Há um engano que quase todo mundo carrega sobre a Ilíada, e eu prefiro desfazê-lo já na primeira linha: ela não conta a Guerra de Troia. Não tem o rapto de Helena, não tem o cavalo de madeira, não tem a queda da cidade, nem sequer a morte de Aquiles. A guerra dura dez anos; o poema recorta pouco mais de cinquenta dias do último ano dela — e faz de um episódio quase mesquinho, a briga de dois chefes por causa de uma escrava, a lente através da qual você vai enxergar tudo o que um ser humano é capaz de sentir diante da morte. É o poema mais antigo da nossa civilização e, para muita gente, o maior. Eu quero contá-lo aqui como quem o abre pela primeira vez, sem pressa e sem susto.
Este é o primeiro painel de uma série. Se você já leu comigo a Odisseia e a Eneida, saiba que tudo aquilo nasce daqui: a Odisseia é o que acontece depois desta guerra, a longa volta para casa; a Eneida é a mesma guerra contada pelo lado que perdeu. A Ilíada é a raiz das duas. E cada uma tem um herói-chave que a define por uma palavra. Ulisses é a astúcia. Eneias é o dever — a pietas. Aquiles, o herói deste poema, é definido pela palavra que abre o próprio texto, e que é o oposto de qualquer prudência: a cólera.
O roteiro da guerra
- Homero e o que a Ilíada realmente conta
- A primeira palavra: "a cólera"
- A querela: Agamêmnon, Aquiles e a honra
- Tétis suplica a Zeus
- Quem é Aquiles: as duas sinas
- A máquina dos deuses
- Heitor e Andrômaca: o adeus
- A embaixada: quando os presentes não bastam
- Pátroclo, o amigo que veste a armadura
- A nova armadura e o Escudo de Aquiles
- Aquiles e Heitor: o duelo sob os muros
- A profanação do corpo
- Príamo na tenda de Aquiles
- O eco: Alexandre, Virgílio e Dante
- Por que a Ilíada é o primeiro poema sobre a morte
o poeta e o recorteHomero e o que a Ilíada realmente conta
Comecemos por quem canta. Homero é um nome sobre o qual não sabemos quase nada com certeza: a tradição o imagina cego, andarilho, vivendo por volta do século VIII a.C., e é possível que "Homero" não tenha sido um homem, mas o nome que herdou séculos de aedos — cantores que decoravam e recitavam esses versos de memória, ao som da lira, muito antes de alguém os fixar por escrito. Não importa. O que chegou até nós são dois poemas colossais, a Ilíada e a Odisseia, e com eles a literatura ocidental simplesmente começa. Não há "primeiros passos" hesitantes antes dela: a nossa literatura nasce já adulta, com uma obra que ninguém depois superou.
E é preciso entender o recorte, porque é nele que está a genialidade. A Guerra de Troia — travada, na lenda, porque o príncipe troiano Páris raptara Helena, mulher do rei grego Menelau — durou dez anos. Homero poderia ter contado tudo: o rapto, o embarque das mil naus, os nove anos de cerco. Não conta. Ele entra no décimo ano, com a guerra já emperrada e o exército grego apodrecendo na praia, e escolhe um só fio para puxar: a briga entre o comandante-supremo, Agamêmnon, e o seu maior guerreiro, Aquiles. Do começo ao fim, o poema cobre pouco mais de cinquenta dias. Tudo o que você "sabe" sobre Troia que não cabe aí — o cavalo, o calcanhar de Aquiles, o incêndio da cidade — está fora da Ilíada. Guarde isso; vamos voltar a ele.
o primeiro versoA primeira palavra: "a cólera"
Nenhum poema jamais anunciou com tanta clareza o seu próprio assunto. A Ilíada não abre com Troia, nem com Helena, nem com deuses: abre com um substantivo abstrato, colocado de propósito na primeiríssima posição do primeiríssimo verso, para que seja a última coisa que você esqueça. Em grego, essa palavra é mênis — não uma raiva qualquer, mas uma cólera profunda, quase sagrada, do tipo que se atribui aos deuses:
"Μῆνιν ἄειδε, θεά, Πηληϊάδεω Ἀχιλῆος…" (Mênin áeide, theá, Pēlēïádeō Achilêos…) "A cólera canta, ó deusa, do Pelida Aquiles — cólera funesta, que aos aqueus trouxe dores sem conta e ao Hades precipitou tantas almas valentes de heróis." Homero — Ilíada, I, 1–3
Repare no que Homero faz. Ele não pede à Musa que cante Aquiles, nem a guerra, nem Troia. Pede que cante um sentimento — a ira de um único homem — e avisa, no mesmo fôlego, que foi essa ira, e não os troianos, que matou os melhores gregos. O inimigo do poema, o verdadeiro, não está do outro lado da muralha: está dentro do peito do herói. É a primeira vez na história da literatura que uma obra se organiza inteira em torno da vida interior de uma pessoa — e isso, três mil anos atrás, é um salto de espécie. Compare, de novo, com as irmãs: a Odisseia abre pedindo que se cante "o homem" de mil ardis; a Eneida, "as armas e o varão". A Ilíada abre pedindo que se cante uma paixão. Ela é, desde a primeira sílaba, um poema sobre o que vai dentro.
canto IA querela: Agamêmnon, Aquiles e a honra
Tudo começa por uma escrava e por uma peste. Agamêmnon tomara como espólio de guerra a jovem Criseida, filha de um sacerdote de Apolo. O velho pai vem, humilde, com o resgate; Agamêmnon o expulsa com desprezo. O sacerdote reza a Apolo, e o deus desce dos cumes "com a aljava às costas", furioso, e por nove dias despeja flechas de peste sobre o acampamento — primeiro nas mulas e cães, depois nos homens, e "ardiam sem cessar as piras dos mortos". Para conter a mortandade, Agamêmnon é forçado a devolver a moça. Mas exige, em troca, uma compensação — e a que escolhe é a escrava de Aquiles, Briseida.
Aqui é onde o leitor moderno precisa de uma chave, senão a briga parece pequena. Para um guerreiro homérico, o espólio não é apenas um prêmio: é a medida pública da sua honra — timḗ. Tomar de Aquiles a parte que o exército lhe concedera é, aos olhos de todos, declarar que o melhor dos gregos vale menos do que o chefe manda. Não é ciúme por uma mulher; é a desonra encenada diante de todo o acampamento. Aquiles saca a espada, pensa em matar Agamêmnon ali mesmo — e é a deusa Atena, invisível para os demais, que o segura pelos cabelos e o detém. Ele embainha a arma, mas faz um juramento terrível: retira-se da guerra. Não lutará mais. Que os gregos, sem ele, aprendam na carne quanto valia o homem que humilharam.
Toda a máquina trágica do poema está armada nesta única cena. Não há vilão: os dois têm parte de razão e os dois erram por orgulho. Agamêmnon abusa do poder; Aquiles põe a própria honra ferida acima da vida de todos os companheiros. E é a decisão de Aquiles — cruzar os braços e deixar os seus morrerem para provar um ponto — que vai matar, entre tantos, justamente a pessoa que ele mais ama no mundo. A cólera, avisara o primeiro verso, é funesta. O poema inteiro é a lenta demonstração de quanto.
o plano dos deusesTétis suplica a Zeus
Aquiles não é um mortal comum: sua mãe é uma deusa do mar, a nereida Tétis. Ferido, ele faz o que uma criança faz — chama a mãe. E Tétis sobe ao Olimpo para pedir a Zeus um favor que é, no fundo, monstruoso: que o deus dos deuses faça os gregos perderem a guerra enquanto Aquiles estiver de fora, para que o exército inteiro sinta a falta dele e Agamêmnon seja obrigado a se humilhar. Zeus hesita — sabe que isso vai enfurecer sua esposa Hera, que odeia Troia —, mas acena com a cabeça, e o Olimpo estremece. Está selado. Para restaurar a honra de um homem, muitos milhares vão morrer.
É um detalhe moral que vale a pena não deixar passar. A guerra não vira contra os gregos porque os troianos sejam melhores, mais justos ou favorecidos pelo destino. Ela vira porque a vaidade ferida de Aquiles chegou aos ouvidos de Zeus pela boca de uma mãe. Homero olha para a política e a guerra dos homens e enxerga, por baixo, sentimentos privados: um orgulho, um pedido de mãe, um aceno divino. O grandioso, na Ilíada, é sempre movido pelo íntimo — e é isso que a torna, apesar da idade, tão perturbadoramente moderna.
o heróiQuem é Aquiles: as duas sinas
Para entender por que Aquiles é o mais trágico dos heróis, é preciso conhecer o segredo que ele carrega — e que Homero, note bem, jamais reduz ao calcanhar. A história do banho no rio Estige e do ponto vulnerável no tornozelo é posterior, de autores mais tardios; na Ilíada, Aquiles não é invulnerável coisa alguma. Ele é simplesmente o melhor: o mais rápido, o mais forte, o mais belo, filho de uma deusa. E sobre ele pesa uma profecia dupla que a mãe lhe revelou, e que é a chave de todo o seu caráter.
Aquiles conhece as duas estradas que a vida lhe oferece, e tem de escolher entre elas. Ele mesmo as descreve, na hora em que recusa a paz:
"…διχθαδίας κῆρας φερέμεν θανάτοιο τέλοσδε." (…dichthadías kêras…) "Dois destinos me levam ao termo da morte: se fico a lutar em torno de Troia, perde-se a volta para casa, mas terei glória imortal; se volto à terra pátria que amo, perde-se a nobre glória, mas terei vida longa — e a morte não me alcançará tão cedo." Aquiles — Ilíada, IX, 411–416
Pare nesse verso, porque nele está a alma grega inteira. De um lado, o nóstos — o regresso, a vida longa e obscura em casa, que dá nome e sentido à Odisseia. Do outro, o kléos — a glória, a fama que os poetas cantarão para sempre, ao preço de morrer jovem e longe. Aquiles sabe, com uma clareza que nenhum outro herói tem, que escolher a glória é escolher a morte. E escolhe a glória. É por isso que ele é o herói absoluto e, ao mesmo tempo, o mais melancólico: cada façanha sua é um passo consciente na direção do próprio túmulo. Ele não é corajoso por ignorar a morte, como os outros. É corajoso sabendo. E o poema é, em boa parte, a história de um jovem descobrindo o que essa escolha custa de verdade — não a ele, no fim, mas a quem ele ama.
o Olimpo em campoA máquina dos deuses
E aqui cabe um parêntese, porque quase todo leitor pergunta: de onde vem essa implicância das deusas com Troia? Vem da história mais famosa que a Ilíada não conta. Nas bodas de Peleu e Tétis — os pais de Aquiles, justamente —, a única divindade esquecida na lista de convidados foi Éris, a Discórdia; enciumada, ela rolou no meio da festa um pomo de ouro com uma inscrição de duas palavras, "à mais bela" (em grego, τῇ καλλίστῃ). Hera, Atena e Afrodite disputaram o prêmio, e Zeus, esperto, livrou-se de julgar empurrando a escolha para um mortal: o príncipe troiano Páris. Cada uma tentou comprá-lo — Hera com poder, Atena com sabedoria e vitória, Afrodite com a mulher mais bela do mundo. Páris ficou com Afrodite, e a tal mulher era Helena, esposa de um rei grego: está aí, nesse "julgamento de Páris", a semente do rapto que acende a guerra, do favor de Afrodite ao seu premiado e do rancor eterno de Hera e Atena contra os troianos. Mas — e este é o ponto — nada disso está em Homero: o pomo, a Discórdia e o concurso de beleza pertencem à Cípria, um poema hoje perdido do chamado Ciclo Épico (atribuído pela tradição a Estásino de Chipre), que narrava os antecedentes da guerra e só sobrevive em fragmentos e num resumo antigo. A Ilíada supõe que você já saiba a história e a toca uma só vez, de raspão, lá no canto XXIV — porque Homero entra na guerra dez anos depois da maçã.
Na Ilíada os deuses não são figuras distantes: eles descem ao campo, tomam partido como torcedores enfurecidos, desviam lanças no ar, curam feridos, chegam a ser eles próprios feridos por lanças humanas. O exército está rachado no céu tanto quanto na terra. Pró-gregos: Hera (a rainha ofendida pelo julgamento de Páris), Atena (a estratégia) e Posêidon. Pró-troianos: Apolo, Afrodite (que protege Páris, seu premiado) e Ares, o deus da guerra bruta. E, acima de todos, Zeus, que tenta arbitrar e garantir o destino — o moîra — do qual nem ele foge. Você vai reconhecer esse tabuleiro: é o mesmo que Virgílio herdará para a Eneida, com Juno no lugar de Hera e Vênus no de Afrodite.
Mas há uma diferença de temperatura entre deuses e homens que é, para mim, o achado mais amargo do poema. Os deuses são imortais — e, por isso mesmo, leves. Brigam, trapaceiam, riem, se vingam por ninharias e, no dia seguinte, nada aconteceu, porque para eles nada é definitivo: têm a eternidade pela frente. Os homens, não. Cada golpe, para um homem, pode ser o último; cada escolha é irreversível; a morte dá a tudo o que ele faz um peso que os deuses, justamente por não morrerem, jamais poderão sentir. Homero coloca os dois lado a lado no mesmo campo para que você veja o contraste: a existência só ganha gravidade porque acaba. Os deuses têm poder; os homens têm o que é infinitamente mais raro — têm consequência.
canto VIHeitor e Andrômaca: o adeus
E aqui o poema faz algo que nenhuma epopeia de guerra ousara: ele atravessa a muralha e vai olhar o inimigo por dentro de casa. Do lado troiano, o grande herói não é um bruto: é Heitor, o filho mais velho do rei Príamo, o esteio da cidade, e o personagem mais amável de toda a Ilíada. Ao contrário de Aquiles, que luta pela própria glória, Heitor luta por uma coisa simples e concreta: a mulher, o filho, os muros atrás dos quais eles dormem. É o herói do dever — e você já sabe, da Eneida, o quanto essa palavra vai pesar.
No canto VI, Heitor deixa a batalha por um instante e encontra, junto à muralha, a esposa Andrômaca com o bebê no colo. Ela o abraça e implora, com uma lógica de partir o coração: não volte ao combate, você vai me deixar viúva e o menino órfão; fique aqui, defenda dos muros, tenha piedade de nós. E Heitor — este é o cerne trágico — responde que não pode. Não por frieza: ele sabe, e diz, que Troia está condenada, que verá a mulher levada como escrava; mas a vergonha de se esconder enquanto os outros morrem é mais forte que o próprio medo de perdê-la. É a timḗ de novo, a honra, agora do lado que vai perder. E então vem o gesto que resume a Ilíada inteira num só quadro doméstico: Heitor estende os braços para o bebê, e o menino chora de susto, apavorado com o penacho de crina que balança no elmo do pai. Os dois pais riem em meio à guerra; Heitor tira o capacete, beija o filho, reza para que ele seja um dia melhor que o pai — e volta para a morte que sabe que o espera.
"…ἔσσεται ἦμαρ ὅτ' ἄν ποτ' ὀλώλῃ Ἴλιος ἱρή…" (…éssetai êmar…) "Bem sei isto no íntimo do peito: virá o dia em que há de perecer a sagrada Ílion, e Príamo, e o povo do bom lanceiro Príamo." Heitor, prevendo a queda de Troia — Ilíada, VI, 447–449
Não conheço, em toda a literatura, cena mais poderosa sobre o custo humano da guerra. Homero podia ter feito de Heitor um monstro, para que torcêssemos por Aquiles. Faz o contrário: faz de você amigo do homem que o herói do poema vai matar. Quando a hora chegar, o leitor não vai comemorar — vai sofrer pelos dois lados. Essa é a grandeza moral da Ilíada: ela se recusa a ter um inimigo descartável.
canto IXA embaixada: quando os presentes não bastam
Sem Aquiles, os gregos apanham. Zeus cumpre a promessa a Tétis: os troianos, liderados por Heitor, empurram o exército inimigo de volta às naus e ameaçam tocar fogo na frota — o que seria o fim de todos, sem barcos para voltar. Desesperado, Agamêmnon engole o orgulho e envia à tenda de Aquiles uma embaixada com uma oferta espetacular: devolve Briseida intocada, jura, e ainda por cima oferece ouro, cavalos, cidades, uma filha em casamento — um resgate de rei para comprar a volta do guerreiro.
E Aquiles recusa. Este é um dos momentos mais profundos do poema, porque a recusa não é birra — é uma revelação. Diante da lista de tesouros, Aquiles faz uma pergunta que ninguém, no mundo heróico, havia feito antes: de que serve tudo isso, se no fim eu morro igual? "A mesma sorte cabe a quem fica e a quem luta muito; numa só honra estão o covarde e o bravo; morre o que nada fez e o que muito fez." Ele percebeu, de repente, que o sistema inteiro de honra e espólio pelo qual estava disposto a deixar os amigos morrerem talvez não valha uma vida — a vida, a única que ele tem. Por um instante, o maior guerreiro do mundo chega perto de escolher a outra sina, o regresso, a vida longa: manda dizer que vai simplesmente ir para casa. É o clímax secreto da Ilíada — o herói da glória vacilando à beira de trocá-la pela vida. Não é a razão que o fará voltar à guerra. Vai ser a dor.
canto XVIPátroclo, o amigo que veste a armadura
A pessoa que Aquiles ama acima de tudo é Pátroclo — companheiro de infância, o mais próximo dos próximos, laço que os gregos posteriores discutiriam sem fim mas que na Ilíada é, antes de qualquer rótulo, o amor de uma vida por outra. Pátroclo não suporta ver os gregos morrerem enquanto o amigo se consome na tenda. E implora a Aquiles um favor: se você não volta, deixe ao menos que eu vá — e que eu vista a sua armadura, para que os troianos pensem que é você, e recuem de medo. Aquiles cede, com uma condição: apenas afastar o fogo das naus, e voltar; nada de perseguir os troianos até a muralha.
Pátroclo vai, e por um tempo glorioso é imparável — os troianos, crendo-o Aquiles, fogem em pânico. Mas o sucesso o embriaga. Ele esquece o aviso, avança até os muros de Troia, e ali o destino o encontra: Apolo em pessoa, envolto em névoa, golpeia-lhe as costas e o desarma; um troiano o fere; e então Heitor lhe crava a lança e o remata, tomando-lhe a armadura — a armadura de Aquiles. Pátroclo, morrendo, profetiza: a Heitor também resta pouco tempo. A notícia chega à tenda. E o que a soberba de Agamêmnon, os apelos dos embaixadores e todo o ouro do mundo não conseguiram, a dor consegue num segundo: Aquiles vai voltar à guerra. Só que não mais pela honra, nem pelos gregos, nem por Briseida. Vai voltar pela vingança — e a cólera do primeiro verso, que era contra Agamêmnon, encontra agora o seu verdadeiro e terrível alvo: Heitor.
canto XVIIIA nova armadura e o Escudo de Aquiles
Como Heitor ficara com a armadura de Aquiles, o herói precisa de outra — e Tétis vai buscá-la na oficina do deus-ferreiro Hefesto, o coxo divino que trabalha o bronze e o ouro. É aqui, no canto XVIII, que Homero faz uma das coisas mais extraordinárias de toda a poesia: ele para a guerra por centenas de versos para descrever, cena por cena, o que Hefesto grava no Escudo de Aquiles. E o que o deus grava não é a guerra. É o mundo inteiro.
No escudo estão a terra, o céu, o mar, o sol e a lua. E duas cidades. Uma cidade em paz, com casamentos, danças, cantos, e uma disputa levada a um tribunal justo, onde os anciãos julgam e os homens resolvem o conflito com palavras. E uma cidade em guerra, cercada por um exército, com emboscadas, mortos e o Ódio e a Morte arrastando cadáveres. Ao redor, a vida que não cessa: campos arados, a colheita, a vindima, o gado, pastores, rapazes e moças dançando de mãos dadas. Homero coloca, na arma do maior matador da guerra, um retrato de tudo aquilo que a guerra ameaça — a vida comum, pacífica, fértil, que segue existindo em algum lugar enquanto os heróis se matam na planície. É o comentário mais silencioso e mais devastador do poema sobre a sua própria matéria. E é o modelo direto do escudo que Vênus dará a Eneias — só que, lá, Virgílio gravará o futuro de Roma; aqui, Homero grava a humanidade inteira.
canto XXIIAquiles e Heitor: o duelo sob os muros
Aquiles volta ao campo transfigurado pela dor, e é aterrorizante. Massacra os troianos às dezenas, entope de cadáveres o rio Escamandro a ponto de o próprio deus-rio se erguer contra ele, e varre o inimigo de volta para dentro dos muros. Todos correm para a segurança da cidade — todos, menos um. Diante da Porta Ceia, sozinho do lado de fora, fica Heitor. Os pais, do alto da muralha, imploram que ele entre; o velho Príamo e a mãe, aos gritos. Mas a mesma honra que o afastara de Andrômaca o prende ali: ele não pode se esconder depois de ter levado o exército ao desastre. Vai enfrentar Aquiles.
E então, quando Aquiles avança como um relâmpago, a coragem de Heitor falha — e Homero, com uma honestidade que nenhum épico posterior teve, não o esconde. Heitor foge. Os dois dão três voltas completas ao redor das muralhas de Troia, o melhor troiano correndo pela vida, perseguido pelo melhor grego, sob os olhos de toda a cidade. É só quando Atena o engana, tomando a forma de um irmão que viria ajudá-lo, que Heitor para e enfrenta o inimigo — já entendendo que os deuses o abandonaram e que vai morrer. Aquiles o transpassa na garganta, no único ponto que a armadura roubada — a sua própria — deixava exposto. E Heitor, morrendo, faz um último pedido: que devolvam seu corpo aos pais, para o funeral. Aquiles, ainda fervendo de ódio, recusa com selvageria: nem que me ofereçam o teu peso em ouro; queria poder devorar-te cru. É o fundo do poço da cólera — o herói desumanizado pela própria dor.
a desmedidaA profanação do corpo
O que Aquiles faz em seguida é o clímax sombrio da Ilíada, e o ponto em que o herói cruza uma linha que os próprios deuses consideram intolerável. Ele fura os tornozelos do cadáver de Heitor, amarra-o pelos pés à traseira do carro e o arrasta, com a cabeça batendo na poeira, de volta ao acampamento — à vista de Príamo, de Andrômaca, de Troia inteira debruçada nos muros a gritar. E não faz isso uma vez: dia após dia, no auge do luto por Pátroclo, ele torna a arrastar o corpo do inimigo em torno do túmulo do amigo, tentando saciar numa mutilação uma dor que mutilação nenhuma sacia.
É importante entender que Homero não aprova isso. Pelo contrário: os deuses, olhando de cima, se indignam. Apolo protege o corpo de Heitor da corrupção e dos ferimentos, mantendo-o intacto apesar do arrasto, porque aquilo é um ultraje — uma desmedida, uma hybris que ofende a ordem das coisas. A cólera que abriu o poema chegou ao seu extremo: transformou o mais nobre dos guerreiros num homem que profana os mortos. E é exatamente do fundo desse abismo que a Ilíada vai extrair, no seu último canto, o gesto mais belo já escrito sobre a reconciliação humana.
canto XXIVPríamo na tenda de Aquiles
Numa noite, guiado em segredo pelo deus Hermes através das linhas gregas, um velho atravessa o acampamento inimigo e entra sozinho na tenda do homem mais perigoso do mundo. É Príamo, o rei de Troia, o pai de Heitor. Ele vem desarmado, sem exército, com um carro de tesouros para pagar o resgate — e faz o impensável: ajoelha-se diante de Aquiles e beija-lhe as mãos, "as mãos terríveis, matadoras de homens, que lhe haviam morto tantos filhos". E diz a frase que, para mim, é o coração de toda a Ilíada:
"…ἔτλην δ' οἷ' οὔ πώ τις ἐπιχθόνιος βροτὸς ἄλλος…" (…étlēn d' hoî' ou pṓ tis…) "Suportei o que nenhum outro mortal na terra jamais suportou: levar aos lábios a mão do homem que me matou os filhos." Príamo, aos pés de Aquiles — Ilíada, XXIV, 505–506
Príamo pede a Aquiles que se lembre do próprio pai, o velho Peleu, que lá longe também espera um filho que nunca mais verá — porque Aquiles sabe que vai morrer em Troia. E acontece o milagre laico do poema: Aquiles chora. Chora pelo pai, chora por Pátroclo; e o velho chora por Heitor; e os dois inimigos, o matador e o pai do morto, choram juntos, na mesma tenda, cada um a sua perda. Por um instante, o ódio se dissolve numa dor que é comum a todos os homens. Aquiles ergue o velho com as próprias mãos, ordena que o corpo de Heitor seja lavado e ungido para não chegar profanado aos olhos do pai, e concede uma trégua para o funeral. O herói que arrastava cadáveres redescobre, no fim, a sua humanidade — não pela vitória, mas pela compaixão.
E o poema termina aí — não na queda de Troia, não na morte de Aquiles, não na vitória de ninguém. Termina no funeral de Heitor, com o luto das mulheres troianas, a pira, os ossos recolhidos numa urna de ouro. A última linha inteira da Ilíada é de uma simplicidade que corta:
"ὣς οἵ γ' ἀμφίεπον τάφον Ἕκτορος ἱπποδάμοιο." (hṑs hoí g' amphíepon táphon Héktoros hippodámoio.) "Assim celebraram os funerais de Heitor, domador de cavalos." O último verso da Ilíada — XXIV, 804
Compare esse fecho com o das irmãs, porque a escolha de Homero é reveladora. A Odisseia termina em reconciliação e paz restaurada; a Eneida termina, ao contrário, no golpe de uma vingança, sobre um gemido de morte. A Ilíada, mais velha que as duas, escolhe um terceiro caminho, e o mais humano: termina numa trégua para chorar os mortos. Não há triunfo. Há apenas dois povos exaustos, um pai que recuperou o corpo do filho, e a guerra que — todos sabem — recomeçará amanhã. A primeira obra da nossa literatura fecha não com uma glória, mas com um velório.
O que a Ilíada NÃO conta
Quase tudo o que "todo mundo sabe" sobre Troia está fora deste poema. A Ilíada cobre cinquenta dias do décimo ano — o resto veio de outros autores, séculos depois:
- O rapto de Helena e o começo da guerra — acontece dez anos antes; a Ilíada só o menciona de passagem.
- O cavalo de madeira — a artimanha de Ulisses é posterior ao poema; aparece de relance na Odisseia e em cheio na Eneida.
- A queda e o incêndio de Troia — a cidade ainda está de pé quando a Ilíada termina; quem a queima é Virgílio.
- A morte de Aquiles — a flecha de Páris que o mata fica além da última página; Aquiles ainda está vivo no verso final.
- O calcanhar de Aquiles — o banho no Estige e o ponto vulnerável são invenção de autores tardios; na Ilíada, ele é mortal como qualquer um.
- As mil naus e o "rosto que lançou mil navios" — a frase é de Marlowe, do século XVI, não de Homero.
A Ilíada não é a história da Guerra de Troia. É a história de uma cólera — e de tudo o que uma cólera custa.
o ecoO eco: Alexandre, Virgílio e Dante
Nenhum livro moldou tanto o imaginário do Ocidente. Por mil anos, a Ilíada foi a base da educação grega: os meninos aprendiam a ler decorando Homero, e as noções de coragem, honra e beleza de uma civilização inteira saíram desses versos. Alexandre, o Grande, dizem, dormia com um exemplar da Ilíada anotado por Aristóteles debaixo do travesseiro, ao lado de um punhal; via a si mesmo como um novo Aquiles e, ao passar por Troia, correu nu em torno do túmulo do herói, invejando-o por ter tido "um Homero para cantar sua glória". A escolha de Aquiles — a vida curta e gloriosa — virou o molde secreto de todo conquistador ocidental.
Depois vieram os herdeiros literários. Virgílio, na Eneida, refez a Ilíada de propósito: seus seis últimos cantos são uma guerra pela posse de uma terra, com um duelo final entre Eneias e Turno decalcado do de Aquiles e Heitor, e um escudo divino modelado no de Aquiles. E, mil e quinhentos anos mais tarde, Dante colocaria Homero no limbo, entre os grandes espíritos da Antiguidade, saudando-o como "poeta soberano" — embora, ironia da história, o próprio Dante jamais tenha lido a Ilíada: o grego se perdera no Ocidente latino, e o poema só voltaria à Europa no Renascimento, mais de um milênio depois, para nunca mais sair. A Ilíada é assim: mesmo desaparecida por séculos, continuou a governar, à distância, a ideia que temos de herói.
para fecharPor que a Ilíada é o primeiro poema sobre a morte
Chegamos ao fim do primeiro painel, e agora dá para ver por que ele é a raiz de tudo. A Odisseia, que virá depois, é a epopeia da astúcia e do regresso: Ulisses vence pelo engenho e recupera a vida. A Eneida, mais tarde ainda, é a epopeia do dever: Eneias renuncia a tudo pela missão. A Ilíada é anterior e mais nua que as duas, porque não é sobre voltar nem sobre fundar. É sobre morrer — e sobre o que dá sentido a uma vida que sabe que vai acabar.
Todos os grandes temas da obra convergem para isso. A escolha de Aquiles entre a glória e a vida longa; a leveza cruel dos deuses imortais diante da gravidade dos homens mortais; o adeus de Heitor à mulher que não verá mais; as duas cidades no escudo, uma vivendo em paz enquanto a outra morre; o velho Príamo beijando a mão que matou seu filho. Homero cunhou, para tudo isso, uma imagem que atravessou trinta séculos — a comparação, na boca de um guerreiro, entre a vida dos homens e as folhas de uma árvore:
"Οἵη περ φύλλων γενεή, τοίη δὲ καὶ ἀνδρῶν." (Hoíē per phýllōn geneḗ, toíē dè kaì andrôn.) "Tal como a geração das folhas, assim é a dos homens. Umas o vento as lança por terra; outras a floresta faz brotar na primavera. Assim os homens: uma geração nasce, outra se apaga." Glauco a Diomedes — Ilíada, VI, 146–149
É essa consciência que torna a Ilíada, apesar de toda a sua carnificina, um poema comovente e não bárbaro. Os deuses são eternos e, por isso, ligeiros e frívolos; podem tudo, mas nada lhes custa. Os homens caem como folhas — e é precisamente porque caem que cada gesto seu tem valor: a coragem, o amor, a amizade, a piedade só existem porque há uma morte no fim de tudo para dar-lhes peso. Aquiles escolhe a glória sabendo o preço; Heitor enfrenta a morte pelos seus; Príamo e Aquiles choram juntos porque ambos vão perder tudo. A Ilíada é o primeiro livro a dizer, com uma beleza que ninguém depois igualou, aquilo que continua sendo a coisa mais verdadeira sobre nós: que somos mortais, e que é a mortalidade — e não a força, nem a astúcia, nem o dever — que nos faz humanos.
Se você seguir comigo, o próximo passo é a Odisseia: a guerra acabou, Troia caiu, e um único homem tenta, por dez anos, voltar para casa. Mas guarde esta primeira lição, porque as outras duas repousam sobre ela. Antes da astúcia de Ulisses e do dever de Eneias, houve a cólera de Aquiles — e a descoberta, no fundo dessa cólera, de que o inimigo de um homem nunca é o outro homem do lado de lá da muralha. É a própria morte, que a todos iguala; e a única resposta digna a ela, ensina Homero já no primeiro poema do Ocidente, é a compaixão.