em vários anos) e o índice acumulou cerca de 400% em 25 anos — o salário nominal se multiplicou por ~5. Mas a régua do salário é a inflação média; a cesta do dia a dia, puxada por alimentos, corre à frente nos anos ruins. Por isso o brasileiro sente que "o salário aumentou e não sobra" — porque o que ele mais compra, comida, subiu mais do que o índice que reajustou o salário dele.

O termômetro no mercado: a cesta básica

O DIEESE traduz isso em horas de trabalho. Em abril de 2025, a cesta básica na cidade mais cara (São Paulo) custava R$ 909,25 — exigindo 131 horas e 47 minutos de trabalho no mês, mais da metade da jornada mensal, só para alimentar uma pessoa. E o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro, calculado pelo DIEESE, chegou a R$ 7.528,56 em maio de 2025 — quase cinco vezes o mínimo em vigor (R$ 1.518). O tamanho desse buraco é a distância entre a mesa cheia do país e a mesa vazia da família.

R$ 909cesta básica em SP (abr/2025, DIEESE)
~132 hde trabalho/mês só para a cesta de 1 pessoa
4,96×o mínimo necessário vs o mínimo pago

Alguns itens fugiram de vez

A média esconde os campeões. No acumulado de 2020 a meados de 2026 (FGV/IBRE), itens básicos do prato popular dispararam muito além de qualquer salário:

Cenoura
+232%
Tomate
+198%
Batata
+170%
Óleo de soja
+107%
Leite
+82%
Carnes
+56%
Arroz
+52%
Alta acumulada de alimentos, jan/2020 a jun/2026 — FGV/IBRE. Para referência, o INPC (salário) subiu ~39% no mesmo intervalo.

O outro lado do balcão: a cadeia espremida

Se a comida encareceu, para onde foi o dinheiro? Não para o bolso do supermercado. O varejo de alimentos opera com uma das menores margens da economia: a ABRAS estima 1,5% a 3% de margem líquida. O caso que viralizou é ilustrativo: o Assaí (o atacadista, não uma tal "Rede Açaí") faturou R$ 20,6 bilhões no 1º trimestre de 2026 e lucrou R$ 86 milhões — o equivalente a R$ 0,42 de lucro a cada R$ 100 vendidos. Circulou nas redes que a empresa teria pago "dezenas de vezes o lucro em impostos"; o número real soma todos os tributos que atravessam o caixa (ICMS, PIS/Cofins recolhidos na cadeia), não o imposto sobre o lucro — mas a imagem que ele passa é correta: o Estado leva da comida muito mais do que quem a vende.

A leitura liberal: imposto e máquina de dinheiro no preço final

Para economistas de viés liberal, o preço da comida carrega dois pesos do próprio governo. O primeiro é tributário: com margens de 1% a 3%, o varejo repassa quase integralmente ao consumidor a carga de impostos que incide sobre alimentos — não há gordura para absorver. O segundo é monetário: o agregado M2 saltou de R$ 4,3 trilhões (2021) para R$ 6,6 trilhões (2024), alta de ~53%, com a base monetária crescendo 46% em doze meses no auge da pandemia. Mais moeda perseguindo a mesma comida pressiona preços. Nessa leitura, a inflação de alimentos que corta o acesso não é acidente climático — é, em boa parte, fabricada pela conta de impostos e pela emissão.

O contraponto, para não virar panfleto. Nem tudo é imposto e M2: seca, geada, câmbio (real desvalorizado encarece o que se exporta, como carne e soja) e choques globais (a guerra na Ucrânia em 2022) empurraram os preços com força — e valem para países de tributação e política monetária muito diferentes. A reforma tributária tenta atacar o lado fiscal: colocou 22 itens da cesta básica em alíquota zero e outros 14 com redução de 60%, embora o efeito real no preço só deva aparecer a partir de 2027. O ponto que sobrevive a qualquer viés: enquanto o preço da comida correr na frente do salário, a fila do Mapa da Fome volta a crescer — porque comida, no fim, se compra.

Capítulo 07A gangorra política da fome

Aqui está o padrão que motivou esta reportagem. A entrada e a saída do Brasil no Mapa da Fome passaram a ser narradas em compasso com os ciclos de poder: quando um lado sai do governo, "a fome voltou"; quando volta, "tiramos o Brasil da fome". As duas coisas são ditas — e documentadas abaixo — mas a defasagem de três anos do indicador complica quem quer cravar o crédito.

Setembro de 2014 · governo Dilma (PT)

1ª saída do mapa — "fato histórico"

A FAO anuncia, no SOFI 2014, que o Brasil deixou o Mapa da Fome. A ministra Tereza Campello comemora:

"Sair do Mapa da Fome é um fato histórico para o país. A fome, que persistiu durante séculos no Brasil, deixou de ser um problema estrutural."

2016–2019 · impeachment e governo Temer

"A fome voltou a partir do golpe"

Após o impeachment de Dilma (2016), o PT e a esquerda passam a atribuir o retorno da insegurança alimentar ao fim dos governos petistas. Tereza Campello, em 2019:

"Tudo o que nos levou a sair do Mapa da Fome já foi desconstituído; então é óbvio que o Brasil está voltando ao Mapa da Fome."

Ressalva de data: o retorno formal só seria registrado pela FAO no triênio 2019–2021 (SOFI 2022) — já sob Bolsonaro. A fala de 2019 era antecipatória.

2022 · governo Bolsonaro / campanha eleitoral

"33 milhões vão dormir sem ter o que comer"

Com a insegurança alimentar em alta no fim do ciclo, o retorno ao mapa vira munição de campanha. Lula, em 2022:

"A gente tinha tirado o Brasil do Mapa da Fome, mas a fome voltou. Trinta e três milhões de brasileiros hoje vão dormir toda noite sem ter o que comer."

A checagem "Fatos Primeiro" da CNN classificou a fala como correta quanto à saída (2014) e ao retorno (triênio 2019–2021) — sem discutir a atribuição a cada governo nem a defasagem dos dados. Vale um reparo, porém: o "33 milhões" citado por Lula vinha de um levantamento de sociedade civil (Rede PENSSAN, pela escala de percepção EBIA), acima dos dados oficiais do IBGE e da FAO (~17 milhões pela escala FIES) e que não integra o cálculo do Mapa da Fome — que é sempre a PoU.

2023–2025 · governo Lula (PT)

2ª saída do mapa — "conquista histórica"

O governo assume a meta de "retirar o Brasil do Mapa da Fome até 2026" via Plano Brasil Sem Fome. Em 28/07/2025, a FAO confirma a saída (triênio 2022–2024). Lula fala em "conquista histórica"; o ministro Wellington Dias:

"Sair do Mapa da Fome foi o primeiro objetivo do presidente Lula ao iniciar o mandato. Mostramos que, com o Plano Brasil Sem Fome, foi possível alcançar a meta em apenas dois anos."

21 de julho de 2026 · SOFI 2026

Confirmação — e trunfo eleitoral

O SOFI 2026 mantém o Brasil fora do mapa pelo 2º ano (triênio 2023–2025), com insegurança alimentar grave em 0,6%. A imprensa registra que a saída será destacada como trunfo na campanha de reeleição. A fome, de novo, entra no palanque.

O que a checagem diz dos dois lados

"Sair do mapa" ≠ "acabar com a fome"

A agência Aos Fatos classificou como falsa a alegação de que governos petistas "acabaram com a fome": sair do mapa é cruzar um limiar estatístico, não zerar a fome. Em 2013, no mínimo histórico, o país ainda tinha 7,2 milhões em insegurança alimentar grave. Vale para todos os governos que usaram o marco.

A defasagem que ninguém assume

Por ser média de três anos, o número que cada governo celebra ou condena carrega anos do governo anterior. A saída de 2025 (triênio 2022–2024) inclui 2022, o pior ano da série recente. O retorno de 2022 (triênio 2019–2021) inclui a pandemia. Nenhuma das transições coincide com a troca de mandato — embora a retórica finja que sim.

O padrão é simétrico e deliberado: quando o adversário governa, a entrada no mapa prova o fracasso dele; quando o próprio grupo governa, a saída prova o mérito próprio. Os dois lados usam o mesmo indicador com defasagem de três anos como se fosse um placar em tempo real. É bom combate político. É estatística ruim.

FechamentoUm número honesto, um uso desonesto

O Mapa da Fome é uma boa ferramenta mal usada. Ele mede algo real, com método sério — e é justamente por medir uma coisa específica que não pode ser esticado para provar tudo.

O que o número diz de verdade

Que menos de 2,5% dos brasileiros consomem, cronicamente, menos calorias que o mínimo vital. É um avanço real e mensurável, conquistado sobretudo por redução da desigualdade de acesso — não por aumento de oferta, que já era enorme. Merece ser comemorado pelo que é.

O que ele não diz

Não diz que a fome acabou. Não diz que ninguém mais dorme sem comer. Não diz que o mérito é de um governo só — o dado é uma média de três anos que atravessa mandatos. E não captura os milhões que ainda vivem em insegurança alimentar leve ou moderada, contados por outra régua.

A verdade que atravessa vinte anos de gangorra é quase entediante de tão estável: o Brasil sempre teve comida de sobra e sempre teve gente sem acesso a ela. O que muda de um triênio para o outro não é o campo — é quanto de renda chega à ponta mais pobre. Sobe a desigualdade, o país entra no mapa; cai, o país sai. Todo o resto é palanque.

Da próxima vez que alguém disser "o Brasil saiu do Mapa da Fome" ou "a fome voltou", faça uma única pergunta: de qual triênio você está falando, e o que aconteceu com a desigualdade nele? A resposta honesta quase nunca cabe num palanque — mas é a única que explica o número.

A variável embaixo de tudo: o IBGE

Há um fato que reorganiza toda esta reportagem: quase nenhum número aqui é, na origem, "da ONU". A FAO praticamente não gera dado próprio sobre o Brasil — ela roda o seu modelo em cima de pesquisas do IBGE. Veja de onde vem cada peça:

O que se medeFonte primária do dadoÉ IBGE?
Mapa da Fome (PoU)CV da POF + população do Censo (a FAO só modela por cima)Sim
Inflação de alimentos (IPCA)IBGESim
Índice que reajusta o salário (INPC)IBGESim
Desigualdade (Gini), renda, pobrezaPNAD ContínuaSim
Insegurança alimentar (EBIA/FIES)PNADSim
Safra recorde de grãosCONABNão
Emissão monetária (M2)Banco CentralNão

A fome, a inflação, o reajuste do seu salário, a linha de pobreza e a desigualdade pendem todos de um nó único. E não é preciso ninguém falsificar nada: basta uma escolha de método — a POF que só vai a campo a cada ~9 anos, o que entra na cesta do IPCA, o tamanho da amostra — para mover o número que a política inteira vai disputar. O IBGE é técnico e respeitado; o alerta aqui é estrutural, não moral.

O experimento: por que o IBGE decide o Mapa da Fome

A prova final. Deixe os dados da ONU parados — as calorias que o Brasil oferta e o mínimo que um corpo precisa. Mexa só na variável do IBGE: a desigualdade no acesso às calorias, medida pela POF/PNAD. Deslize e veja o Brasil entrar ou sair do Mapa da Fome sem uma única caloria a mais ou a menos ser produzida.

Calorias ofertadas (produção/oferta)3.350 kcal/diadado da ONU — fixo
Mínimo vital (necessidade)1.850 kcal/diadado da ONU — fixo
← mais igual (menos fome)mais desigual (mais fome) →
1,8% Fora do mapa
Reconstrução simplificada (curva lognormal) com a mesma matemática do Capítulo 2. A oferta (3.350) e o mínimo (1.850) são fixos; só a desigualdade — o dado do IBGE — se move. É ela, sozinha, que decide se o Brasil está no mapa.

TransparênciaFontes dos dados

Os números vêm de fontes oficiais (FAO, IBGE, CONAB, MDS, Banco Central) e de instituições de pesquisa (IPES-Food, FGV/IBRE, DIEESE). Onde há estimativa, faixa metodológica ou defasagem de ano, isso foi sinalizado no texto. A reconstrução da PoU no capítulo 2 é ilustrativa, não o cálculo oficial da FAO.

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