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Paris · 18 de março – 28 de maio de 1871

A Comuna
de Paris

Em 72 dias, os trabalhadores de Paris construíram o primeiro governo operário da história. Em 7 dias, Versalhes o destruiu. Entre 10.000 e 20.000 pessoas foram mortas numa única semana. Os corpos ficaram nas ruas. O mundo nunca mais falou de política da mesma forma.

Maximilien Luce · Uma Rua de Paris em Maio de 1871, 1903–1906 · Musée d'Orsay, Paris

Adolphe Thiers — retrato por Léon Bonnat
Léon Bonnat · Retrato de Adolphe Thiers, 1876 — O presidente da República que negociou com os prussianos para liberar soldados e usá-los para matar os próprios franceses de Paris.

A França quebrada

Em setembro de 1870, a França perdeu a guerra contra a Prússia em menos de dois meses. O imperador Napoleão III foi capturado em batalha. Paris ficou sitiada por quatro meses.

Quando o armistício finalmente chegou, o preço era humilhante: Alsácia e Lorena entregues à Prússia, cinco bilhões de francos em ouro como reparação de guerra, tropas prussianas desfilando pelas ruas de Paris.

Os trabalhadores parisienses — que haviam suportado o cerco, passado fome, perdido filhos — estavam armados. Durante o cerco, tinham formado a Guarda Nacional. Tinham 400 canhões comprados com dinheiro coletado entre eles mesmos.

O novo governo, instalado em Versalhes e liderado por Adolphe Thiers, queria esses canhões de volta.

Paris havia sobrevivido à Prússia. Não sobreviveria ao próprio governo francês.

18 de março — Paris toma as ruas

Na madrugada de 18 de março de 1871, Thiers mandou tropas a Montmartre para confiscar os canhões da Guarda Nacional. O que aconteceu depois ninguém havia planejado.

As mulheres do bairro acordaram primeiro. Saíram para as ruas e bloquearam os soldados com os próprios corpos. Os homens vieram depois. A multidão se interpôs entre as tropas e os canhões.

Os soldados se recusaram a atirar. Confraternizaram com a população. Dois generais — Lecomte e Thomas — foram capturados pelo povo e executados.

Thiers fugiu para Versalhes com o governo inteiro. Levou consigo a polícia, os funcionários, os juízes.

Paris acordou naquela manhã sem governo. E decidiu se governar sozinha.

Não foi uma revolução planejada. Foi um povo que simplesmente se recusou a obedecer — e que, de repente, estava livre.
Barricada de Paris, abril de 1871 — fotografia de Pierre-Ambrose Richebourg
Pierre-Ambrose Richebourg · Barricada de Paris, abril de 1871 · Metropolitan Museum of Art — Fotografia real das barricadas erguidas pelos Communards. As barricadas eram ao mesmo tempo defesa militar e símbolo político.

72 dias de governo operário

72
dias de duração da Comuna
92
membros eleitos para o Conselho da Comuna
1871
primeira vez que operários governam uma capital

Em 72 dias, a Comuna de Paris fez o que séculos de parlamentos europeus jamais tinham feito.

Separou a Igreja do Estado. Declarou ensino laico e gratuito. Cancelou as dívidas de aluguel acumuladas durante o cerco prussiano. Devolveu as ferramentas que os trabalhadores haviam empenhado para sobreviver ao inverno.

Proibiu o trabalho noturno nas padarias. Garantiu salário igual para professores homens e mulheres. Aboliu as multas sobre os salários dos operários. Decretou que as fábricas abandonadas pelos patrões seriam geridas pelos próprios trabalhadores.

Não era utopia. Era administração. A mesma cidade que havia sido governada por reis, imperadores e burgueses estava sendo gerida por sapateiros, tipógrafos, professoras e guardas nacionais.

A Comuna não prometeu o paraíso. Ela simplesmente começou a construí-lo — com os meios que tinha, no tempo que lhe restava.

O tempo era pouco. Versalhes estava reorganizando o exército a 20 quilômetros de distância.

Louise Michel — A Virgem Vermelha da Commune
Louise Michel · Gravura por A. Néraudan, c. 1871 — Professora, anarquista e poetisa de Montmartre. Comandou um batalhão de mulheres nas barricadas. Foi deportada para a Nova Caledônia. Não se arrependeu de nada.

Louise Michel — A Virgem Vermelha

Havia muitos líderes na Comuna. Havia apenas uma Louise Michel.

Professora primária em Montmartre, anarquista declarada, poetisa. Quando a revolução começou, ela estava na linha de frente. Quando as barricadas começaram a cair, ela ainda estava nas barricadas.

Organizou mulheres para combater. Tratou feridos. Carregou armas. Em várias ocasiões, pediu explicitamente para ir às posições mais perigosas.

Quando foi julgada pelo tribunal militar de Versalhes, recusou qualquer defesa. Disse aos juízes:

"Já que parece que todo coração que bate pela liberdade tem direito apenas a um pouco de chumbo, reivindico a minha parte. Se me deixarem viver, não vou parar de clamar por vingança."

Foi deportada para a Nova Caledônia. Ficou oito anos. Voltou para a França. Continuou organizando até morrer, em 1905, em plena atividade política.

Versalhes fecha o cerco

Enquanto a Comuna governava, Thiers negociava com Bismarck.

O acordo era simples e monstruoso: a Prússia liberaria antecipadamente os prisioneiros de guerra franceses capturados nos campos de batalha de 1870 — para que fossem usados como exército contra Paris. Bismarck aceitou. Tinha todo interesse em ver a França enfraquecida por uma guerra civil.

Em poucas semanas, Versalhes tinha 130.000 homens armados e disciplinados. A Comuna contava com talvez 30.000 combatentes, mal equipados, sem comando unificado, sem plano de retirada.

A proporção era de quatro para um. Ou cinco. Ninguém contou com precisão, porque ninguém esperava que precisasse contar.

Em 21 de maio de 1871, as tropas de Versalhes encontraram um portão desguarnecido — a Porte de Saint-Cloud — e entraram em Paris sem resistência. A Semana Sangrenta havia começado.

Soldados de Versalhes acampados nas Tulherias, 1871
Fotografia, maio de 1871 · Musée Carnavalet, Paris — Soldados de Versalhes acampados nos jardins das Tulherias após a tomada de Paris. 130.000 homens contra uma cidade.
Incêndio do Palais de Justice — 24 de maio de 1871
Hippolyte Blancard · Incêndio do Palais de Justice, 24 de maio de 1871 · Bibliothèque Historique de la Ville de Paris — Fotografia real do incêndio durante a Semana Sangrenta. Os Communards atearam fogo nos símbolos do Estado ao recuar.
La Barricade — Édouard Manet, 1871
Édouard Manet · La Barricade, 1871 · Museu de Belas Artes de Budapeste — Litografia feita logo após os eventos. Soldados de Versalhes executam Communards encostados à parede. Manet era republicano moderado e ficou horrorizado com o que viu.

Paris em chamas

À medida que as tropas de Versalhes avançavam bairro por bairro, os Communards em retirada tomaram uma decisão: se Paris ia cair, que caísse como eles a haviam encontrado.

Atearam fogo às Tulherias. Ao Hôtel de Ville. À Préfecture de Police. Ao Palais de Justice. Ao Palais Royal. Os palácios e as sedes do poder que haviam servido a reis, imperadores e repúblicas burguesas arderam na última semana de maio de 1871.

Do outro lado, as tropas de Versalhes não faziam prisioneiros. Qualquer pessoa encontrada com uma arma era fuzilada no local. Qualquer pessoa que não conseguisse explicar onde havia estado era fuzilada no local. Qualquer pessoa com calos nas mãos — sinal de trabalho manual — era suspeita. Qualquer pessoa que cheirasse a pólvora era suspeita.

A suspeita, naquela semana, era suficiente para morrer.

10–20 mil

A Semana Sangrenta

21–28 de maio de 1871 · 7 dias · Paris

Mur des Fédérés — Eugène Atget, 1900
Eugène Atget · Mur des Fédérés, Père-Lachaise, 1900 · Biblioteca Nacional da França — A parede onde os últimos 147 Communards foram fuzilados em 28 de maio de 1871. Atget fotografou o local 29 anos depois. A parede ainda estava de pé. Ainda está.

Sete dias.

Entre dez mil e vinte mil mortos.

Numa única semana, as tropas de Versalhes mataram mais pessoas em Paris do que o Terror da Revolução Francesa havia matado em um ano.

Não havia tribunais. Não havia julgamentos. Os suspeitos eram enfileirados e fuzilados em praças, jardins, cemitérios. No Luxemburgo. No Champ de Mars. No Père-Lachaise. As valas comuns foram abertas dentro da própria cidade.

O historiador Robert Tombs, o maior especialista no tema, estimou cerca de 10.000 mortos. Outras estimativas chegam a 20.000. O número exato nunca foi estabelecido — porque ninguém, do lado vencedor, sentiu necessidade de contá-los.

Em 28 de maio, os últimos 147 Communards fizeram sua última resistência no cemitério Père-Lachaise — lutando entre as lápides, usando mausoléus como cobertura.

Quando a munição acabou, renderam-se. Foram conduzidos até a parede leste do cemitério. Fuzilados. Enterrados numa vala ao pé da própria parede onde morreram.

Essa parede se chama Mur des Fédérés. Todo ano, no último domingo de maio, dezenas de milhares de pessoas caminham até ela.

40.000 presos. 13.450 julgados por tribunais militares. 4.586 deportados para a Nova Caledônia. Centenas condenados a trabalhos forçados. O último anistiado só voltou para a França em 1880.

Versalhes não havia apenas vencido uma batalha. Havia mandado uma mensagem para qualquer trabalhador da Europa que considerasse fazer o mesmo: o Estado tem mais balas do que vocês têm barricadas — e não tem o menor problema em usá-las todas.

Communards em seus caixões — fotografia de André-Adolphe-Eugène Disdéri, 1871
André-Adolphe-Eugène Disdéri · Communards em seus caixões, maio de 1871 · University of Texas — Fotografia real dos Communards mortos durante a Semana Sangrenta. Disdéri era o fotógrafo oficial da corte imperial — e registrou o massacre do outro lado.

Cronologia da Comuna

Set. 1870
França capitula na Guerra Franco-Prussiana. Napoleão III é capturado. Paris é sitiada pelas tropas prussianas por quatro meses. Os trabalhadores formam a Guarda Nacional e defendem a cidade.
Jan. 1871
Armistício com a Prússia. A França perde Alsácia e Lorena e se compromete a pagar 5 bilhões de francos em ouro. As tropas prussianas desfilam por Paris. O novo governo instala-se em Versalhes.
18 mar. 1871
Thiers envia tropas para confiscar os canhões da Guarda Nacional em Montmartre. Soldados confraternizam com a população e se recusam a atirar. Dois generais são executados. Thiers foge para Versalhes. A Comuna começa.
Mar.–mai. 1871
72 dias de governo operário: separação Igreja-Estado, ensino laico gratuito, cancelamento de dívidas, igualdade salarial para professoras, fábricas geridas pelos trabalhadores. Enquanto isso, Versalhes reorganiza 130.000 soldados.
21 mai. 1871
Tropas de Versalhes entram em Paris pela Porte de Saint-Cloud, desguarnecida. Começa a Semana Sangrenta. Fuzilamentos sumários. Sem tribunais, sem julgamentos. Os Communards ateiam fogo aos palácios do Estado ao recuar.
28 mai. 1871
Última resistência no cemitério Père-Lachaise. Os 147 Communards remanescentes são fuzilados contra a parede leste do cemitério — o Mur des Fédérés. A Comuna é destruída. A repressão continua por anos.
1871–1880
40.000 presos. 13.450 julgados. 4.586 deportados para a Nova Caledônia, incluindo Louise Michel. A anistia completa só vem em 1880. O exílio dos sobreviventes espalha as ideias da Comuna por toda a Europa.

A Internacional

A Comuna de Paris durou 72 dias. Seu impacto durou séculos.

Karl Marx acompanhou os eventos em tempo real de Londres e escreveu A Guerra Civil na França ainda com Paris em chamas. Engels chamou a Comuna de "o primeiro exemplo de ditadura do proletariado." Lenin estudou seus decretos antes de 1917 e levou um busto de Communard para o Kremlin.

A Internacional — o hino que seria cantado por movimentos operários em todo o mundo pelo século seguinte — foi composta por Eugène Pottier, um Communard, nas semanas imediatamente após a derrota.

A bandeira vermelha — símbolo de toda a esquerda internacional durante o século XX — veio da Commune. Os Communards a usaram como sinal de que não fariam prisioneiros. O mundo a adotou como sinal de que a luta não havia terminado.

Versalhes acreditou que fuzilando dez mil pessoas havia encerrado uma questão. O que havia feito, na verdade, era transformar uma insurreição parisiense no mito fundador do movimento operário mundial.

O Mur des Fédérés ainda existe. Todo último domingo de maio, há flores frescas ao pé da parede.

Fontes: Karl Marx, A Guerra Civil na França (1871) · Robert Tombs, The Paris Commune 1871 (1999) · Prosper-Olivier Lissagaray, História da Comuna de 1871 (1876, testemunho direto) · Édouard Moriak, La Semaine Sanglante · Jacques Rougerie, Paris libre 1871

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