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3 crianças mortas • 24 de janeiro de 2023

A mãe que
matou os três filhos

Lindsay Clancy, enfermeira obstétrica, estrangulou os próprios filhos — de 5 anos, 3 anos e 8 meses — na cidade de Duxbury, Massachusetts. Três anos depois, o julgamento virou palco de algo que boa parte da opinião pública achou impensável: um movimento nacional de apoio à ré, com doações milionárias, multidões vestidas de rosa e vídeos de "solidariedade".

Lindsay Clancy durante seu julgamento em Plymouth, Massachusetts
Lindsay Marie Clancy
Ré • 3 acusações de homicídio em 1º grau
Julgamento • Plymouth County, MA

Foto: Boston Globe / Getty Images.

Vítimas
3 filhos
5 anos, 3 anos e 8 meses
Arrecadado para a família
US$ 880 mil
Vaquinha com meta de US$ 2 milhões
Apoiadores de rosa
400+
Ato "Peace for Lindsay", 20/ago
Alcance do movimento
18+
Estados dos EUA + atos no exterior
Antes de tudo, as vítimas

Três crianças

O caso ficou conhecido pelo nome da mãe. Mas quem morreu foram três crianças pequenas, estranguladas dentro da própria casa, num porão, enquanto o pai tinha saído para uma tarefa rápida.

Cora
5 anos

A filha mais velha do casal, nascida em dezembro de 2017.

Dawson
3 anos

O filho do meio, nascido em setembro de 2019.

Callan
8 meses

O caçula, um bebê, nascido em maio de 2022 — poucos meses antes da tragédia.

Cronologia

Linha do Tempo do Caso

2022
Maio de 2022
Nasce o terceiro filho do casal, Callan. Nos meses seguintes, a saúde mental de Lindsay — enfermeira do setor de parto do Massachusetts General Hospital — se deteriora: insônia, agitação e pensamentos de se machucar.
Jan 23
1 a 6 de janeiro de 2023
Lindsay é internada no McLean Hospital, referência psiquiátrica. Recebe alta em 6 de janeiro. Segundo a acusação, foram cerca de 13 medicamentos psiquiátricos prescritos ao longo de poucos meses.
24 Jan
24 de janeiro de 2023 — o crime
Dezenove dias após a alta psiquiátrica, Lindsay manda o marido, Patrick, a uma farmácia e a um restaurante. Na ausência dele, estrangula os três filhos no porão com faixas de exercício e, em seguida, tenta o suicídio pulando de uma janela do segundo andar. Sobrevive, mas fica paraplégica.
Fev 23
Fevereiro de 2023
Lindsay é indiciada por um grande júri e se declara inocente de três acusações de homicídio em primeiro grau e de estrangulamento. Patrick divulga uma carta pública pedindo perdão à esposa.
2026
Início de 2026
Patrick pede o divórcio e, em abril, casa-se novamente. Lindsay e Patrick movem ações por erro médico contra os antigos profissionais de saúde dela.
27 Jul
27 de julho de 2026 — começa o julgamento
Tem início, no Plymouth County Superior Court, o julgamento. A defesa admite os atos, mas alega inimputabilidade por psicose pós-parto não diagnosticada. A acusação sustenta que houve premeditação.
20 Ago
20 de agosto de 2026 — a multidão de rosa
Mais de 400 pessoas, a maioria vestida de rosa, se reúnem em frente ao tribunal no ato "Stand in Peace for Lindsay". O movimento, nascido nas redes, já tinha réplicas em mais de 18 estados e até fora dos EUA.
24 de janeiro de 2023

O Crime

Lindsay Clancy tinha, por fora, a vida que muita gente sonha: casa em Duxbury, três filhos, carreira de enfermeira obstétrica no maior hospital de Boston. Por dentro, os autos descrevem meses de colapso psíquico após o nascimento do caçula.

Naquela noite, ela pediu que o marido saísse para buscar remédios e comida. Sozinha com as crianças, estrangulou os três com faixas elásticas de exercício e tentou tirar a própria vida saltando de uma janela. Patrick voltou minutos depois e encontrou a cena; foi ele quem ligou para a emergência.

A acusação afirma que, nos dias anteriores, Lindsay pesquisou na internet sobre alucinações, psicose e "formas de morrer", e organizou o momento para ficar sozinha com os filhos — indícios que, para o Ministério Público, apontam para premeditação, não para um surto involuntário.
Lindsay Clancy, de blusa rosa, ao lado de seu advogado de defesa Kevin Reddington no tribunal
Lindsay Clancy ao lado do advogado de defesa Kevin Reddington, durante o julgamento em Plymouth. Foto: Boston Globe / Getty Images.
A antiga casa da família Clancy em Duxbury, Massachusetts
A antiga residência da família Clancy, em Duxbury, Massachusetts, onde ocorreu o crime. Foto: Getty Images.
A tese em julgamento

Psicose pós-parto: doença real, defesa em disputa

A defesa não nega os atos — sustenta que Lindsay era inimputável, tomada por uma psicose pós-parto não diagnosticada. Entender a diferença entre o que a acusação e a defesa alegam é a chave do processo.

O QUE DIZ A DEFESA

Uma doente sem tratamento adequado

A psicose pós-parto é uma condição psiquiátrica grave e rara, que pode incluir delírios e alucinações. A defesa afirma que Lindsay pediu ajuda repetidas vezes, foi medicada com dezenas de remédios, internada e liberada — e que o sistema de saúde falhou em enxergar a gravidade do quadro. Após os crimes, ela teria relatado ouvir "uma voz masculina" mandando matar os filhos.

Nessa leitura, ela não seria uma assassina fria, e sim uma pessoa que perdeu o contato com a realidade — e a punição cabível seria tratamento, não prisão.

O QUE DIZ A ACUSAÇÃO

Ato deliberado e planejado

O Ministério Público argumenta que vários psiquiatras que avaliaram Lindsay antes do crime não registraram sinais de psicose. Para a promotoria, as buscas na internet, o afastamento proposital do marido e a organização da cena revelam premeditação — uma decisão consciente, e não um surto que apagou a noção do certo e do errado.

A distinção é jurídica e decisiva: nos EUA, a absolvição por insanidade exige provar que, no momento do ato, o réu não compreendia a natureza ou a ilicitude da conduta.

Imagens do julgamento

Trechos das sessões e depoimentos, transmitidos pela imprensa norte-americana.

Sessão do julgamento (Dia 10), transmissão ao vivo.
Depoimento do ex-marido, Patrick Clancy.
Cobertura das evidências apresentadas em plenário.
A pergunta que todo mundo faz

Ela se arrependeu?

É talvez a pergunta mais repetida sobre o caso — e a resposta depende de qual leitura se acredita, porque é justamente esse o nó do julgamento. Um detalhe pesa sobre tudo: Lindsay não depôs. Tudo o que se sabe do estado emocional dela veio de diário, mensagens, avaliações médicas e do comportamento em plenário — nunca de um testemunho direto, submetido a perguntas da acusação.

OS SINAIS DE SOFRIMENTO E REMORSO

Horror, culpa e choro

  • Numa avaliação hospitalar dois dias depois do crime, ela escreveu que estava "horrorizada" (horrified) com o que havia feito.
  • No tribunal, ao serem exibidas as fotos das autópsias, ela chorou tão alto que o juiz precisou interromper a sessão duas vezes; ouviram-na dizer, entre lágrimas, "I can't do it!" ("eu não consigo").
  • Trechos do diário lidos ao júri revelam culpa e exaustão: "é como se eu estivesse tão desesperada por uma pausa mental (…) que minha mente tenta criar algo fisicamente errado comigo".
A LEITURA DA ACUSAÇÃO

"Lúcida" — e um bilhete anterior

  • A promotoria afirma que, antes dos assassinatos, ela escreveu que "mais ou menos" (sort of) se arrependia dos filhos mais velhos — e apresenta isso como indício de premeditação, não de amor materno em surto.
  • Dois psiquiatras forenses testemunharam que, nos dias seguintes ao crime, ela parecia lúcida e racional — o que a acusação usa para contestar a tese de psicose.
  • Nessa leitura, o choro e o "horror" seriam a reação de quem compreende o que fez — e não a prova de que não sabia o que fazia no momento do ato.
Em resumo:fortes sinais de angústia e horror de Lindsay com o que fez — mas se isso é "arrependimento genuíno de uma pessoa doente" ou "reação de quem foi pega e entende a gravidade" é exatamente o que separa a tese da defesa da tese da acusação. O júri de Plymouth terá de decidir não apenas se ela se arrependeu, mas o que esse arrependimento significa juridicamente.
O que dividiu os Estados Unidos

O apoio inacreditável

Casos de mães que matam os próprios filhos costumam gerar horror unânime. O de Lindsay Clancy fez o contrário: enquanto uma parte do país se revoltava, outra parte se mobilizou a favor dela — com dinheiro, camisetas, cartazes e vídeos. Foi essa reação, mais do que o crime em si, que transformou o caso em fenômeno nacional.

Multidão vestida de rosa em apoio a Lindsay Clancy, com camisetas 'We Stand Together'
Manifestantes de rosa em frente ao tribunal, com camisetas "We Stand Together". Imagem: Frontlines / TPUSA.
Apoiadoras de Lindsay Clancy reunidas do lado de fora do tribunal filmando com celulares
O ato reuniu centenas de pessoas em Plymouth. Imagem: Frontlines / TPUSA.

Quase US$ 1 milhão em doações

Uma vaquinha on-line criada para os pais de Lindsay, Michael e Paula Musgrove, arrecadou mais de US$ 880 mil em cerca de 25 mil doações, rumo à meta de US$ 2 milhões — para bancar gastos com a "contínua ajuda à filha".

Multidões de rosa

No dia 20 de agosto, mais de 400 pessoas — quase todas mulheres — formaram um círculo diante do tribunal no ato "Stand in Peace for Lindsay", com cartazes onde se lia "Believe" ("acredite"), "She Needed Help" ("ela precisava de ajuda") e "Peace for Lindsay".

O bordão "Same, Lindsay"

Nas redes, surgiu uma trend de mães se filmando chorando com os próprios filhos no colo e dizendo "Same, Lindsay" ("igual a você, Lindsay") — identificando-se com o esgotamento dela. Os atos presenciais se espalharam por mais de 18 estados e ganharam versões no Reino Unido, na África do Sul e na Holanda.

O VÍDEO QUE VIRALIZOU

"Agradecendo por ela ter matado os filhos"

O veículo conservador Frontlines / TPUSA compilou cenas do ato de apoio e falas de apoiadoras. O material — reproduzido abaixo — foi divulgado com a leitura de que se estaria, na prática, celebrando uma mulher que matou os três filhos. É essa interpretação que incendiou o debate. Assista e tire suas conclusões.

Vídeo: Frontlines / Turning Point USA (X / @FrontlinesTPUSA). Reproduzido para fins jornalísticos e de comentário. O recorte e a narração são de responsabilidade do veículo de origem.

Onde empatia e responsabilidade se chocam

O Debate

O caso rachou a opinião pública americana numa linha que virou quase ideológica. De um lado, quem vê uma vítima do adoecimento materno e de um sistema de saúde falho. De outro, quem vê a banalização do assassinato de três crianças — com o foco todo deslocado para a mãe, e nenhum para quem morreu.

A LEITURA DOS APOIADORES

"Ela precisava de ajuda"

Para os apoiadores, o caso é um alerta sobre psicose e depressão pós-parto e sobre como o sistema de saúde trata (ou ignora) mulheres em sofrimento. Argumentam que a solidariedade é à doença, não ao crime, e que qualquer mãe exausta pode reconhecer, com horror, o abismo que se abriu na vida dela.

A LEITURA DOS CRÍTICOS

"E as três crianças?"

Comentaristas conservadores — e boa parte do público — enxergam algo mais sombrio: uma campanha que transforma a assassina em vítima e apaga da conta as três crianças mortas. Vaquinha milionária, camisetas e vídeos "solidários" soariam, para eles, como normalizar o infanticídio em nome de uma narrativa. A pergunta que repetem é simples: quem chora por Cora, Dawson e Callan?

Onde os fatos são firmes e onde é interpretação: é fato que Lindsay Clancy matou os três filhos (a própria defesa admite os atos); é fato que houve vaquinha de quase US$ 1 milhão para a família, atos com centenas de pessoas de rosa e uma trend de identificação nas redes. Já o significado disso — solidariedade legítima a uma doente ou celebração de um crime — é disputa de opinião. Este dossiê reúne o que aconteceu e as duas leituras; o veredicto sobre a responsabilidade penal caberá ao júri de Plymouth.
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