Lindsay Clancy, enfermeira obstétrica, estrangulou os próprios filhos — de 5 anos, 3 anos e 8 meses — na cidade de Duxbury, Massachusetts. Três anos depois, o julgamento virou palco de algo que boa parte da opinião pública achou impensável: um movimento nacional de apoio à ré, com doações milionárias, multidões vestidas de rosa e vídeos de "solidariedade".
Foto: Boston Globe / Getty Images.
O caso ficou conhecido pelo nome da mãe. Mas quem morreu foram três crianças pequenas, estranguladas dentro da própria casa, num porão, enquanto o pai tinha saído para uma tarefa rápida.
A filha mais velha do casal, nascida em dezembro de 2017.
O filho do meio, nascido em setembro de 2019.
O caçula, um bebê, nascido em maio de 2022 — poucos meses antes da tragédia.
Lindsay Clancy tinha, por fora, a vida que muita gente sonha: casa em Duxbury, três filhos, carreira de enfermeira obstétrica no maior hospital de Boston. Por dentro, os autos descrevem meses de colapso psíquico após o nascimento do caçula.
Naquela noite, ela pediu que o marido saísse para buscar remédios e comida. Sozinha com as crianças, estrangulou os três com faixas elásticas de exercício e tentou tirar a própria vida saltando de uma janela. Patrick voltou minutos depois e encontrou a cena; foi ele quem ligou para a emergência.
A defesa não nega os atos — sustenta que Lindsay era inimputável, tomada por uma psicose pós-parto não diagnosticada. Entender a diferença entre o que a acusação e a defesa alegam é a chave do processo.
A psicose pós-parto é uma condição psiquiátrica grave e rara, que pode incluir delírios e alucinações. A defesa afirma que Lindsay pediu ajuda repetidas vezes, foi medicada com dezenas de remédios, internada e liberada — e que o sistema de saúde falhou em enxergar a gravidade do quadro. Após os crimes, ela teria relatado ouvir "uma voz masculina" mandando matar os filhos.
Nessa leitura, ela não seria uma assassina fria, e sim uma pessoa que perdeu o contato com a realidade — e a punição cabível seria tratamento, não prisão.
O Ministério Público argumenta que vários psiquiatras que avaliaram Lindsay antes do crime não registraram sinais de psicose. Para a promotoria, as buscas na internet, o afastamento proposital do marido e a organização da cena revelam premeditação — uma decisão consciente, e não um surto que apagou a noção do certo e do errado.
A distinção é jurídica e decisiva: nos EUA, a absolvição por insanidade exige provar que, no momento do ato, o réu não compreendia a natureza ou a ilicitude da conduta.
Trechos das sessões e depoimentos, transmitidos pela imprensa norte-americana.
É talvez a pergunta mais repetida sobre o caso — e a resposta depende de qual leitura se acredita, porque é justamente esse o nó do julgamento. Um detalhe pesa sobre tudo: Lindsay não depôs. Tudo o que se sabe do estado emocional dela veio de diário, mensagens, avaliações médicas e do comportamento em plenário — nunca de um testemunho direto, submetido a perguntas da acusação.
Casos de mães que matam os próprios filhos costumam gerar horror unânime. O de Lindsay Clancy fez o contrário: enquanto uma parte do país se revoltava, outra parte se mobilizou a favor dela — com dinheiro, camisetas, cartazes e vídeos. Foi essa reação, mais do que o crime em si, que transformou o caso em fenômeno nacional.
Uma vaquinha on-line criada para os pais de Lindsay, Michael e Paula Musgrove, arrecadou mais de US$ 880 mil em cerca de 25 mil doações, rumo à meta de US$ 2 milhões — para bancar gastos com a "contínua ajuda à filha".
No dia 20 de agosto, mais de 400 pessoas — quase todas mulheres — formaram um círculo diante do tribunal no ato "Stand in Peace for Lindsay", com cartazes onde se lia "Believe" ("acredite"), "She Needed Help" ("ela precisava de ajuda") e "Peace for Lindsay".
Nas redes, surgiu uma trend de mães se filmando chorando com os próprios filhos no colo e dizendo "Same, Lindsay" ("igual a você, Lindsay") — identificando-se com o esgotamento dela. Os atos presenciais se espalharam por mais de 18 estados e ganharam versões no Reino Unido, na África do Sul e na Holanda.
O veículo conservador Frontlines / TPUSA compilou cenas do ato de apoio e falas de apoiadoras. O material — reproduzido abaixo — foi divulgado com a leitura de que se estaria, na prática, celebrando uma mulher que matou os três filhos. É essa interpretação que incendiou o debate. Assista e tire suas conclusões.
Vídeo: Frontlines / Turning Point USA (X / @FrontlinesTPUSA). Reproduzido para fins jornalísticos e de comentário. O recorte e a narração são de responsabilidade do veículo de origem.
O caso rachou a opinião pública americana numa linha que virou quase ideológica. De um lado, quem vê uma vítima do adoecimento materno e de um sistema de saúde falho. De outro, quem vê a banalização do assassinato de três crianças — com o foco todo deslocado para a mãe, e nenhum para quem morreu.
Para os apoiadores, o caso é um alerta sobre psicose e depressão pós-parto e sobre como o sistema de saúde trata (ou ignora) mulheres em sofrimento. Argumentam que a solidariedade é à doença, não ao crime, e que qualquer mãe exausta pode reconhecer, com horror, o abismo que se abriu na vida dela.
Comentaristas conservadores — e boa parte do público — enxergam algo mais sombrio: uma campanha que transforma a assassina em vítima e apaga da conta as três crianças mortas. Vaquinha milionária, camisetas e vídeos "solidários" soariam, para eles, como normalizar o infanticídio em nome de uma narrativa. A pergunta que repetem é simples: quem chora por Cora, Dawson e Callan?