O programa foi vendido como cooperação humanitária. Por dentro, era um contrato triangular: o Brasil pagava, a OPAS intermediava e Cuba ficava com a maior parte do salário de cada médico. O profissional recebia uma fração, tinha o passaporte retido e, se fugisse, não podia voltar para casa por oito anos. Este dossiê mostra a engrenagem — com documentos, cifras e o que já foi a tribunal.
Entre 2013 e 2018, mais de 20 mil médicos cubanos atenderam em cidades brasileiras pelo Mais Médicos. Eles salvaram vidas em rincões que nunca tinham visto um médico — isso é verdade e não está em disputa. O que este dossiê investiga é o regime de trabalho a que eles próprios foram submetidos: quanto do salário chegava ao médico, que liberdade ele tinha, e o que acontecia se quisesse ir embora.
Um trabalho é considerado forçado, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), quando há coerção e ausência de consentimento livre — o trabalhador não pode recusar a tarefa nem deixar o emprego sem punição. O que os depoimentos, os relatórios da ONU e os autos de um processo em curso nos Estados Unidos descrevem é exatamente esse conjunto de elementos — que este dossiê destrincha, um a um, adiante.
"Escravidão" soa como palavra de comício. Mas, no caso das missões médicas cubanas, ela foi usada por instâncias técnicas e diplomáticas de primeira linha — não por adversários políticos de ocasião.
Em 6 de novembro de 2019, duas Relatoras Especiais da ONU enviaram uma comunicação formal ao governo cubano (referência AL CUB 6/2019): Urmila Bhoola, relatora sobre formas contemporâneas de escravidão, e Maria Grazia Giammarinaro, relatora sobre tráfico de pessoas.
Elas registraram jornadas de até 64 horas semanais, retenção de salários, vigilância e restrição de liberdade, e concluíram que essas condições "poderiam configurar trabalho forçado" segundo os indicadores da OIT — e que "o trabalho forçado constitui uma forma contemporânea de escravidão".
Cuba figura no pior nível (Tier 3) do Trafficking in Persons Report do Departamento de Estado americano de 2019 a 2023. O relatório trata o programa de exportação de trabalho cubano — sobretudo as missões médicas — como trabalho forçado gerido por órgãos do Estado.
O Senado dos EUA foi além: a resolução S.Res.14 (2019) afirmou que as missões médicas cubanas "constituem tráfico humano" e citou que mais de 20 mil profissionais tiveram salários retidos no Brasil sob o Mais Médicos.
"É falta disciplinar manter relacionamentos ou amizades com pessoas de 'condutas não éticas' ou de 'visões hostis à revolução'; morar com pessoas não autorizadas; frequentar lugares que 'prejudiquem o prestígio'. O colaborador deve declarar aos superiores todo relacionamento amoroso e não pode expressar opiniões à imprensa sem autorização e instruções."
— Norma interna que rege os "colaboradores" cubanos no exterior. Fonte: Human Rights Watch, "Cuba: Repressive Rules for Doctors Working Abroad", 23/07/2020.
O médico cubano nunca teve contrato com o Brasil. O Brasil pagava a OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde, braço regional da OMS); a OPAS repassava a uma estatal cubana; e essa estatal decidia quanto sobrava para o médico. A engenharia financeira é o coração do caso.
Segundo os autos da ação que corre nos Estados Unidos (e citando a própria decisão do juiz distrital em 2020), o Brasil depositava o pagamento numa conta da OPAS em Washington; dali, a divisão alegada era esta:
Citação literal da decisão de 2020 (Rodriguez v. PAHO, 502 F. Supp. 3d 200): "a OPAS arrecadava centenas de milhões de dólares por ano do Brasil e remetia 85% a Cuba, pagava 10% ou menos aos médicos e ficava com 5% para si."
Mesmo a fração que cabia ao médico não chegava inteira à sua mão. Do valor, uma parte era paga no Brasil (relatos falam em ~US$ 400/mês) e outra parte ficava "congelada" numa conta em Cuba, liberada apenas quando o médico terminasse a missão e voltasse.
O efeito é uma coleira financeira: quem desertasse perdia o dinheiro retido. Números brasileiros convergem: dos cerca de R$ 10.400 pagos por médico via OPAS, aproximadamente R$ 3.000 chegavam ao profissional — o Estado cubano ficava com cerca de 70%.
A ação nos EUA sustenta que, desde 2013, a OPAS reteve mais de US$ 75 milhões só de taxa, e Cuba recebeu mais de US$ 1,3 bilhão pelo Mais Médicos. O Departamento de Estado, em 2025, falou em cerca de US$ 1,5 bilhão pagos pelo Brasil à OPAS no total.
Ministra Dora Maria da Costa · TSTO TST, em 3/11/2015, não julgou se houve escravidão: declarou a Justiça do Trabalho incompetente, por entender que a relação era estatutária, e mandou o caso à Justiça Federal.
Dinheiro retido é só metade da história. A outra metade é o controle sobre o corpo e a vida do médico — e sobre a família que ficava na ilha como garantia.
Os médicos viajavam com passaporte oficial, válido só durante a missão, e relatos afirmam que os documentos eram retidos na chegada. Em abril de 2025, um vice-ministro cubano chegou a admitir publicamente a retenção de passaportes de médicos no exterior — "para que não se perdessem".
Ex-integrantes descrevem "chefes de missão" ligados à segurança do Estado que controlavam movimentos, contatos e falas. A ONG Prisoners Defenders reuniu 110 depoimentos na denúncia inicial à ONU (2019) e 622 no relatório que embasou a denúncia ao Tribunal Penal Internacional (2020) — hoje passam de 1.400.
Quem "abandona" a missão é declarado "desertor/indesejável" e fica proibido de entrar em Cuba por 8 anos — separado dos filhos deixados na ilha. Pelo Código Penal cubano, "abandonar" o posto no exterior pode ser punido com até 8 anos de prisão.
A Prisoners Defenders estima entre 5 mil e 10 mil pais e mães separados à força dos filhos por essa regra. A família que fica funciona, na prática, como garantia de que o médico volte — e devolva o dinheiro congelado.
Confisco de salário: presente. Retenção de documento de identidade: presente. Restrição de movimento e vigilância: presente. Ameaça de retaliação (a si e à família): presente. Impossibilidade de deixar o emprego sem punição severa: presente. É a soma desses elementos — e não uma palavra isolada — que faz a ONU e os EUA usarem o termo trabalho forçado.
A engenharia só veio a público porque médicos fugiram e falaram. O caso que abriu tudo tem nome, cidade e data.
Lotada no município de Pacajá, no Pará, a médica cubana Ramona Matos Rodríguez abandonou o Mais Médicos em fevereiro de 2014 e se refugiou na liderança de um partido na Câmara dos Deputados, em Brasília. Em depoimento ao Ministério Público do Trabalho, relatou que recebia cerca de US$ 400 enquanto o Brasil pagava muito mais, que não podia deixar a cidade sem permissão de um responsável cubano e que o contrato trazia cláusulas de sigilo sobre as próprias condições.
Ramona Matos · depoimento ao MPT, 2014Não podíamos namorar nem casar com estrangeiros sem autorização de um superior. Cada passo dependia de permissão.Exame / ConJur · 2014
Sua ação trabalhista no Brasil (contra a União, o município, a OPAS e a estatal cubana) foi, porém, desistida em setembro de 2014 — não houve condenação de mérito aqui. O caso migrou para os Estados Unidos.
Ramona e outros três médicos — Tatiana Carballo, Fidel Cruz e Russela Rivero — processaram a OPAS nos EUA sob a lei americana de tráfico de pessoas (Trafficking Victims Protection Act), em nome de cerca de 3.500 profissionais. A OPAS alegou imunidade de organização internacional. Perdeu:
Atenção à precisão: as decisões afastaram a imunidade — ou seja, permitiram o processo seguir. Não houve, até aqui, sentença declarando a OPAS culpada de tráfico. E, no Brasil, a Justiça caminhou noutra direção: em 2023 determinou a recontratação de cubanos demitidos pela ruptura, e o STF validou os critérios (ADI 7771, fev/2026) — sem enfrentar a acusação de trabalho forçado.
Uma dúvida honesta: Cuba consegue mesmo formar médicos suficientes para abastecer meia centena de países e a própria ilha? Fizemos a conta. A resposta incomoda os dois lados do debate.
Cuba tem cerca de 21 faculdades de medicina mais a ELAM (Escola Latino-Americana de Medicina, em Havana, fundada em 1999 — a maior escola médica do mundo). No pico, formava cerca de 10 mil médicos por ano: só em 2013, foram 10.526 formandos numa única cerimônia (5.683 cubanos e 4.843 estrangeiros).
O estoque chegou a 106 mil médicos em 2021 — densidade de ~9 por mil habitantes, a maior do mundo. O curso dura 6 anos, como no Brasil. Ou seja: a matemática fecha. Não é preciso "formação relâmpago" para explicar o volume — Cuba é, de fato, uma potência de formação médica.
O problema não é a quantidade, é o destino. Boa parte dos formandos são estrangeiros da ELAM, treinados para a exportação, não para o SUS cubano. No pico (2007), 42 mil profissionais estavam fora ao mesmo tempo — o que ajuda a explicar a escassez crônica de médicos dentro de Cuba, hoje agravada pelo êxodo (o país perdeu mais de 12 mil médicos entre 2021 e 2022).
E sobra a pergunta que a quantidade não responde: o que exatamente se aprende nesse currículo, e que médico ele entrega? É o tema da próxima seção.
Havana espalha profissionais de saúde por cerca de 50 a 60 países. A concentração, porém, é enorme: um único cliente — a Venezuela — responde pela maior fatia, num arranjo de "petróleo por médicos". O Brasil chegou a ser o segundo maior destino no pico do Mais Médicos.
As missões médicas não são caridade — são o principal negócio de exportação de Cuba. Em 2018, a exportação de serviços profissionais (majoritariamente saúde) rendeu cerca de US$ 7,7 bilhões, mais que o dobro do turismo (~US$ 3 bilhões). O Departamento de Estado estima US$ 6 a 8 bilhões por ano. Desde 1963, foram mais de 600 mil profissionais enviados a 165 países (número do próprio governo cubano).
O Brasil foi um dos maiores clientes dessa máquina. É por isso que a palavra certa não é "cooperação": é exportação de mão de obra — com o Estado, e não o trabalhador, ficando com o dinheiro.
Que Cuba forma médicos em massa, já vimos. A pergunta seguinte é mais espinhosa: que médico é esse? O currículo cubano tem virtudes reais — e um flanco que entidades médicas e uma auditoria oficial brasileira apontaram.
Os dois países formam médicos em 6 anos, mas por caminhos opostos. No Brasil, o currículo segue as Diretrizes Curriculares Nacionais (2014) e tem eixo hospitalar-clínico — a medicina de família é uma disciplina, e uma especialidade opcional, dentro de um curso voltado ao hospital. Em Cuba, a atenção primária é a espinha dorsal desde o primeiro dia.
| Etapa (6 anos) | Brasil | Cuba |
|---|---|---|
| Anos 1–2 Ciclo básico | Anatomia, Histologia, Embriologia, Fisiologia, Bioquímica, Genética, Microbiologia, Imunologia, Farmacologia e Patologia — as ciências básicas, sobretudo em laboratório. | As mesmas ciências básicas somadas à imersão no posto de saúde já no 1º ano; a Medicina Geral Integral (MGI) é a disciplina integradora do 1º ao 6º ano. |
| Anos 3–4 Ciclo clínico | Semiologia, Clínica Médica, Cirurgia, Pediatria, Ginecologia-Obstetrícia, Psiquiatria e Saúde Coletiva — o aprendizado à beira do leito hospitalar. | Clínica com peso central da atenção primária e do consultório do médico de família na comunidade. |
| Anos 5–6 Internato | Estágio prático obrigatório (no mínimo 35% da carga total), com rodízios em Clínica, Cirurgia, GO, Pediatria e Saúde Coletiva; ao menos 30% do internato na Atenção Básica e na Urgência do SUS. | Internato rotativo de ênfase comunitária; o egresso já sai com o perfil de generalista de família. |
| Depois de formado | Diploma + registro no CRM já habilitam a clinicar; a especialidade vem por Residência Médica (2 a 5 anos), disputada em concurso. | Serviço social obrigatório + especialização em MGI quase compulsória; boa parte segue para as missões no exterior. |
Brasil — 448 faculdades de medicina (2024), o 2º maior número do mundo, atrás apenas da Índia; formou 32.611 médicos em 2023 (e, com a expansão em curso, a projeção já passa de 42 mil por ano), para uma população de 213 milhões. O país tem hoje 575.930 médicos em atividade — 2,81 por mil habitantes.
Cuba — cerca de 21 faculdades mais a ELAM, formando ~10 mil médicos por ano (quase metade deles estrangeiros), para 11 milhões de habitantes. Chegou a 106 mil médicos — a maior densidade do mundo, mas com boa parte do corpo clínico destinada à exportação.
Agora a comparação é justa — formados por ano contra formados por ano. O Brasil forma cerca de três vezes mais médicos em número absoluto; mas Cuba, com 1/19 da população brasileira, forma proporcionalmente muito mais — e despacha boa parte deles para fora. É essa engenharia de escala que torna a exportação possível.
O Conselho Federal de Medicina (CFM) foi contra o programa desde 2013. Em comissão na Câmara, o vice-presidente Carlos Vital Corrêa Lima afirmou que ele "expõe a população brasileira a médicos sem formação adequada".
O ponto central da crítica sempre foi a dispensa do Revalida: os cubanos podiam atuar sem passar pela prova que todo brasileiro formado no exterior precisa fazer. Os Conselhos Regionais foram à Justiça para não serem obrigados a registrá-los sem a revalidação do diploma.
Não é boato de internet — é um relatório do Tribunal de Contas da União. Ao monitorar o programa, o TCU registrou que 17,7% dos intercambistas admitiram que a falta de conhecimento de protocolos "conturbou diagnósticos e terapêuticas", e que mais de um terço dos supervisores do Ministério da Saúde relatou que os estrangeiros tinham dificuldade diária por desconhecer nomes de medicamentos e suas dosagens corretas. É a base documental — e não um caso viral — para a preocupação com a segurança do paciente.
A denúncia de má prática não é só brasileira. Com base em mais de 1.400 depoimentos, a ONG Prisoners Defenders relata que 60,84% dos entrevistados foram forçados a inflar estatísticas de atendimento, e mais da metade admitiu inventar pacientes, tratamentos e patologias para bater metas políticas.
Na Venezuela (missão Barrio Adentro), o New York Times (2019) colheu relatos de médicos cubanos pressionados a condicionar atendimento a voto, e a ONG Transparencia Venezuela documentou módulos abandonados e ocultação de dados de epidemias. Ressalva: a reportagem do NYT foi contestada por veículos de esquerda; tratamos como denúncia grave e amplamente divulgada, não como fato pacífico.
O programa cubano no Brasil não terminou por decisão judicial nem por escândalo de corrupção. Terminou numa queda de braço política — e o gatilho foi justamente a exigência de que os médicos provassem o diploma.
Eleito em 28 de outubro de 2018, Jair Bolsonaro condicionou a permanência dos cubanos a três pontos: fazer o Revalida; receber o salário integral (em vez de a maior parte ir para Havana); e ter liberdade para trazer a família.
Ele também disse não haver "comprovação de que sejam médicos". Aqui, precisão: a checagem do Aos Fatos classificou essa frase como falsa — a lei do programa exigia a documentação do diploma. As duas primeiras exigências, porém, batem exatamente no esquema que este dossiê descreveu.
Em 14 de novembro de 2018, o Ministério da Saúde de Cuba anunciou a saída do programa, em nota que chamou as condições de "inaceitáveis" e as falas de Bolsonaro de "depreciativas e ameaçadoras".
A escolha é reveladora: entre submeter seus médicos a uma prova e pagar-lhes o salário cheio, ou abandonar o segundo maior mercado de sua diplomacia médica, o regime preferiu abandonar o mercado.
| Na saída (fim de 2018) | Número |
|---|---|
| Médicos cubanos no programa na ruptura | ~8.300 |
| Deixaram o Brasil (24/11 a 24/12/2018) | ~6.000 |
| Ficaram (laços no Brasil) | ~2.000 |
| Municípios sob risco de ficar sem médico | até ~600 |
| Vagas do edital emergencial (para brasileiros) | 8.517 |
O governo abriu um edital emergencial e afirmou ter preenchido as 8.517 vagas com médicos brasileiros — embora 1.325 tenham depois deixado o posto, e reportagens registrassem cidades ainda com vagas abertas. Os ~2.000 cubanos que ficaram passaram a poder atuar apenas mediante o Revalida — a mesma prova que motivara a ruptura.
Todo arranjo tem um autor. Do lado brasileiro, o rosto do Mais Médicos é Alexandre Padilha — e, em 2025, os Estados Unidos o alcançaram, não com bloqueio de bens, mas com a revogação de vistos.
Médico e político do PT, Padilha era ministro da Saúde de Dilma Rousseff quando o Mais Médicos foi lançado, em 2013, e foi o principal artífice político da parceria com Cuba intermediada pela OPAS — o desenho que este dossiê destrinchou. No governo Lula, voltou ao primeiro escalão e reassumiu a pasta da Saúde, defendendo o programa como uma marca do seu legado.
O Departamento de Estado anunciou a revogação e restrição de vistos de autoridades ligadas ao Mais Médicos. O comunicado citou nominalmente dois brasileiros: Mozart Julio Tabosa Sales (secretário de Atenção Especializada) e Alberto Kleiman (ex-assessor de Relações Internacionais do Ministério da Saúde).
A justificativa oficial: terem favorecido o "esquema coercitivo de exportação de trabalho" cubano, usando a OPAS como intermediária e pagando "conscientemente ao regime cubano o que era devido aos médicos". O secretário de Estado Marco Rubio falou em "trabalho forçado".
O comunicado oficial não cita Padilha nominalmente. Mas reportagens registram que o governo americano revogou vistos de familiares do ministro e que o próprio Padilha ficou impedido de obter novo visto para os EUA.
Ele reagiu chamando as medidas de "ataques injustificáveis" e afirmando que "o Mais Médicos, como o Pix, vai sobreviver". Vale a nota: os EUA agiram por restrição de visto (barrar a entrada no país), e não por bloqueio de bens — são instrumentos diferentes, e foi o primeiro que se aplicou aqui.
Doze anos entre a assinatura do convênio e a última decisão judicial americana — costurando saúde, dinheiro e direitos humanos.
O governo Dilma cria o Mais Médicos e firma, via OPAS, acordo com a estatal cubana Comercializadora de Servicios Médicos Cubanos. Chega a primeira leva em agosto.
A deserção da médica torna público o esquema de retenção salarial e o controle sobre a vida dos cubanos. Ela depõe ao MPT e leva documentos ao Congresso.
Em 3/11, o Tribunal Superior do Trabalho decide, por unanimidade, que a Justiça do Trabalho não pode julgar a ação do MPT — sem enfrentar o mérito da acusação.
Os cubanos chegam a 62,6% de todos os participantes do programa — a fração mais alta de toda a série.
Após Bolsonaro exigir Revalida, salário integral e vinda das famílias, Havana chama as condições de "ameaçadoras" e retira o contingente. Mais de 7 mil (90%+) voltam à ilha.
Relatoras Bhoola (escravidão) e Giammarinaro (tráfico) enviam a comunicação AL CUB 6/2019: as condições "poderiam configurar trabalho forçado". Cuba nega em janeiro de 2020.
No caso Rodriguez v. PAHO, a Justiça americana decide que a OPAS responde como empresa por ter atuado de intermediária financeira. O processo por trabalho forçado segue.
Departamento de Estado restringe vistos de Mozart Sales e Alberto Kleiman e atinge familiares de Padilha. Justificativa: "esquema de trabalho forçado" cubano via OPAS.
Em agosto, o tribunal americano mantém Rodriguez v. PAHO em andamento (nº 24-7135). No Brasil, o STF valida (ADI 7771) a reintegração de cubanos demitidos pela ruptura.
Para não confundir acusação com sentença, o balanço final em três colunas.
Retire o exagero e sobra o essencial: um trabalhador que não escolhe o empregador, não recebe o próprio salário, não guarda o próprio passaporte e não pode voltar para casa sem punição não é um "cooperante" — é, pela definição técnica da OIT, alguém em trabalho forçado. O Mais Médicos importou esse arranjo e o cobriu com o verniz da saúde pública. Os médicos cubanos foram, ao mesmo tempo, benfeitores do interior brasileiro e vítimas do próprio Estado que os enviou. Reconhecer as duas coisas é o começo da honestidade sobre o programa.
Esta página se apoia em documentos oficiais, autos judiciais e reportagens plurais. Se sobrevier sentença de mérito — condenando ou absolvendo a OPAS —, será atualizada.