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Direitos Humanos · Hong Kong · 2026

Joshua Wong
e a voz que Pequim
não consegue calar

Para entender o que se passa numa cela em Stanley Prison, é preciso voltar a 1842. Este é o caminho que vai do canhão britânico no estuário do Rio das Pérolas à cela onde, em 14 de maio de 2026, um jovem de 28 anos pode ouvir a palavra perpétua.

Próxima audiência: 14 de maio de 2026 Local: Tribunal de Hong Kong Status atual: Detido na Stanley Prison
Joshua Wong em 2019

Antes do nome, antes do rosto, antes da prisão — havia uma cidade. E antes da cidade, uma guerra travada por uma droga.

PARTE I — A HISTÓRIA

Como uma cidade portuária do Mar do Sul da China virou símbolo global de liberdade

§ 01 — 1839–1842A Guerra do Ópio: o início de tudo

Hong Kong nasce, como entidade política moderna, de um conflito por droga. Não era uma guerra qualquer — era a primeira de uma série que a China até hoje chama de Século das Humilhações.

No início do século XIX, a Companhia das Índias Orientais britânica enfrentava um déficit comercial crônico com o Império Qing: os ingleses queriam chá, seda, porcelana — os chineses não queriam quase nada de Londres. A solução do Império Britânico foi tão rentável quanto criminosa: contrabandear ópio indiano em escala industrial pela costa sul da China.

Em 1839, o comissário imperial Lin Zexu destruiu mais de mil toneladas de ópio britânico em Cantão. Londres respondeu com canhões. A Royal Navy, com seus navios a vapor de ferro — entre eles o lendário HMS Nemesis —, varreu as forças navais Qing em batalhas desiguais.

Em 29 de agosto de 1842, no convés do HMS Cornwallis, foi assinado o Tratado de Nanquim. A China cedia para sempre uma pequena ilha rochosa habitada por pescadores: Hong Kong.

Pintura de 1839 mostrando a destruição do ópio britânico pelo comissário Lin Zexu em Cantão.
1839 — A destruição do ópio britânico em Cantão pelo comissário Lin Zexu. O ato que serviu de pretexto para a Primeira Guerra do Ópio.

O HMS Nemesis, primeiro grande navio de guerra de casco de ferro a navegar em águas oceânicas, tornou‑se o símbolo da assimetria militar. Os juncos de guerra chineses, alguns ainda movidos a remos, foram destroçados. A pintura de Edward Duncan, de 1843, fixou a imagem na memória ocidental como uma cena de glória; para a China, foi kuoduo — a humilhação fundadora.

Cantão arde, juncos afundam, marinheiros chineses morrem aos milhares. E, no fim, a ilha de Hong Kong é entregue à Coroa Britânica “em perpetuidade”. Nas palavras dos historiadores, foi o primeiro tratado desigual — o pecado original da diplomacia moderna entre China e Ocidente.

Pintura de Edward Duncan, 1843, mostrando o navio britânico HMS Nemesis destruindo juncos chineses.
O HMS Nemesis destruindo juncos chineses na Baía de Anson (1841). Pintura de Edward Duncan, 1843. O “navio do diabo”, como os chineses o chamaram.
Pintura da assinatura do Tratado de Nanquim em 29 de agosto de 1842 a bordo do HMS Cornwallis.
29 de agosto de 1842, a bordo do HMS Cornwallis: a assinatura do Tratado de Nanquim. A ilha de Hong Kong passa a integrar o Império Britânico “em perpetuidade” — uma palavra que, mais tarde, tornar‑se‑ia ironicamente literal: as autoridades chinesas continuariam, por mais de 150 anos, a chamá‑la de “tratado desigual”.

§ 02 — 1842–1898Em três etapas, a colônia toma forma

Vista das feitorias estrangeiras (factories) em Cantão no início do século XIX, antes da cessão de Hong Kong.
Cantão (Guangzhou), no início do século XIX. As feitorias estrangeiras concentravam o comércio com a China — incluindo o ópio britânico que precipitaria a guerra.

O Império Britânico não se contentou com a ilha. Em 1860, ao fim da Segunda Guerra do Ópio, a Convenção de Pequim acrescentou a península de Kowloon e a Ilha de Stonecutters. Em 1898, a Convenção para a Extensão do Território de Hong Kong arrendou os Novos Territórios por 99 anos — um relógio que, sem que ninguém em Londres percebesse, começava a tiquetaquear em direção ao colapso da colônia.

A cidade que cresceu nos 156 anos seguintes não foi planejada como utopia liberal. Era uma colônia, com governador nomeado por Londres, sem democracia plena, com discriminação racial codificada em lei até bem tarde. Mas algo a tornou peculiar: a importação do sistema jurídico inglês — a common law, juízes independentes, habeas corpus, liberdade de imprensa, liberdade de reunião.

Hong Kong cresceu como porto livre. Refúgio de revolucionários chineses (incluindo Sun Yat‑sen), de fugitivos do Império Qing, depois da guerra civil chinesa, depois da Revolução Cultural. Cada onda de repressão no continente fazia a cidade inchar.

No início do século XX, Victoria Harbour já era um dos portos mais movimentados do mundo. Junkers de bambu cruzavam transatlânticos britânicos. Wan Chai, Causeway Bay, Tsim Sha Tsui — bairros que continuariam, um século depois, a ditar o ritmo financeiro da Ásia.

Sob a Coroa, Hong Kong não era democrática. Mas era, paradoxalmente, livre. Foi essa contradição — colônia sem democracia, mas com Estado de Direito — que moldou a identidade política da cidade e tornaria o que veio depois ainda mais doloroso.

Fotografia histórica de Victoria Harbour em Hong Kong no início dos anos 1900.
Victoria Harbour, início do século XX. O porto que faria de Hong Kong, sob bandeira britânica, um dos maiores entrepostos do mundo.
Mapa mostrando como a Grã-Bretanha adquiriu Hong Kong em três etapas: 1842, 1860 e 1898.
Aquisição britânica em três etapas: Ilha de Hong Kong (1842, “em perpetuidade”), Kowloon (1860, “em perpetuidade”) e Novos Territórios (1898, arrendamento de 99 anos). Foi o relógio dos Novos Territórios — vencimento em 1997 — que obrigou Margaret Thatcher a sentar com Deng Xiaoping em 1982.

§ 03 — 1984–1997“Um país, dois sistemas”: a promessa

Em 1979, o governador Murray MacLehose visitou Pequim para sondar Deng Xiaoping sobre o destino dos Novos Territórios. A resposta foi clara: a China queria tudo — ilha, Kowloon e Novos Territórios — em 1997.

Margaret Thatcher havia acabado de vencer a Guerra das Malvinas. Voou para Pequim em setembro de 1982 com a confiança de quem não desistia de territórios. Saiu da reunião com Deng tão abalada que tropeçou nos degraus do Grande Salão do Povo — uma queda registrada por câmeras chinesas e nunca esquecida pela imprensa.

Vinte e duas rodadas de negociação durante dois anos. No fim, Pequim ofereceu uma fórmula inédita, formulada por Deng pessoalmente: “um país, dois sistemas” (一國兩制). Hong Kong voltaria à China, mas manteria, por 50 anos, seu sistema econômico, suas liberdades civis, seu Judiciário, sua moeda, suas fronteiras alfandegárias.

Em 19 de dezembro de 1984, no Grande Salão do Povo em Pequim, Thatcher e o premiê Zhao Ziyang assinaram a Declaração Conjunta Sino‑Britânica. Hong Kong era um instrumento internacional registrado na ONU. Pequim prometia ao mundo. O mundo acreditou.

Bandeiras do Reino Unido e da China hasteadas lado a lado, simbolizando o período de transição da soberania de Hong Kong.
As bandeiras do Reino Unido e da República Popular da China — coexistência prometida por 50 anos. A promessa expirava em 2047. Não chegou nem perto.
Hong Kong é uma sociedade aberta, e nós queremos manter as suas características. Hong Kong vai continuar a ser o que é — em um país, dois sistemas. — Deng Xiaoping, 1984, defendendo a fórmula da Declaração Conjunta

Em 1º de julho de 1997, à meia‑noite, no Centro de Convenções de Wan Chai, o Príncipe Charles e Tony Blair se sentaram diante de Jiang Zemin e Li Peng. A bandeira britânica desceu. Subiu a estrela vermelha da República Popular. Tropas do Exército de Libertação Popular entraram na cidade pela manhã.

Para muitos hong‑kongueses — especialmente os que haviam fugido do continente após 1949 ou após a Revolução Cultural — foi um momento de ansiedade muda. Para Pequim, foi a recuperação de uma “província rebelde” perdida há 156 anos. Para a história, foi o início de um experimento sem precedentes: uma democracia parcial sob soberania de uma ditadura comunista.

§ 04 — 1997–2019A erosão progressiva

Os primeiros anos sob soberania chinesa preservaram boa parte das liberdades. Mas a pressão começou cedo. Cada onda de avanço autoritário foi, no início, contida por uma onda popular ainda maior — até que as ondas populares deixaram de bastar.

Manifestação de 1º de julho em Hong Kong, cerca de 2014, com cartazes e milhares de pessoas marchando.
As tradicionais marchas de 1º de julho, aniversário da devolução. Por décadas, foram o pulso democrático da cidade — até serem proibidas após 2020.

2003 — Meio milhão nas ruas contra o Artigo 23

O primeiro grande sinal de alarme. Pequim queria que o governo de Tung Chee‑hwa aprovasse o Artigo 23 da Lei Básica — uma legislação local de segurança nacional que criminalizaria “subversão” e “colusão com forças estrangeiras”. Em 1º de julho de 2003, num calor sufocante, 500 mil pessoas tomaram as ruas. O projeto foi engavetado. A vitória durou pouco — mas durou 21 anos.

2012 — A primeira vitória de um adolescente

O governo tentou impor um currículo escolar de “educação moral e nacional”: doutrinação pró‑Partido Comunista para crianças. Um grupo estudantil chamado Scholarism, liderado por um quase‑desconhecido de 14 anos chamado Joshua Wong, mobilizou 120 mil pessoas. O governo recuou.

Ocupação noturna da via Harcourt Road em Admiralty, Hong Kong, durante o Movimento dos Guarda-Chuvas em 2014.
2014 — Movimento dos Guarda‑Chuvas. Por 79 dias, ruas centrais de Hong Kong foram ocupadas em protesto contra a decisão de Pequim de pré‑selecionar os candidatos a Chefe Executivo. Estudantes abrigaram‑se da chuva e do gás de pimenta com guarda‑chuvas amarelos. Joshua Wong, 17 anos, foi um dos rostos mundiais do movimento.

2019 — A Lei de Extradição e o ponto de ruptura

Cinco anos depois, a chefe do Executivo Carrie Lam tentou aprovar uma lei que permitiria extraditar suspeitos de Hong Kong para a China continental. Para muitos, era a entrega final do Estado de Direito ao sistema judicial do Partido Comunista.

Em 9 de junho de 2019, mais de 1 milhão de pessoas marcharam. Em 16 de junho, organizadores estimaram 2 milhões — quase um quarto da população da cidade. Os protestos se espalharam por meses. A polícia respondeu com gás lacrimogêneo, balas de borracha, prisões em massa.

A lei foi retirada. Mas o estrago — para Pequim — já estava feito: o mundo tinha visto a maior rebelião pública contra o Partido Comunista desde Tiananmen, em 1989.

Mar de manifestantes em Hong Kong em junho de 2019, marchando contra a Lei de Extradição.
Junho de 2019: o maior protesto da história de Hong Kong. Estimativas vão de 1 a 2 milhões de pessoas — em uma cidade de 7,5 milhões.
Cena de protesto em 12 de junho de 2019 na Harcourt Road, com fumaça de gás lacrimogêneo dispersando manifestantes.
12 de junho de 2019, Harcourt Road. A polícia de Hong Kong dispara gás lacrimogêneo contra os manifestantes que cercavam o Conselho Legislativo (LegCo). Para muitos, foi o dia em que a “cidade pacífica” deixou de existir.

§ 05 — 30 DE JUNHO DE 2020A Lei de Segurança Nacional: o cerco se fecha

Pequim cansou de esperar. Após meses de protestos massivos, a resposta veio de cima — sem consulta a Hong Kong, sem passagem pelo LegCo, sem participação da sociedade civil.

Em 30 de junho de 2020, faltando minutos para o aniversário de 23 anos da devolução, o Comitê Permanente da Assembleia Popular Nacional, em Pequim, aprovou e impôs a Hong Kong a Lei de Segurança Nacional (NSL). O texto foi promulgado antes de ser publicado em chinês ou inglês na cidade. Vigorou imediatamente.

Quatro novos crimes, todos com penas que podem chegar à prisão perpétua:

  • Secessão — separar qualquer parte de território da soberania chinesa
  • Subversão — minar o poder do governo central
  • Terrorismo — usar violência ou ameaça com fins políticos
  • Conluio com forças estrangeiras — colaborar com governos ou organizações estrangeiras contra a China

Os termos são deliberadamente vagos. “Subversão” pode ser organizar primárias eleitorais. “Conluio com forças estrangeiras” pode ser pedir sanções internacionais. A lei tem aplicação extraterritorial: alcança qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, que critique Pequim.

Marcha em Hong Kong em 1º de julho de 2019, ano que antecedeu a Lei de Segurança Nacional.
1º de julho de 2019, um ano antes da NSL. Foram as últimas marchas legais. Em 2020, a manifestação foi proibida — e nunca mais voltou.
Hong Kong tinha um Estado de Direito independente. Hoje, tem um sistema jurídico em que juízes são selecionados pelo governo para casos sensíveis, em que defesa por júri pode ser dispensada, em que caução é negada por padrão e em que condenações por NSL chegam a 100% das acusações apresentadas.

Artigo 23 — o golpe final (março de 2024)

Em 23 de março de 2024, com a oposição democrática presa, exilada ou silenciada, o LegCo finalmente aprovou — em 48 dias — a versão local da NSL: o tão temido Artigo 23, derrotado nas ruas em 2003. Inclui traição, insurreição, sabotagem, interferência externa, sedição, roubo de segredos de Estado e espionagem. Para a Anistia Internacional, ele “normaliza” a repressão. Para a PEN America, “consagra a censura como política de Estado”. Para a maioria dos jornalistas e advogados que ainda restavam na cidade, foi o sinal para fechar as malas.

300+Detidos sob a NSL desde 2020
~100%Taxa de condenação em casos NSL
48Dias para aprovar o Artigo 23
Pena máxima possível
PARTE II — O ATIVISTA

O adolescente que enfrentou a maior potência autoritária do planeta

§ 06 — 1996–2012O menino magro de óculos

Joshua Wong Chi‑fung nasceu em Hong Kong em 13 de outubro de 1996 — oito meses antes de a cidade voltar à China. Filho de pais cristãos da classe média trabalhadora, magro, baixa estatura, óculos. Seu pai, Roger Wong, levava‑o desde criança a visitas a comunidades carentes — pequena militância social como prática familiar.

Em maio de 2011, aos 14 anos, fundou junto com colegas o grupo estudantil Scholarism (學民思潮). O alvo era específico: o currículo de “educação moral e nacional”, uma cartilha aprovada pelo governo de Hong Kong para ensinar nas escolas a glória do Partido Comunista Chinês — sem mencionar Tiananmen, a Revolução Cultural ou o Grande Salto Adiante.

Em setembro de 2012, a Scholarism organizou a ocupação do prédio do governo. Estimativas: 120 mil pessoas em apoio. O governo recuou. Joshua Wong tinha 15 anos e havia derrotado, sozinho, uma política de Pequim. Era a primeira vitória — e a última fácil.

Joshua Wong, aos 15 anos, em 2012, liderando a Scholarism contra o currículo de educação moral e nacional.
2012, aos 15 anos. Liderando a Scholarism. Já naquela imagem, o vocabulário corporal que se tornaria conhecido: o microfone seguro com firmeza, os óculos baixos, o discurso sem hesitação.

§ 07 — 26 SET 2014Os 79 dias que sacudiram o mundo

Em 31 de agosto de 2014, o Comitê Permanente da Assembleia Popular Nacional anunciou que pré‑selecionaria os candidatos para a próxima eleição do Chefe Executivo de Hong Kong. Significava, na prática, o fim da promessa de “sufrágio universal” inscrita na Lei Básica.

Em 26 de setembro de 2014, Joshua Wong, agora com 17 anos, liderou um grupo que invadiu a Praça Cívica em frente à sede do governo. Foi preso. A imagem do menino magro escoltado pela polícia viralizou. No dia 28 de setembro, milhares cercaram a região central da cidade. A polícia disparou spray de pimenta e gás lacrimogêneo. Os manifestantes abriram guarda‑chuvas amarelos para se proteger.

Nasce ali, espontaneamente, o símbolo: o Movimento dos Guarda‑Chuvas (雨傘運動). A ocupação de Admiralty, Causeway Bay e Mong Kok dura 79 dias. No fim, é desfeita pela polícia — sem que o governo conceda nada.

Mas a derrota tática é uma vitória simbólica colossal. Wong vira capa da TIME, é indicado ao Nobel da Paz em 2018, recebe biografias, documentários (Netflix lança Joshua: Teenager vs. Superpower). Com 17 anos, é nomeado pela revista TIME um dos adolescentes mais influentes do mundo.

Joshua Wong, aos 17 anos, dando entrevista durante o Movimento dos Guarda-Chuvas em outubro de 2014.
Outubro de 2014, em meio à ocupação. Microfones, câmeras, jornalistas. O adolescente que, semanas antes, era um quase‑desconhecido virou rosto mundial de um movimento.
Joshua Wong segurando guarda-chuvas amarelos durante o Movimento dos Guarda-Chuvas, símbolo internacional de resistência pacífica.
Os guarda‑chuvas amarelos viraram emblema. Foram replicados por artistas em Berlim, Londres, Nova York, Paris. Em Hong Kong, hoje, abrir um guarda‑chuva amarelo num protesto pode configurar “sedição”.

§ 08 — 2016–2020Demosistō: a tentativa eleitoral

Joshua Wong discursando no Capitólio dos Estados Unidos em 2019, ao lado de Nathan Law e congressistas, com o letreiro Hong Kong Human Rights & Democracy Act.
Setembro de 2019, Capitólio dos EUA. À esquerda de Wong, parlamentares americanos; à direita, Nathan Law. Esse tipo de aparição internacional será reinterpretado, anos depois, como “conluio com forças estrangeiras”.

Em 2016, com o fim da Scholarism, Wong fundou junto com Nathan Law e Agnes Chow o partido Demosistō (香港眾志). A proposta: pressionar por autodeterminação de Hong Kong por meio do sistema eleitoral.

Os três se dividiram as funções. Nathan Law concorreu — e foi eleito o deputado mais jovem da história do LegCo, aos 23 anos. Wong, ainda jovem demais para ser candidato, virou o rosto internacional do partido. Viajou. Discursou. Encontrou‑se com Marco Rubio, com a chanceler alemã Angela Merkel, com Nancy Pelosi.

Em setembro de 2019, discursou no Capitólio dos EUA em apoio ao Hong Kong Human Rights and Democracy Act — lei americana que autorizava sanções a autoridades chinesas envolvidas na repressão. Foi aprovada por unanimidade no Senado em novembro.

Quando a NSL foi imposta em 30 de junho de 2020, o Demosistō se autodissolveu — não havia como existir. Nathan Law fugiu para Londres no dia seguinte. Agnes Chow seria presa, libertada e exilada anos depois. Joshua Wong escolheu ficar.

Banido das eleições

Em 29 de outubro de 2019, o governo de Hong Kong impediu Joshua Wong de concorrer às eleições distritais — única figura entre os candidatos pró‑democracia a ser barrada. O motivo oficial: defender “autodeterminação” seria “incompatível com a Lei Básica”. Wong reagiu publicamente, chamando a decisão de “vergonha política”.

A democracia eleitoral foi sendo fechada, peça por peça. Em 2021, Pequim impôs uma reforma eleitoral que reduziu drasticamente o número de cadeiras eleitas diretamente no LegCo e instituiu um Comitê de Vetting para validar candidatos por critérios de “patriotismo”. Um sistema onde, na prática, ninguém crítico ao Partido Comunista pode concorrer.

Joshua Wong impedido de concorrer às eleições distritais de Hong Kong em outubro de 2019.
29 de outubro de 2019. Wong é informado de que está barrado das eleições distritais. Único candidato pró‑democracia a ser desqualificado por critério ideológico.

§ 09 — A CELAStanley Prison: o lugar onde Joshua Wong vive hoje

Vista aérea da Stanley Prison, na península sul da Ilha de Hong Kong.
Vista aérea da Stanley Prison (赤柱監獄), na ponta sul da Ilha de Hong Kong. Construída em 1937 pelos britânicos. Hoje, abriga os principais presos políticos da cidade.

A Stanley Prison foi inaugurada em 1937, na ponta sul da Ilha de Hong Kong, então considerada uma das prisões mais modernas do Império Britânico. Seis blocos de celas atrás de muros de 5,5 metros, com vista para o Mar do Sul da China — uma ironia geográfica brutal.

Durante a ocupação japonesa de 1941–1945, foi também campo de internação de civis. Após a guerra, voltou a ser prisão de segurança máxima sob administração britânica. Após 1997, sob o Departamento de Serviços Correcionais de Hong Kong (HKCS).

É lá que Joshua Wong cumpre, hoje, a pena de 4 anos e 8 meses da condenação no caso Hong Kong 47. Visitas restritas, correspondência censurada, contato com advogados controlado. E é de lá que, em 6 de junho de 2025, ele foi removido para receber uma nova acusação sob a NSL — desta vez, com pena máxima de prisão perpétua.

§ 10 — O CASO ATUALO processo que pode mantê‑lo preso para sempre

No dia 14 de maio de 2026, Joshua Wong comparecerá ao tribunal no âmbito de seu segundo processo sob a NSL. Aos 28 anos, ele já cumpre 4 anos e 8 meses pelo Hong Kong 47. A nova acusação prevê prisão perpétua.

A nova acusação refere‑se a supostos pedidos de sanções internacionais contra Hong Kong ou a China, entre julho e novembro de 2020, em conjunto com o ativista exilado Nathan Law e “outras pessoas desconhecidas”. O crime: conspiração para conluio com forças estrangeiras.

Organizações internacionais classificam a medida como uma estratégia deliberada para prolongar indefinidamente sua detenção, mesmo após o cumprimento da pena atual. O timing é eloquente: a libertação estava prevista para janeiro de 2027. A nova acusação foi formalizada em junho de 2025 — dezoito meses antes do prazo.

Essa acusação foi desenhada para manter Joshua Wong atrás das grades o maior tempo possível. É arbitrária e revela o medo das autoridades diante de vozes dissidentes. — Sarah Brooks, diretora da Anistia Internacional para a China
Joshua Wong escoltado pelo Departamento de Serviços Correcionais de Hong Kong, algemado, com máscara cirúrgica.
Joshua Wong escoltado pelo HKCS — uma das imagens mais difundidas da repressão à dissidência política em Hong Kong nos últimos anos.

A Human Rights Watch e a PEN America também denunciaram o caso como um ataque sistemático à liberdade de expressão e aos direitos humanos, reforçando que Wong é, hoje, um prisioneiro de consciência.

A China está a exportar a sua ideologia autoritária para Hong Kong e para o mundo.

— Joshua Wong, em entrevista ao jornal Público, julho de 2020

§ 11 — O CERCOO retrospecto de condenações sequenciais

Cinco condenações em quatro anos. Cada uma adicionando uma camada extra de tempo atrás das grades. A engenharia jurídica é deliberada: manter Wong preso enquanto se constrói o próximo processo.

2 dez 2020 Organizar e incitar assembleia não autorizada — protesto de 21/06/2019 contra a Lei de Extradição, na sede da polícia de Hong Kong. 13,5 meses
13 abr 2021 Participar de assembleia não autorizada + violar lei anti‑máscara — protesto de 5/10/2019 em Hong Kong Island. + 4 meses
6 mai 2021 Vigília do Massacre de Tiananmen (4/06/2020). Reduzida em apelação para ~6 meses em janeiro de 2022. 10 → 6 meses
17 abr 2023 Desacato ao tribunal — divulgou dados pessoais de policial que disparou contra manifestante em 2019. + 3 meses
19 nov 2024 Conspiração para subversão (Caso “Hong Kong 47” — primárias democráticas de julho de 2020). Sentença atual, cumprida em Stanley Prison. Liberação prevista: janeiro de 2027. 4 anos
8 meses
6 jun 2025 Conspiração para conluio com forças estrangeiras (NSL, art. 29) — pedido de sanções internacionais entre julho/novembro de 2020. Audiência de instrução em 14 de maio de 2026. PERPÉTUA
Joshua Wong escoltado por agentes do Departamento de Serviços Correcionais em 2021, no Centro de Recepção de Lai Chi Kok.
Março de 2021 — Centro de Recepção de Lai Chi Kok. Wong escoltado por agentes do HKCS para mais uma audiência. Já naquela altura, a sucessão de processos servia ao mesmo objetivo: impedir que ele saísse antes que a NSL pudesse alcançá‑lo.

§ 12 — HONG KONG 47O maior julgamento de massa da história da cidade

Em julho de 2020, semanas após a entrada em vigor da NSL, dezenas de figuras pró‑democracia organizaram primárias informais para selecionar candidatos a uma futura eleição do Conselho Legislativo. Compareceram 610 mil eleitores.

Em janeiro de 2021, 47 organizadores e candidatos foram presos sob a NSL e acusados de “conspiração para cometer subversão”. O processo arrastou‑se por anos. Em 19 de novembro de 2024, o tribunal sentenciou 45 deles a penas de 4 a 10 anos de prisão. No tribunal lotado, ao ser sentenciado, Joshua Wong gritou em cantonês:

Eu amo Hong Kong. — Joshua Wong, ao ser sentenciado, 19 de novembro de 2024

Para a Anistia Internacional, a Human Rights Watch e a PEN America, o Hong Kong 47 é o maior julgamento político de uma democracia em transição forçada para o autoritarismo nas últimas décadas. Realizar primárias internas — uma prática rotineira em qualquer democracia — virou crime contra o Estado.

§ 13 — A REDE INTERNACIONALOs exilados, os artistas, a recompensa

Wong não está sozinho — ainda que esteja preso. Em torno dele, formou‑se uma rede internacional de solidariedade que inclui exilados, dissidentes chineses e artistas de projeção global.

Nathan Law, ativista de Hong Kong exilado em Londres, em julho de 2020. 01

Nathan Law

Cofundador, com Wong e Agnes Chow, do partido Demosistō (2016). Foi o deputado mais jovem eleito ao LegCo, depois destituído. Vive exilado na Inglaterra desde 2020. A China oferece HK$ 1 milhão (~R$ 700 mil) pela sua captura.

Ai Weiwei, artista chinês exilado, em retrato de 2017. 02

Ai Weiwei

O mais célebre artista dissidente chinês, hoje exilado, escreveu a introdução do livro de Wong, Democracia Ameaçada. Para ele, o caso de Wong é “a face moral de uma geração asiática”.

Denise Ho (HOCC), cantora de Cantopop e ativista de Hong Kong. 03

Denise Ho (HOCC)

Cantora de Cantopop, ícone LGBTQ+ e ativista, testemunhou ao lado de Wong em audiências internacionais. Banida do mercado fonográfico chinês após apoiar a luta democrática. Presa em 2021 sob acusação de sedição.

Sob o regime atual, contratar Joshua Wong, Nathan Law ou Denise Ho como artistas é, em Hong Kong, passível de processo por “conluio com forças externas”. A repressão deixou de mirar apenas atos. Mira também associações.

§ 14 — O LIVRODemocracia Ameaçada: a obra que chegou ao Brasil

Capa do livro Democracia Ameaçada, de Joshua Wong, publicado no Brasil pelo selo Avis Rara da Faro Editorial.

No Brasil, o livro chegou pelo selo Avis Rara, da Faro Editorial. Wong narra a trajetória que o levou ao ativismo aos 14 anos, contra a doutrinação chinesa nas escolas. Inclui cartas escritas durante seu encarceramento político e termina com um apelo urgente: lutar pelo direito à liberdade de expressão antes que seja tarde.

  • TítuloDemocracia Ameaçada
  • SubtítuloA liberdade de expressão em risco e por que precisamos agir, agora
  • AutorJoshua Wong (com Jason Y. Ng)
  • EditoraFaro Editorial / Selo Avis Rara
  • Páginas208
  • ISBN978‑65‑86041‑25‑5
  • IntroduçãoAi Weiwei (artista chinês exilado)
  • StatusDisponível no Brasil
Como uma luta estudantil revelou uma ameaça global. — Frase de capa

§ 15 — A MENSAGEM AO BRASILO recado que ele deixou antes da nova prisão

Meses antes de ser novamente preso, Joshua Wong gravou um vídeo dirigido aos leitores brasileiros, por ocasião do lançamento de Democracia Ameaçada. Nele, prevê com inquietante precisão os eventos que se desdobrariam em seu país.

Joshua Wong — mensagem ao Brasil sobre Democracia Ameaçada Assistir no YouTube — “Joshua Wong, ícone da democracia de Hong Kong, será condenado à prisão perpétua” · canal LaudelinoRJ

§ 16 — 14 DE MAIO DE 2026O que está em jogo na próxima audiência

A audiência de 14 de maio de 2026 não é, ainda, o veredicto. É mais um passo no processo que poderá levar Wong à prisão perpétua — uma pena que, em sua segunda condenação por NSL, soaria como sentença de morte civil para um homem de 28 anos.

O que está em julgamento, na prática, vai além de Joshua Wong:

O silêncio diante da prisão arbitrária de ativistas como Joshua Wong normaliza a repressão e enfraquece o compromisso global com os direitos humanos.

Como agir

Organizações que acompanham e advogam pelo caso: Anistia Internacional, Human Rights Watch, PEN America e The Committee for Freedom in Hong Kong Foundation. Compartilhar o caso, comprar e ler o livro Democracia Ameaçada, escrever a parlamentares e cobrar posicionamento de governos democráticos são gestos pequenos — e necessários.

Em uma cidade onde os guarda‑chuvas viraram crime, lembrar de Joshua Wong é, em si, um pequeno ato de resistência.

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