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PRONTUÁRIO Nº 1846Aedes aegypti · DENV 1-4VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA

Dengue no Brasil

Da origem do mosquito e da descoberta do vírus, passando pelo fim das campanhas de prevenção, até a era das vacinas — uma linha do tempo com fontes oficiais.

01
Onde tudo começou

A origem da dengue e o nome do mosquito

A dengue acompanha a humanidade há séculos. O vetor — o Aedes aegypti — tem nome com sobrenome geográfico e uma história que começa na África e atravessa o Atlântico nos porões dos navios negreiros.

Uma doença muito antiga

Os primeiros relatos compatíveis com a dengue são antiquíssimos: uma enciclopédia médica chinesa da Dinastia Jin (séc. III–IV d.C.) já descrevia uma “água venenosa” associada a insetos voadores — uma febre com dores que os chineses chamavam de “doença da água envenenada”.

Surtos de uma febre com dores intensas foram registrados em escala quase global entre os séculos XVIII e XIX (Ásia, África e América), acompanhando a expansão do comércio marítimo. A palavra “dengue” se popularizou no Caribe no início do século XIX — uma das hipóteses liga o termo ao suaíli “ka-dinga pepo”, “a doença-cãibra causada por um espírito mau”, descrevendo o jeito empertigado de andar de quem sente as dores da febre.

DENGUE → do andar duro e dolorido do doente.
Por isso o apelido clássico: “febre quebra-ossos”.
VETOR · DENV 1–4 Close de um mosquito Aedes aegypti na pele humana, com listras brancas bem visíveis nas patas
Aedes aegypti em close, picando a pele: repare nas faixas brancas nas patas e no desenho claro em forma de lira no dorso — a marca registrada da espécie. Mede cerca de 1 cm. FOTO: Aedes aegypti · imagem de referência

Por que “Aedes aegypti”? O sobrenome é “do Egito”

O mosquito foi descrito cientificamente pela primeira vez em 1762, e o nome definitivo foi fixado em 1818. A construção do nome explica muita coisa:

Aedes = do grego aēdḗs, “odioso, desagradável”.
aegypti = do latim, “do Egito” — região onde os primeiros exemplares foram coletados.

Ou seja, o nome literalmente significa “o odioso do Egito”. A espécie é originária da África e se espalhou pelas regiões tropicais do planeta a partir do século XVI, transportada nos navios negreiros — as larvas viajavam nos tonéis de água potável a bordo. Foi assim que o vetor cruzou o Atlântico e chegou às Américas.

LABORATÓRIO Placa de laboratório com vários mosquitos Aedes aegypti, identificados por etiqueta
Exemplares de Aedes aegypti coletados e identificados em laboratório de entomologia — base do monitoramento do vetor no país. FOTO: Agência Brasil/EBC
02
O vetor no país

A chegada ao Brasil, a erradicação e a volta

O Brasil é um dos pouquíssimos países que já erradicou o Aedes aegypti de todo o território — e depois o deixou voltar. Essa história é a chave para entender tudo que veio depois.

Primeiros registros (séc. XIX–XX)

No Brasil, os primeiros relatos de dengue datam do fim do século XIX, em Curitiba (PR), e do início do século XX, em Niterói (RJ). O mosquito já circulava desde o século XVIII, trazido pelas embarcações negreiras.

Mas o grande inimigo do Aedes, na época, não era a dengue — era a febre amarela urbana, que matava em epidemias devastadoras no Rio de Janeiro. Foi para combater a febre amarela que o Brasil montou a maior máquina de saúde pública de sua história.

A luta contra o mosquito virou tema popular já no século XIX: a revista de humor “O Mosquito”, ilustrada por Rafael Bordalo Pinheiro, estampava charges sobre as descobertas científicas e o combate à doença — ao lado.

ARQUIVO NACIONAL Capa da revista O Mosquito, século XIX, com a manchete 'Não mais febre amarela! Está descoberto o bicho'
Capa da revista “O Mosquito” (Anno 8º, Nº 364 · Rio de Janeiro): “NÃO MAIS FEBRE AMARELA! ESTÁ DESCOBERTO O BICHO”. Charge de Rafael Bordalo Pinheiro — a doença e seu mosquito já eram assunto nacional no século XIX. ACERVO: Arquivo Nacional
1940–50s Guarda sanitário com pulverizador costal aplica inseticida na base de uma casa de madeira, em foto antiga em preto e branco
Foto de época: guarda sanitário com pulverizador costal aplica inseticida (DDT) na base de uma casa — o combate casa a casa que levou à erradicação do Aedes em 1955. FOTO: Acervo O Globo / Agência O Globo
SAÚDE PÚBLICAARQUIVO HISTÓRICO

BRASIL ERRADICA O MOSQUITO DA FEBRE AMARELA

Sob a liderança do sanitarista Fred Soper, a campanha varre o país casa a casa, com os guardas aplicando inseticida em cada quintal. Em 1955, o último foco é eliminado em Santa Terezinha (BA). Foram visitados 1.882 dos 1.894 municípios existentes.

▸ 1955 · CAMPANHA DE ERRADICAÇÃO · DNERu

1958 — Certificação da OPAS. Na XV Conferência Sanitária Pan-Americana, em Porto Rico, o Brasil e outras dez nações americanas receberam da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) o certificado de erradicação do Aedes aegypti. O mosquito havia, oficialmente, deixado de existir no território brasileiro.

O relaxamento e a reintrodução (1967–1976)

Com a doença “resolvida”, a vigilância afrouxou — e o mosquito voltou pelas fronteiras, vindo de países vizinhos que não haviam mantido a erradicação. A reintrodução foi confirmada em 1967 no Pará e em 1969 no Maranhão. Em 1976/1977, o Aedes aegypti estava de novo instalado no Rio de Janeiro e em vários estados.

A primeira grande epidemia laboratorialmente comprovada veio em 1981–1982, em Boa Vista (RR), pelos sorotipos DENV-1 e DENV-4. A partir de 1986 (epidemia no Rio de Janeiro com DENV-1), a dengue nunca mais saiu do calendário brasileiro.

A lição é dura: erradicar foi possível com vigilância permanente e presença do Estado dentro das casas. Quando essa presença diminuiu, o mosquito voltou — e desta vez trouxe a dengue junto.

CONFIDENCIAL · SNI Documento confidencial do Serviço Nacional de Informações de 1986 sobre a epidemia de dengue
Documento CONFIDENCIAL do SNI (Serviço Nacional de Informações), 11/07/1986: “Evolução da epidemia da dengue e seu combate pelos órgãos sanitários do país”. Registra os primeiros casos em abril/86 em Nova Iguaçu (RJ) e a reintrodução do Aedes aegypti “por volta de 1976”. Até a inteligência do regime acompanhava a volta do mosquito. ACERVO: Arquivo Nacional / Rio Memórias
03
O que desapareceu

A Sucam, o fumacê e o agente que entrava na sua casa

Quem tem mais de 40 anos lembra: o guarda sanitário batia na porta, entrava, jogava pó nos ralos, vistoriava o quintal e deixava um papelzinho atrás da porta com a data da visita. O carro do fumacê passava soltando fumaça nas ruas. A TV repetia: cuidado com pneus, vasos, plantas, água parada. Tudo isso existiu — e tudo isso, em grande parte, acabou.

O que era a Sucam

A Sucam — Superintendência de Campanhas de Saúde Pública foi criada em 1970, reunindo o Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERu), a Campanha de Erradicação da Malária e a Campanha de Erradicação da Varíola. Era a herdeira direta do “sanitarismo campanhista” inaugurado por Oswaldo Cruz no início do século XX.

A Sucam tinha um exército de guardas de endemias — servidores disciplinados, de uniforme, que percorriam o país inteiro. Como registra a própria Funasa, “nenhum local remoto do interior do Brasil ficou sem as visitas periódicas dos guardas da Sucam”. Eram eles que entravam nas casas, aplicavam inseticida, mediam focos, anotavam tudo em fichas.

EDUCAÇÃO SANITÁRIA Foto antiga de exposição pública sobre o mosquito, com cartaz e visitantes observando o material
Educação sanitária de massa: visitantes observam uma exposição pública sobre o mosquito, com cartazes e demonstrações — parte do esforço permanente de conscientização que marcou a era das campanhas. ACERVO: Arquivo Nacional / Rio Memórias
MEMÓRIAROTINA DO GUARDA

O AGENTE QUE ENTRAVA NA SUA CASA

De casa em casa, o guarda da Sucam pedia licença, vistoriava ralos, caixas-d’água e quintais, aplicava pó/inseticida nos pontos de água e, ao sair, deixava preso atrás de uma porta um papel com a data da visita e as anotações — o controle domiciliar do Estado, ficha por ficha.

▸ DÉCADAS DE 1970–1980 · VISITA DOMICILIAR

FUMACÊ Carro fumacê lançando inseticida em névoa numa rua residencial
O fumacê: caminhão lançando inseticida em ultrabaixo volume (UBV) pelas ruas — imagem-síntese das campanhas de combate ao vetor. FOTO: Agência Gov/EBC

“Cuidado com a água parada”: a prevenção na TV

Por anos, a propaganda oficial entrou nas casas pela televisão. Campanhas do Ministério da Saúde repetiam à exaustão a lista que toda criança decorava: pneus velhos, vasos de plantas e seus pratinhos, garrafas, calhas, caixas-d’água destampadas, piscinas sem tratamento, água empoçada. A mensagem era simples e martelada: “o mosquito nasce na água limpa e parada — não deixe acumular”.

Era prevenção de massa, contínua, com o Estado lembrando o cidadão todos os dias. Esse esforço de comunicação permanente também perdeu força com o tempo, voltando hoje apenas em picos de epidemia.

CRIADOURO Agente aponta para larvas de mosquito em um recipiente com água parada
A vistoria de criadouros: qualquer recipiente com água parada — aqui, larvas no fundo de um vasilhame — vira berçário do Aedes. Era esse o foco da inspeção casa a casa. FOTO: Agência Brasil/EBC
Quando e por que isso acabou? Em 1990–1991, no início do governo Fernando Collor, a Sucam foi extinta: por medida provisória, suas atribuições, pessoal e bens foram transferidos e fundidos com a Fundação Serviços de Saúde Pública (FSESP), criando em 16 de abril de 1991 a Funasa — Fundação Nacional de Saúde (Decreto nº 100/1991).

O fim do modelo campanhista

O desaparecimento da Sucam não foi só uma troca de sigla. Foi o fim de um modelo de combate centralizado, nacional e militarizado, executado por um corpo federal único de guardas que cruzava o país. Com a Constituição de 1988 e a criação do SUS, o combate ao vetor foi descentralizado: a responsabilidade migrou da União para estados e, principalmente, para os municípios — com orçamentos, capacidades e prioridades desiguais.

O antigo guarda de endemias, federal e itinerante, foi sendo substituído pelo agente de combate a endemias municipal, com cobertura que varia enormemente de cidade para cidade. A vigilância contínua casa a casa, o fumacê de rotina e as campanhas permanentes na TV deram lugar a ações intermitentes, acionadas sobretudo quando a epidemia já estourou.

Resumo: a prevenção que “sumiu” não evaporou por acaso — ela foi desmontada e redistribuída entre 1990 e os anos 2000, na transição da Sucam → Funasa → descentralização para os municípios. O mosquito, livre da vigilância permanente, voltou a se espalhar como antes de 1955. O gráfico a seguir mostra o resultado.
04
O resultado em números

Mortes por dengue no Brasil — 20 anos

Óbitos confirmados por dengue, ano a ano, de 2005 a 2024. As cores e a faixa inferior agrupam os anos por período presidencial. Os dados são do Ministério da Saúde / SVS / Datasus.

Óbitos confirmados por dengue · Brasil · 2005–2024

Eixo X agrupado por mandato presidencial · fonte: Ministério da Saúde (SVS/Sinan/Datasus) e boletins epidemiológicos

Lula I/II (2005–2010) Dilma (2011–2016) Temer (2017–2018) Bolsonaro (2019–2022) Lula III (2023–2024)
6.000
5.000
4.000
3.000
2.000
1.000
69
2005
142
2006
290
2007
561
2008
341
2009
656
2010
482
2011
327
2012
674
2013
475
2014
986
2015
642
2016
180
2017
201
2018
820
2019
583
2020
315
2021
1.053
2022
1.179
2023
5.972
2024
LULA I/II2005–2010
DILMA2011–2016
TEMER2017–18
BOLSONARO2019–2022
LULA III2023–24

Atenção à escala: a barra de 2024 (5.972 óbitos) é cerca de o recorde anterior (1.179 em 2023). 2024 foi a maior epidemia de dengue da história do país, com mais de 6,4 milhões de casos prováveis — as mortes por dengue superaram, naquele ano, as mortes por covid-19. Os números são óbitos confirmados; podem sofrer pequenos ajustes conforme o encerramento de investigações. O ano de 2016 corresponde ao período de transição Dilma→Temer (impeachment em agosto de 2016).

AnoÓbitosAnoÓbitosAnoÓbitosAnoÓbitos
200569201065620159862020583
2006142201148220166422021315
20072902012327201718020221.053
20085612013674201820120231.179
20093412014475201982020245.972
05
Ciência & indústria

A vacina “japonesa” (Qdenga / TAK-003)

A vacina “japonesa” que chegou ao Brasil em 2023 carrega décadas de pesquisa — e começou bem longe do Japão, em laboratórios dos Estados Unidos e em vírus coletados na Ásia.

Das cepas asiáticas ao laboratório dos EUA

O desenvolvimento remonta aos anos 1980, na Tailândia (Universidade Mahidol), com versões atenuadas dos quatro sorotipos da dengue. Uma formulação tetravalente foi montada com tecnologia do CDC dos Estados Unidos, e licenciada para a empresa americana Inviragen, sob o nome DENVax.

Foi essa vacina que, ao ser adquirida pela farmacêutica japonesa Takeda (de Osaka), em 2013, passou a se chamar TAK-003 — comercialmente, Qdenga®. Ou seja: a “japonesa” nasceu de tecnologia americana (CDC) e de cepas tailandesas.

TAK-003 Frascos da vacina Qdenga (Takeda) sobre uma bancada
Qdenga® (TAK-003) — vacina tetravalente, viva atenuada, da farmacêutica japonesa Takeda. Esquema de 2 doses. Frascos no primeiro dia de vacinação pelo SUS, em São Paulo (abr/2024). FOTO: Rovena Rosa/Agência Brasil

Como ela é feita

A TAK-003 é uma vacina tetravalente viva atenuada: usa um vírus da dengue do sorotipo 2 enfraquecido como “chassi”, no qual são inseridos por engenharia genética componentes dos sorotipos 1, 3 e 4. Assim, uma única plataforma busca proteger contra os quatro tipos de dengue ao mesmo tempo — o grande desafio de qualquer vacina contra a doença.

Linha do tempo regulatória: em agosto de 2022, a Indonésia foi o primeiro país do mundo a aprovar a Qdenga. Em dezembro de 2022, veio a aprovação na União Europeia. No Brasil, a Anvisa aprovou a Qdenga em março de 2023. O Brasil tornou-se o primeiro país do mundo a oferecê-la pelo sistema público, comprando grande parte do estoque mundial da Takeda.

A volta ao mundo da Qdenga — a história em uma tirada

Imagine perguntar a um único frasco de Qdenga: “de onde você veio?”. A resposta seria uma volta ao mundo.

Tudo começa nos anos 1980, na Tailândia: pesquisadores da Universidade Mahidol, em Bangcoc, enfraquecem em laboratório os quatro tipos do vírus da dengue. Essas cepas atravessam o Pacífico e chegam aos Estados Unidos, onde o CDC (o centro de controle de doenças americano) monta a primeira versão tetravalente — uma vacina para as quatro dengues. Batizam-na de DENVax e a entregam a uma pequena empresa americana, a Inviragen.

Em 2013, a gigante japonesa Takeda compra a Inviragen — e, com ela, a vacina. DENVax vira TAK-003 e ganha o nome comercial Qdenga. A partir daí, a “vacina japonesa” já não é tão japonesa: é cepa tailandesa, tecnologia americana, dono japonês.

Então começa a maratona dos carimbos. Agosto/2022: a Indonésia é o primeiro país do mundo a aprová-la. Dezembro/2022: a União Europeia libera. Março/2023: chega a vez da Anvisa, no Brasil.

Mas há uma porta que não se abre. Em julho/2023, a Takeda tenta a aprovação nos próprios Estados Unidos e recua: a FDA (a “Anvisa americana”) pede mais dados sobre o estudo, e a empresa retira o pedido para não levar um “não”. Resultado: a Qdenga roda o planeta — Europa, Ásia, América Latina — mas não é vendida no país que inventou a sua tecnologia.

O capítulo brasileiro é o mais ousado de todos: no fim de 2023, o Brasil compra grande parte do estoque mundial da Takeda e se torna o primeiro país do mundo a oferecer a Qdenga de graça, pelo sistema público de saúde. A vacina que nasceu na Tailândia, cresceu nos EUA e foi adotada pelo Japão encontrou no SUS o seu maior programa de vacinação.

ANOS 1980 · TAILÂNDIAMahidol enfraquece os 4 vírus
EUA · CDCMonta a vacina (DENVax/Inviragen)
2013 · JAPÃOTakeda compra → vira TAK-003
2022 · INDONÉSIA / UE1ª aprovação e liberação na Europa
MAR/2023 · BRASILAnvisa aprova
JUL/2023 · EUA (FDA)Takeda retira o pedido ✕
FIM 2023 · SUS1º país a ofertar de graça
06
EUA, Japão, França

Quem desenvolveu — e quem tem vacina “para vender”?

Se a Qdenga é “japonesa” só no nome, surge a pergunta inevitável: os EUA têm vacina contra dengue para vender? E por que o foco recai sempre sobre a japonesa? A resposta mostra um tabuleiro em que os Estados Unidos estão, na verdade, por trás de quase tudo.

Existem quatro vacinas no jogo — e três têm DNA americano

VacinaQuem vende / paísOrigem da tecnologiaDosesSituação (2026)
Dengvaxia FRANÇA Sanofi Pasteur Própria (Sanofi) 3 Uso restrito — só para quem já teve dengue (risco em soronegativos)
Qdenga (TAK-003) JAPÃO Takeda CDC (EUA) + Mahidol (Tailândia) 2 No mercado (UE, Brasil etc.) — mas retirada da fila da FDA/EUA em 2023
Butantan-DV BRASIL Instituto Butantan NIH/NIAID (EUA) — cepa TV003 1 Aprovada nov/2025; vacinação suspensa em jun/2026 (ver linha do tempo)
V181 EUA Merck NIH/NIAID (EUA) — mesma cepa TV003 1 Não aprovada — em Fase 3 (estudo MOBILIZE-1)

Os EUA têm vacina “para vender”?

Hoje, não há uma vacina de marca americana já à venda no mercado. Mas isso engana: a tecnologia das duas vacinas mais importantes do mundo é americana.

• A Qdenga (japonesa) nasceu de tecnologia do CDC.
• A Butantan-DV (brasileira) e a V181 da Merck (americana) vêm da mesma cepa-mãe do NIH (TV003) — são, nas palavras da própria Merck, “fundamentalmente a mesma vacina”.

A Merck (gigante farmacêutica dos EUA) está com a V181 em Fase 3 — esse será o produto americano “para vender”, mas ainda não foi aprovado.

Então por que o foco na “japonesa”?

Simples: a Qdenga foi a primeira a chegar ao mercado brasileiro (Anvisa em 2023, SUS em 2024). Foi a vacina que o brasileiro viu no posto primeiro — por isso virou sinônimo de “vacina da dengue”.

O paradoxo: a Qdenga (japonesa) nem é vendida nos EUA — a Takeda retirou o pedido de aprovação à FDA em julho de 2023, após a agência pedir mais dados. O americano comum não tem acesso à “japonesa”.

E há uma ironia maior: o Brasil produziu e aplicou em massa (via Butantan) uma vacina cuja cepa é americana (NIH) — saindo na frente da própria Merck, que ainda testa a versão dela. O Brasil virou, ao mesmo tempo, laboratório, fábrica e mercado de uma tecnologia americana.

07
No Brasil, passo a passo

Linha do tempo das vacinas — com as notícias

Da pesquisa nacional iniciada em 2009 à corrida entre a Qdenga (Takeda/Japão) e a Butantan-DV (cepa do NIH/EUA) — até a suspensão noticiada hoje.

2009 – 2015

Início da vacina nacional (Butantan)

Frasco da vacina contra dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan Frasco da vacina nacional em desenvolvimento. Foto: Agência Brasil/EBC

O Instituto Butantan inicia o projeto, licenciando a cepa TV003 do NIH (EUA). Fase 1 nos EUA; Fase 2 (2013–2015), com 300 voluntários no Brasil, demonstra segurança e imunogenicidade.

Fonte: Butantan / NIH
Março 2023

Anvisa aprova a Qdenga (Takeda)

Aplicação de vacina no braço de um paciente “Anvisa aprova nova vacina contra a dengue”. Foto: Agência Brasil/EBC

A vacina japonesa TAK-003 recebe registro (4 a 60 anos, 2 doses), respaldada por estudos internacionais com milhares de participantes.

Fonte: Anvisa / Agência Brasil
2016 – 2024

Fase 3 da Butantan-DV

Seringa preparada para aplicação em ensaio clínico Maior ensaio clínico de vacina já feito no Brasil. Foto: Agência Brasil/EBC

Mais de 16 mil voluntários em 14 estados, acompanhamento de até 5 anos. Eficácia de 74,7% (geral, 12–59 anos) e ~91% contra dengue grave; proposta de dose única.

Fonte: Instituto Butantan / CNN Brasil
Dez 2023 – Jan 2024

Qdenga incorporada ao SUS

Frascos da vacina Qdenga da Takeda 1º dia de vacinação contra dengue pelo SUS, São Paulo. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

A Conitec aprova a incorporação. O Brasil compra grande parte do estoque mundial da Takeda e torna-se o 1º país a ofertar a Qdenga na rede pública. Primeiras doses em janeiro/2024.

Fonte: Ministério da Saúde / Conitec
26 Nov 2025

Anvisa aprova a Butantan-DV

Frasco da vacina Butantan-DV contra dengue, dose única “Anvisa publica registro da vacina do Butantan”. Foto: Agência Brasil/EBC

Registro da primeira vacina de dose única do mundo contra dengue, para 12 a 59 anos. Butantan entrega 1,3 milhão de doses ao PNI; aplicação prevista para 2026.

Fonte: Anvisa / Butantan / Agência Brasil
Início 2026

Ampliação da vacinação

Adolescente recebendo vacina contra a dengue Vacinação contra dengue pelo SUS. Foto: Agência Brasil/EBC

Expansão da imunização com as duas vacinas (Qdenga e Butantan-DV), priorizando faixas etárias e regiões de maior incidência, conforme o Programa Nacional de Imunizações.

Fonte: PNI / Ministério da Saúde
08 Jun 2026 — HOJE

⚠ Vacinação com a Butantan-DV é suspensa após 2 mortes

Ministro da Saúde Alexandre Padilha em coletiva de imprensa Ministro Alexandre Padilha anuncia a suspensão. Foto: divulgação / Gazeta do Povo

O Ministério da Saúde suspende a vacinação com a Butantan-DV. Entre ~500 mil doses aplicadas, foram identificados 42 casos de reações adversas mais severas, incluindo três casos graves — dois óbitos (mar–abr/2026). Para o ministro Padilha, é “um sinal de alerta”, ainda sem comprovação de causalidade.

A vacina não será descartada enquanto durarem os estudos de farmacovigilância. Nos testes, ela apresentava 79,6% de eficácia global e 89% contra dengue grave.

Fonte: Gazeta do Povo (08/06/2026) / Ministério da Saúde

Em resumo

O Brasil saiu de erradicar o mosquito em 1955 para conviver com epidemias recordes — porque desmontou, entre 1990 e os anos 2000, a estrutura de vigilância permanente que mantinha o vetor sob controle. A aposta atual desloca o eixo da prevenção do vetor (que enfraqueceu) para a imunização. Mas a suspensão da Butantan-DV em junho/2026 mostra que esse caminho também tem percalços: nenhuma vacina substitui o controle do Aedes aegypti casa a casa. Sem retomar a prevenção, a vacina sozinha dificilmente reverterá a curva do gráfico.

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