A Smartmatic é, ao mesmo tempo, uma das empresas de tecnologia eleitoral mais influentes e mais controversas do mundo. Nascida entre a Flórida e a Venezuela, ela já organizou eleições em quatro continentes, virou alvo de teorias da conspiração nos Estados Unidos — e ganhou na Justiça de quem a acusou — e hoje responde a um processo criminal por corrupção. Este dossiê organiza a história por região e, sobretudo, esclarece o ponto que mais gera confusão no Brasil: o que exatamente a empresa fez — e o que nunca fez — nas eleições brasileiras.
01Venezuela — a origem e o paradoxo
A história começa em 2004. Praticamente desconhecida, a Smartmatic venceu uma concorrência de US$ 91 milhões do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) venezuelano para fabricar as urnas do referendo revogatório contra Hugo Chávez. Ela concorreu associada à Bizta, empresa dos mesmos donos.
O nó original está aí: o governo venezuelano havia injetado cerca de US$ 150 mil na Bizta em troca de 28% de participação e uma cadeira no conselho. O empréstimo só foi quitado um mês antes da eleição de 2004, quando os laços vieram a público. Ou seja, a empresa que operava a eleição tinha, pouco antes, o próprio governo como sócio.
A Smartmatic operou as eleições venezuelanas por 14 anos. O ponto de ruptura veio em agosto de 2017: o próprio presidente-executivo da empresa, Antonio Mugica, declarou publicamente em Londres que os números de comparecimento da eleição da Assembleia Constituinte haviam sido adulterados em pelo menos 1 milhão de votos. Foi a fornecedora denunciando o regime que a contratara.
"Sabemos, sem qualquer dúvida, que os números de participação [na eleição da Constituinte] foram manipulados." — Antonio Mugica, CEO da Smartmatic, Londres, 2 de agosto de 2017
02Estados Unidos — dois capítulos opostos
Sequoia e a investigação do CFIUS (2005–2007)
Com o dinheiro dos contratos venezuelanos (cerca de US$ 120 milhões), a Smartmatic comprou em 2005 a americana Sequoia Voting Systems, que atendia 17 estados e o Distrito de Columbia. O CFIUS — comitê que avalia investimentos estrangeiros por risco à segurança nacional — abriu investigação sobre os laços da empresa com o governo Chávez. Pressionada, a Smartmatic acabou se desfazendo da Sequoia em 2007.
A eleição de 2020: aqui, a Smartmatic é a vencedora na Justiça
Ao contrário do que a narrativa popular sugere, as acusações de que a Smartmatic teria "fraudado" a eleição de 2020 contra Donald Trump foram derrubadas nos tribunais. Em 2020 a empresa operou em um único condado — Los Angeles — onde nenhuma fraude sequer foi alegada. A Smartmatic processou os veículos que difundiram a alegação e venceu ou está vencendo:
03Filipinas — o caso criminal (o mais grave e atual)
Se nos EUA a Smartmatic é vítima de difamação, nas Filipinas ela é ré por corrupção. Segundo o Departamento de Justiça americano, entre 2015 e 2018 executivos da empresa pagaram propina para garantir contratos milionários nas eleições filipinas de 2016.
Os acusados incluem Roger Piñate (venezuelano, cofundador e presidente da empresa, morador de Boca Raton/FL), Jorge Miguel Vásquez (cidadão americano) e outros. Para ocultar os pagamentos, usaram linguagem codificada, contratos fraudulentos e "empréstimos" de fachada, movimentando o dinheiro por bancos na Ásia, Europa e EUA.
04A dimensão política — e o que ainda está em aberto (2025-2026)
Até aqui, tudo neste dossiê é fato consolidado ou processo judicial em curso. Mas, nos últimos meses, a história da Smartmatic ganhou uma camada política e ainda inconclusa — que preferimos manter claramente separada do corpo principal. Registramos o que está sendo levantado, quem levanta e por que ainda não é possível cravar conclusões.
A acusação sob o Departamento de Justiça de Trump
O indiciamento da própria empresa (SGO/Smartmatic) no caso das Filipinas foi apresentado em outubro de 2025, já sob o DoJ do governo Trump. Em março de 2026, a Smartmatic pediu o arquivamento alegando "processo vingativo": sustenta que cooperava com o DoJ desde 2021 (entregou milhões de páginas de documentos), que o julgamento dos executivos já tinha data marcada, e que a acusação contra a empresa só surgiu depois que Trump voltou à Casa Branca — movida, segundo a defesa, pela convicção do presidente de que a Smartmatic ajudou a "fraudar" a eleição de 2020.
Há, portanto, duas leituras em disputa — nenhuma decidida em tribunal: de um lado, uma acusação criminal real de suborno; de outro, a alegação da empresa de que a acusação foi instrumentalizada politicamente. A CNN observou ainda que o caso de corrupção pode enfraquecer os processos de difamação que a Smartmatic move contra a Fox News e Rudy Giuliani.
USAID, Mike Benz e o debate que "pegou fogo"
Quem é Mike Benz? Advogado empresarial em Nova York e ex-redator de discursos (para Trump, Ben Carson e Stephen Miller), Benz foi subsecretário-adjunto de Estado para Comunicações Internacionais e Tecnologia da Informação no primeiro governo Trump — cargo que ocupou por menos de um ano. Desde 2022 dirige a Foundation for Freedom Online e se tornou uma das vozes mais ativas na crítica à USAID e ao que chama de "complexo industrial de censura". É ele quem, hoje, empurra esse tema com mais força.
Em agosto de 2025, Benz depôs no Congresso brasileiro e trouxe números que são verificáveis nos dados oficiais (ForeignAssistance.gov): o orçamento da USAID para o Brasil mais que dobrou durante o governo Bolsonaro — de cerca de US$ 31,9 milhões (2018) para US$ 68,8 milhões (2019), chegando a US$ 87,3 milhões no meio do mandato.
O dado do gasto é verificável. Já a interpretação — de que esse dinheiro teria financiado opositores e ajudado a derrotar Bolsonaro — é uma alegação de Benz, ainda não comprovada. Ele chega a afirmar que "sem a USAID, Bolsonaro ainda seria presidente" e liga o financiamento à atuação do TSE e do ministro Alexandre de Moraes — pontos de tese, não de sentença.
Soma-se a isso um episódio já documentado: em maio de 2022, a Reuters revelou que o então diretor da CIA, William Burns, dissera a auxiliares de Bolsonaro (o general Augusto Heleno e o então chefe da Abin, Alexandre Ramagem) que o presidente deveria parar de lançar dúvidas sobre o sistema de votação. Críticos leem o episódio como pressão de autoridades americanas sobre o Brasil; o próprio Heleno negou que a conversa tenha ocorrido. É mais uma peça do quebra-cabeça — não uma conclusão.
05Brasil — o que a empresa realmente fez
Este é o ponto que mais gera desinformação. A Smartmatic nunca fabricou a urna nem programou o software eleitoral brasileiro — isso é feito e gerido pela Justiça Eleitoral. Mas a empresa teve, sim, um contrato de serviços com o TSE. Vale detalhá-lo com precisão.
- Instrumento
- Pregão / Licitação nº 42/2012 do TSE (concluído em julho de 2012)
- Vencedor
- Consórcio ESF: ENGETEC Tecnologia S.A. (líder) · Smartmatic Brasil Ltda · Smartmatic International Corp. · FIXTI Soluções em TI Ltda
- Valor
- R$ 129 milhões · vigência de 12 meses
- Eleição
- Municipais de outubro de 2012 (5.568 municípios, ~437 mil seções)
- Objeto
- Recrutar e treinar ~14 mil profissionais de suporte técnico-operacional; carga de baterias, testes, limpeza, lacração, instalação do software da eleição e transmissão dos boletins de urna
- Presidente do TSE
- Ministra Cármen Lúcia, que assumiu a presidência do TSE em 18/04/2012, sucedendo Ricardo Lewandowski
E hoje, quem faz o que a Smartmatic fez em 2012?
O contrato de 2012 foi um caso único: a página oficial de "exercitação de urnas" do TSE lista apenas aquele contrato do Consórcio ESF. Depois dele, o modelo mudou — as tarefas foram absorvidas pela Justiça Eleitoral ou fatiadas entre fornecedores específicos. Não existe mais um "consórcio único" nem a Smartmatic em qualquer deles.
| Tarefa | 2012 — contrato único (Consórcio ESF / Smartmatic) | Hoje (2022/2024) |
|---|---|---|
| Desenvolvimento e lacração do software eleitoral | Sempre do TSE (nunca terceirizado) | TSE — Secretaria de TI; cerimônia pública de assinatura e lacração |
| Mão de obra de suporte (~14 mil técnicos) | Consórcio ESF (com a Smartmatic) | TREs, com pessoal próprio/requisitado — sem consórcio nacional |
| Carga e lacração das urnas | Ato dos TREs, com apoio operacional do consórcio | TREs, sob fiscalização de partidos, OAB, MP e PF |
| Fabricação da urna, firmware e mídias | Fabricante da época | Positivo Tecnologia (contrato de R$ 138 mi, 2022) |
| Itens (baterias, lacres, cabines, papel) | Dentro do contrato único | Registros de preço item a item (fornecedores distintos) |
| Transmissão dos boletins | Operada pelo consórcio, no sistema do TSE | Aplicativo do próprio TSE; operadoras só como transporte; SMSat para locais remotos |
| Infraestrutura de TI | — | SERPRO (estatal federal) + 160+ contratos de TI |
06O mapa das controvérsias
07Síntese: o comprovado e o desmentido
O maior erro ao falar da Smartmatic é misturar dois baldes muito diferentes. De um lado, há fatos duros, documentados e até judicializados. De outro, há alegações que a própria Justiça — brasileira e americana — já rejeitou.
| ✔ Comprovado / na Justiça | ✘ Desmentido / boato |
|---|---|
| Origem com o governo Chávez como sócio da Bizta (2004) | "Fraudou a eleição de 2020 nos EUA" — a Smartmatic ganhou os processos |
| O CEO admitiu manipulação de votos na Venezuela (2017) | "Forneceu as urnas do Brasil" — falso (TSE); perdeu a licitação de 2020 para a Positivo |
| Suborno nas Filipinas — indiciamento do DoJ (2024/2025) | "Recebeu dinheiro da USAID para atuar em 2022" |
| Superfaturamento no contrato de Los Angeles | "O FBI prendeu o CEO fornecedor das urnas brasileiras" |
A ironia que costura toda a história é técnica: a Smartmatic de 2004 era citada — inclusive por críticos brasileiros da urna eletrônica — como exemplo de auditabilidade, porque suas máquinas imprimiam um voto conferível pelo eleitor. Esse elogio, sobre aquele modelo específico, é verdadeiro. Mas a trajetória posterior mostrou que ter voto impresso auditável não vacina uma empresa contra corrupção e conflito de interesses — e que esses dois debates, o da tecnologia e o da idoneidade corporativa, não se confundem.
— Fim do dossiê —