Da origem do mosquito e da descoberta do vírus, passando pelo fim das campanhas de prevenção, até a era das vacinas — uma linha do tempo com fontes oficiais.
A dengue acompanha a humanidade há séculos. O vetor — o Aedes aegypti — tem nome com sobrenome geográfico e uma história que começa na África e atravessa o Atlântico nos porões dos navios negreiros.
Os primeiros relatos compatíveis com a dengue são antiquíssimos: uma enciclopédia médica chinesa da Dinastia Jin (séc. III–IV d.C.) já descrevia uma “água venenosa” associada a insetos voadores — uma febre com dores que os chineses chamavam de “doença da água envenenada”.
Surtos de uma febre com dores intensas foram registrados em escala quase global entre os séculos XVIII e XIX (Ásia, África e América), acompanhando a expansão do comércio marítimo. A palavra “dengue” se popularizou no Caribe no início do século XIX — uma das hipóteses liga o termo ao suaíli “ka-dinga pepo”, “a doença-cãibra causada por um espírito mau”, descrevendo o jeito empertigado de andar de quem sente as dores da febre.
O mosquito foi descrito cientificamente pela primeira vez em 1762, e o nome definitivo foi fixado em 1818. A construção do nome explica muita coisa:
Ou seja, o nome literalmente significa “o odioso do Egito”. A espécie é originária da África e se espalhou pelas regiões tropicais do planeta a partir do século XVI, transportada nos navios negreiros — as larvas viajavam nos tonéis de água potável a bordo. Foi assim que o vetor cruzou o Atlântico e chegou às Américas.
O Brasil é um dos pouquíssimos países que já erradicou o Aedes aegypti de todo o território — e depois o deixou voltar. Essa história é a chave para entender tudo que veio depois.
No Brasil, os primeiros relatos de dengue datam do fim do século XIX, em Curitiba (PR), e do início do século XX, em Niterói (RJ). O mosquito já circulava desde o século XVIII, trazido pelas embarcações negreiras.
Mas o grande inimigo do Aedes, na época, não era a dengue — era a febre amarela urbana, que matava em epidemias devastadoras no Rio de Janeiro. Foi para combater a febre amarela que o Brasil montou a maior máquina de saúde pública de sua história.
A luta contra o mosquito virou tema popular já no século XIX: a revista de humor “O Mosquito”, ilustrada por Rafael Bordalo Pinheiro, estampava charges sobre as descobertas científicas e o combate à doença — ao lado.
Sob a liderança do sanitarista Fred Soper, a campanha varre o país casa a casa, com os guardas aplicando inseticida em cada quintal. Em 1955, o último foco é eliminado em Santa Terezinha (BA). Foram visitados 1.882 dos 1.894 municípios existentes.
▸ 1955 · CAMPANHA DE ERRADICAÇÃO · DNERu
Com a doença “resolvida”, a vigilância afrouxou — e o mosquito voltou pelas fronteiras, vindo de países vizinhos que não haviam mantido a erradicação. A reintrodução foi confirmada em 1967 no Pará e em 1969 no Maranhão. Em 1976/1977, o Aedes aegypti estava de novo instalado no Rio de Janeiro e em vários estados.
A lição é dura: erradicar foi possível com vigilância permanente e presença do Estado dentro das casas. Quando essa presença diminuiu, o mosquito voltou — e desta vez trouxe a dengue junto.
Quem tem mais de 40 anos lembra: o guarda sanitário batia na porta, entrava, jogava pó nos ralos, vistoriava o quintal e deixava um papelzinho atrás da porta com a data da visita. O carro do fumacê passava soltando fumaça nas ruas. A TV repetia: cuidado com pneus, vasos, plantas, água parada. Tudo isso existiu — e tudo isso, em grande parte, acabou.
A Sucam — Superintendência de Campanhas de Saúde Pública foi criada em 1970, reunindo o Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERu), a Campanha de Erradicação da Malária e a Campanha de Erradicação da Varíola. Era a herdeira direta do “sanitarismo campanhista” inaugurado por Oswaldo Cruz no início do século XX.
A Sucam tinha um exército de guardas de endemias — servidores disciplinados, de uniforme, que percorriam o país inteiro. Como registra a própria Funasa, “nenhum local remoto do interior do Brasil ficou sem as visitas periódicas dos guardas da Sucam”. Eram eles que entravam nas casas, aplicavam inseticida, mediam focos, anotavam tudo em fichas.
De casa em casa, o guarda da Sucam pedia licença, vistoriava ralos, caixas-d’água e quintais, aplicava pó/inseticida nos pontos de água e, ao sair, deixava preso atrás de uma porta um papel com a data da visita e as anotações — o controle domiciliar do Estado, ficha por ficha.
▸ DÉCADAS DE 1970–1980 · VISITA DOMICILIAR
Por anos, a propaganda oficial entrou nas casas pela televisão. Campanhas do Ministério da Saúde repetiam à exaustão a lista que toda criança decorava: pneus velhos, vasos de plantas e seus pratinhos, garrafas, calhas, caixas-d’água destampadas, piscinas sem tratamento, água empoçada. A mensagem era simples e martelada: “o mosquito nasce na água limpa e parada — não deixe acumular”.
Era prevenção de massa, contínua, com o Estado lembrando o cidadão todos os dias. Esse esforço de comunicação permanente também perdeu força com o tempo, voltando hoje apenas em picos de epidemia.
O desaparecimento da Sucam não foi só uma troca de sigla. Foi o fim de um modelo de combate centralizado, nacional e militarizado, executado por um corpo federal único de guardas que cruzava o país. Com a Constituição de 1988 e a criação do SUS, o combate ao vetor foi descentralizado: a responsabilidade migrou da União para estados e, principalmente, para os municípios — com orçamentos, capacidades e prioridades desiguais.
O antigo guarda de endemias, federal e itinerante, foi sendo substituído pelo agente de combate a endemias municipal, com cobertura que varia enormemente de cidade para cidade. A vigilância contínua casa a casa, o fumacê de rotina e as campanhas permanentes na TV deram lugar a ações intermitentes, acionadas sobretudo quando a epidemia já estourou.
Óbitos confirmados por dengue, ano a ano, de 2005 a 2024. As cores e a faixa inferior agrupam os anos por período presidencial. Os dados são do Ministério da Saúde / SVS / Datasus.
Eixo X agrupado por mandato presidencial · fonte: Ministério da Saúde (SVS/Sinan/Datasus) e boletins epidemiológicos
⚠ Atenção à escala: a barra de 2024 (5.972 óbitos) é cerca de 5× o recorde anterior (1.179 em 2023). 2024 foi a maior epidemia de dengue da história do país, com mais de 6,4 milhões de casos prováveis — as mortes por dengue superaram, naquele ano, as mortes por covid-19. Os números são óbitos confirmados; podem sofrer pequenos ajustes conforme o encerramento de investigações. O ano de 2016 corresponde ao período de transição Dilma→Temer (impeachment em agosto de 2016).
| Ano | Óbitos | Ano | Óbitos | Ano | Óbitos | Ano | Óbitos |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 2005 | 69 | 2010 | 656 | 2015 | 986 | 2020 | 583 |
| 2006 | 142 | 2011 | 482 | 2016 | 642 | 2021 | 315 |
| 2007 | 290 | 2012 | 327 | 2017 | 180 | 2022 | 1.053 |
| 2008 | 561 | 2013 | 674 | 2018 | 201 | 2023 | 1.179 |
| 2009 | 341 | 2014 | 475 | 2019 | 820 | 2024 | 5.972 |
A vacina “japonesa” que chegou ao Brasil em 2023 carrega décadas de pesquisa — e começou bem longe do Japão, em laboratórios dos Estados Unidos e em vírus coletados na Ásia.
O desenvolvimento remonta aos anos 1980, na Tailândia (Universidade Mahidol), com versões atenuadas dos quatro sorotipos da dengue. Uma formulação tetravalente foi montada com tecnologia do CDC dos Estados Unidos, e licenciada para a empresa americana Inviragen, sob o nome DENVax.
Foi essa vacina que, ao ser adquirida pela farmacêutica japonesa Takeda (de Osaka), em 2013, passou a se chamar TAK-003 — comercialmente, Qdenga®. Ou seja: a “japonesa” nasceu de tecnologia americana (CDC) e de cepas tailandesas.
A TAK-003 é uma vacina tetravalente viva atenuada: usa um vírus da dengue do sorotipo 2 enfraquecido como “chassi”, no qual são inseridos por engenharia genética componentes dos sorotipos 1, 3 e 4. Assim, uma única plataforma busca proteger contra os quatro tipos de dengue ao mesmo tempo — o grande desafio de qualquer vacina contra a doença.
Imagine perguntar a um único frasco de Qdenga: “de onde você veio?”. A resposta seria uma volta ao mundo.
Tudo começa nos anos 1980, na Tailândia: pesquisadores da Universidade Mahidol, em Bangcoc, enfraquecem em laboratório os quatro tipos do vírus da dengue. Essas cepas atravessam o Pacífico e chegam aos Estados Unidos, onde o CDC (o centro de controle de doenças americano) monta a primeira versão tetravalente — uma vacina para as quatro dengues. Batizam-na de DENVax e a entregam a uma pequena empresa americana, a Inviragen.
Em 2013, a gigante japonesa Takeda compra a Inviragen — e, com ela, a vacina. DENVax vira TAK-003 e ganha o nome comercial Qdenga. A partir daí, a “vacina japonesa” já não é tão japonesa: é cepa tailandesa, tecnologia americana, dono japonês.
Então começa a maratona dos carimbos. Agosto/2022: a Indonésia é o primeiro país do mundo a aprová-la. Dezembro/2022: a União Europeia libera. Março/2023: chega a vez da Anvisa, no Brasil.
Mas há uma porta que não se abre. Em julho/2023, a Takeda tenta a aprovação nos próprios Estados Unidos e recua: a FDA (a “Anvisa americana”) pede mais dados sobre o estudo, e a empresa retira o pedido para não levar um “não”. Resultado: a Qdenga roda o planeta — Europa, Ásia, América Latina — mas não é vendida no país que inventou a sua tecnologia.
O capítulo brasileiro é o mais ousado de todos: no fim de 2023, o Brasil compra grande parte do estoque mundial da Takeda e se torna o primeiro país do mundo a oferecer a Qdenga de graça, pelo sistema público de saúde. A vacina que nasceu na Tailândia, cresceu nos EUA e foi adotada pelo Japão encontrou no SUS o seu maior programa de vacinação.
Se a Qdenga é “japonesa” só no nome, surge a pergunta inevitável: os EUA têm vacina contra dengue para vender? E por que o foco recai sempre sobre a japonesa? A resposta mostra um tabuleiro em que os Estados Unidos estão, na verdade, por trás de quase tudo.
| Vacina | Quem vende / país | Origem da tecnologia | Doses | Situação (2026) |
|---|---|---|---|---|
| Dengvaxia | FRANÇA Sanofi Pasteur | Própria (Sanofi) | 3 | Uso restrito — só para quem já teve dengue (risco em soronegativos) |
| Qdenga (TAK-003) | JAPÃO Takeda | CDC (EUA) + Mahidol (Tailândia) | 2 | No mercado (UE, Brasil etc.) — mas retirada da fila da FDA/EUA em 2023 |
| Butantan-DV | BRASIL Instituto Butantan | NIH/NIAID (EUA) — cepa TV003 | 1 | Aprovada nov/2025; vacinação suspensa em jun/2026 (ver linha do tempo) |
| V181 | EUA Merck | NIH/NIAID (EUA) — mesma cepa TV003 | 1 | Não aprovada — em Fase 3 (estudo MOBILIZE-1) |
Hoje, não há uma vacina de marca americana já à venda no mercado. Mas isso engana: a tecnologia das duas vacinas mais importantes do mundo é americana.
• A Qdenga (japonesa) nasceu de tecnologia do CDC.
• A Butantan-DV (brasileira) e a V181 da Merck (americana) vêm da mesma cepa-mãe do NIH (TV003) — são, nas palavras da própria Merck, “fundamentalmente a mesma vacina”.
A Merck (gigante farmacêutica dos EUA) está com a V181 em Fase 3 — esse será o produto americano “para vender”, mas ainda não foi aprovado.
Simples: a Qdenga foi a primeira a chegar ao mercado brasileiro (Anvisa em 2023, SUS em 2024). Foi a vacina que o brasileiro viu no posto primeiro — por isso virou sinônimo de “vacina da dengue”.
E há uma ironia maior: o Brasil produziu e aplicou em massa (via Butantan) uma vacina cuja cepa é americana (NIH) — saindo na frente da própria Merck, que ainda testa a versão dela. O Brasil virou, ao mesmo tempo, laboratório, fábrica e mercado de uma tecnologia americana.
Da pesquisa nacional iniciada em 2009 à corrida entre a Qdenga (Takeda/Japão) e a Butantan-DV (cepa do NIH/EUA) — até a suspensão noticiada hoje.
Frasco da vacina nacional em desenvolvimento. Foto: Agência Brasil/EBC
O Instituto Butantan inicia o projeto, licenciando a cepa TV003 do NIH (EUA). Fase 1 nos EUA; Fase 2 (2013–2015), com 300 voluntários no Brasil, demonstra segurança e imunogenicidade.
Fonte: Butantan / NIH
“Anvisa aprova nova vacina contra a dengue”. Foto: Agência Brasil/EBC
A vacina japonesa TAK-003 recebe registro (4 a 60 anos, 2 doses), respaldada por estudos internacionais com milhares de participantes.
Fonte: Anvisa / Agência Brasil
Maior ensaio clínico de vacina já feito no Brasil. Foto: Agência Brasil/EBC
Mais de 16 mil voluntários em 14 estados, acompanhamento de até 5 anos. Eficácia de 74,7% (geral, 12–59 anos) e ~91% contra dengue grave; proposta de dose única.
Fonte: Instituto Butantan / CNN Brasil
1º dia de vacinação contra dengue pelo SUS, São Paulo. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
A Conitec aprova a incorporação. O Brasil compra grande parte do estoque mundial da Takeda e torna-se o 1º país a ofertar a Qdenga na rede pública. Primeiras doses em janeiro/2024.
Fonte: Ministério da Saúde / Conitec
“Anvisa publica registro da vacina do Butantan”. Foto: Agência Brasil/EBC
Registro da primeira vacina de dose única do mundo contra dengue, para 12 a 59 anos. Butantan entrega 1,3 milhão de doses ao PNI; aplicação prevista para 2026.
Fonte: Anvisa / Butantan / Agência Brasil
Vacinação contra dengue pelo SUS. Foto: Agência Brasil/EBC
Expansão da imunização com as duas vacinas (Qdenga e Butantan-DV), priorizando faixas etárias e regiões de maior incidência, conforme o Programa Nacional de Imunizações.
Fonte: PNI / Ministério da Saúde
Ministro Alexandre Padilha anuncia a suspensão. Foto: divulgação / Gazeta do Povo
O Ministério da Saúde suspende a vacinação com a Butantan-DV. Entre ~500 mil doses aplicadas, foram identificados 42 casos de reações adversas mais severas, incluindo três casos graves — dois óbitos (mar–abr/2026). Para o ministro Padilha, é “um sinal de alerta”, ainda sem comprovação de causalidade.
A vacina não será descartada enquanto durarem os estudos de farmacovigilância. Nos testes, ela apresentava 79,6% de eficácia global e 89% contra dengue grave.
Fonte: Gazeta do Povo (08/06/2026) / Ministério da SaúdeO Brasil saiu de erradicar o mosquito em 1955 para conviver com epidemias recordes — porque desmontou, entre 1990 e os anos 2000, a estrutura de vigilância permanente que mantinha o vetor sob controle. A aposta atual desloca o eixo da prevenção do vetor (que enfraqueceu) para a imunização. Mas a suspensão da Butantan-DV em junho/2026 mostra que esse caminho também tem percalços: nenhuma vacina substitui o controle do Aedes aegypti casa a casa. Sem retomar a prevenção, a vacina sozinha dificilmente reverterá a curva do gráfico.