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Guerra do Paraguai · 1864 – 1869 · As memórias dos sobreviventes

O Marquês de Olinda

Nove brasileiros embarcaram rumo a Cuiabá. O navio nunca chegou. Começava ali a guerra mais sangrenta da América do Sul — e o mais longo e esquecido calvário de prisioneiros da nossa história.

Fotografia do vapor Marquês de Olinda ancorado no porto de Assunção.
O vapor Marquês de Olinda, fotografado em Assunção. Construído na Ponta d'Areia, em Niterói, ele fazia a linha Montevidéu–Corumbá quando foi apresado pela canhoneira paraguaia Tacuari em 12 de novembro de 1864. — Coleção do Museu Histórico Nacional / Wikimedia Commons, domínio público.

Em um conflito, costumam ser lembrados os vivos e os mortos. Os prisioneiros — esquecidos. Esta é a história dos primeiros prisioneiros de guerra do Brasil: nove homens capturados antes mesmo de a guerra ser declarada, arrastados por quase cinco anos pelos pântanos do Paraguai, de cárcere em cárcere, e dos quais apenas dois voltaram para casa — para que o nome dos outros sete não se perdesse.

"Minha pena não dispõe de cores para pintar esses brasileiros, na miséria em que os vi ultimamente. (...) É bem natural que já não existam." — Major Cunha Mattos, oficial brasileiro que partilhou parte do cativeiro, em relatório de 1869 — ao descrever Coelho de Almeida e Pereira Arouca, "debaixo do vergalho, sem comer, sem dormir, sarnentos, magros, como a própria magreza"

Cunha Mattos errou na profecia. Os dois viveram. E porque viveram, sabemos de tudo o que se segue.

Como esta história foi reconstruída

Duas memórias, escritas com quarenta anos de distância

Quase tudo o que se conta aqui vem de dois homens que estiveram lá. O escrivão João Coelho de Almeida, o "mais antigo" dos sobreviventes, redigiu logo em 1869 um relatório oficial à Marinha — seco, preciso, com datas e nomes. Quarenta anos depois, as lembranças do piloto baiano João Clião Pereira Arouca deram origem ao livro que o jovem conterrâneo José Gabriel de Lemos Brito publicou em 1907 — vívido, literário, povoado de detalhes que só quem sofreu poderia inventar. Os dois relatos convergem, divergem e se completam. Foram analisados em conjunto, pela primeira vez, pelo historiador militar Francisco José Corrêa-Martins (revista Navigator, nº 31, 2020), base principal desta reportagem.


1 O navio que levava um presidente a Cuiabá

Retrato do Marquês de Olinda, estadista do Império, em 1860.
O Marquês de Olinda (Pedro de Araújo Lima), estadista do Império. O vapor recebeu o seu título por homenagem.

O Marquês de Olinda não era um navio de guerra. Construído no fim dos anos 1850 no Estabelecimento de Fundição e Estaleiros da Ponta d'Areia, em Niterói, tinha 189 toneladas, casco de pouco calado e propulsão mista — rodas de pás laterais e mastros. Pertencia à Companhia de Navegação do Alto Paraguay e cumpria, oito vezes por ano, a longuíssima rota fluvial que ligava Montevidéu a Corumbá, subindo os rios Paraná e Paraguai por mais de três mil quilômetros. Era um paquete de passageiros e correio.

Aquela seria a oitava e última viagem prevista em contrato. No comando ia o primeiro-tenente reformado da Armada Manoel Luiz da Silva Souto. E, entre os passageiros, seguia gente que mudaria de vida ao chegar ao Mato Grosso — sem imaginar que jamais chegaria.

O mais importante deles era o coronel Frederico Carneiro de Campos, do Corpo de Engenheiros: baiano de Salvador, com mais de quarenta anos de serviço, ex-presidente da Província da Paraíba e deputado pelo Rio de Janeiro, ia tomar posse como presidente e comandante de armas da Província do Mato Grosso. Com ele, mais um oficial do Exército e cinco da Armada, todos nomeados para funções em Cuiabá, além de um funcionário da Alfândega que voltava para casa. Nove brasileiros ao todo — sem saber, os atores forçados de um drama que não escolheram.

O navio partiu de Montevidéu em 3 de novembro de 1864, tocou Buenos Aires e começou a remontar o Paraná. Nos portos argentinos de Rosário, Paraná e Corrientes, repetia-se o mesmo aviso: "– Cuidado com os paraguayos!" Ninguém a bordo levou a sério. Na manhã de 11 de novembro, ancorado na baía de Assunção, o coronel Carneiro de Campos ainda almoçou tranquilamente com o ministro brasileiro enquanto se carregava carvão. Às 13h45, o Marquês de Olinda levantou ferros e retomou a marcha para Corumbá.

2 A cilada no rio — 12 de novembro de 1864

Por volta das 06h30 do dia 12, rio acima, viu-se ao sul uma coluna de fumaça que crescia. Logo se reconheceu o vapor de guerra paraguaio Tacuari. Ele disparou um tiro de pólvora seca, cortou a proa do navio brasileiro e mandou parar. Era na altura de Curuzu Chica, cerca de 200 km ao norte de Assunção. Um escaler trouxe um ofício: regresso imediato à capital paraguaia e, em caso de resistência, o navio seria posto sob fogo.

O comandante Souto reuniu os passageiros. A resistência era impossível — um paquete desarmado diante de uma canhoneira. Decidiram lavrar um protesto formal e enviá-lo. A resposta veio cortante:

"Não temos ordem de receber papeis! O capitão que cumpra as ordens do governo paraguayo!"

O Marquês de Olinda virou de bordo e desceu o rio escoltado pelo Tacuari, cuja amurada estava "repleta de marinheiros e soldados", de onde, lembraria Arouca, "partiram sarcasmos e insultos". Chegaram a Assunção na noite do dia 12. Escaleres armados cercaram o navio, impedindo qualquer contato com a terra. No dia seguinte, sentinelas paraguaias tomaram conta de tudo. A guerra havia começado — e os homens a bordo ainda não sabiam.

3 Por que López deu a ordem

Francisco Solano López, ditador do Paraguai, por volta de 1864.
Francisco Solano López, ditador do Paraguai (c. 1864) — quem ordenou o apresamento e, depois, as matanças.

Meses antes, em 30 de agosto de 1864, o Paraguai advertira o Brasil: qualquer ocupação do território uruguaio seria considerada uma ruptura do equilíbrio do Prata. Quando, em 16 de outubro, tropas imperiais entraram no Uruguai, o ditador Francisco Solano López entendeu que tinha o pretexto que esperava.

Os relatos dos estrangeiros a serviço do Paraguai mostram um López hesitante. O engenheiro inglês George Thompson contou que ele duvidou muito "se devia romper a paz ou não". O farmacêutico George Masterman foi mais longe: como a guerra ainda não fora declarada, tomar o navio "seria, naturalmente, apenas um ato de pirataria". O que decidiu a questão foi a cobiça e a desconfiança: o cônsul norte-americano Washburn registrou que um comerciante uruguaio amigo de López, Juan José Soto, lhe escrevera dizendo que o vapor brasileiro viria acompanhado da fragata Amazonas, carregando armas, carga valiosa e dinheiro — e "aconselhava-o, por todos os meios, a apresar os vapores".

"Se não tivermos uma guerra agora com o Brasil, teremos uma em um momento menos conveniente para nós." — Francisco Solano López, segundo o engenheiro George Thompson (1869)

Na tarde de 11 de novembro, López despachou a ordem de captura. O Tacuari, o navio mais rápido disponível, saiu na caça às 18h30. Dias depois, uma carta do próprio López revelaria a verdade incômoda: o Marquês de Olinda "no tiene armas" — não levava armas nenhuma. Levava, sim, quatrocentos contos de réis em papel-moeda e oito contos em ouro, destinados ao governo de Mato Grosso, prontamente confiscados. O pretexto da guerra foi um carregamento de armas que não existia.

4 Dois pesos, duas guerras

Vale registrar o contraste, porque ele atravessa toda esta história. No Brasil, as ordens de Dom Pedro II sobre o "bom tratamento" aos prisioneiros paraguaios eram publicadas nas ordens do dia e nos jornais; ameaçava-se punir "do modo mais rigoroso" qualquer oficial que injuriasse ou deixasse "de respeitar a infelicidade e a vida dos seus prisioneiros". O tratamento foi tão brando que os próprios prisioneiros paraguaios pediam para ficar. O general paraguaio Resquin reconheceu, por escrito, a "generosa nação" que pagava soldo a todos os cativos, conforme o posto.

Do outro lado, como se verá, os nove brasileiros conheceriam a fome, o grilhão, o couro mastigado e o pelotão de fuzilamento. A mesma guerra, dois mundos morais.

5 A calmaria — Quartel da Ribeira e San Joaquín

Em 13 de dezembro de 1864, declarado o navio "boa presa" por uma comissão cujo veredito já estava decidido de antemão, arriou-se o pavilhão brasileiro e os oficiais foram levados ao Quartel da Ribeira, em Assunção. No último dia do ano, a tripulação comum foi solta — Almeida os viu "embarcar numa escuna ir aguas abaixo", rumo à liberdade. Ficaram apenas os oficiais, agora prisioneiros de guerra.

Em janeiro de 1865, transferiram-nos para a capela de San Joaquín, no interior. Os paraguaios ofereceram-lhes meio soldo; os brasileiros recusaram, porque a constituição imperial os proibia de receber dinheiro de governo estrangeiro. Foram meses quase tranquilos — tão tranquilos que Almeida e Arouca mal os mencionam. Mas há um detalhe que prenuncia o que vinha: o oficial paraguaio que os tratara bem em San Joaquín, anotou Almeida, "mais tarde teve de ser sacrificado por nos tratar bem". Era apenas a calmaria antes da tempestade.

6 A via-crúcis começa — Villeta, Humaitá, Pilar

Gravura do coronel Carneiro de Campos, presidente de Mato Grosso, prisioneiro de López.
O coronel Carneiro de Campos, presidente nomeado do Mato Grosso, retratado como prisioneiro de López. — L'Illustration, nº 1.119 (1866).

No fim de 1865 acabou a paz. Uma escolta veio buscá-los e levou-os para o sul, a Villeta, onde, registra Almeida, foram "então tratados com rigor". Dali embarcaram no vapor Iporá rumo a Humaitá — e ao subirem a bordo tiveram os pés amarrados com um grosso cabo, todos, exceto o velho Carneiro de Campos, a quem deram uma cadeira. Sofreram fome e ficaram "expostos ao tempo".

Foi ali que tombou o primeiro. Em 28 de janeiro de 1866, morreu José Vicente Bueno de Sampaio, o funcionário da Alfândega de Cuiabá — provavelmente o mais jovem do grupo. Arouca descreveu o fim, quarenta anos depois, com a memória ainda crua: um "vomito de sangue coalhara, de súbito, sobre as águas do Paraguay (...) verde como os tremedaes da terra maldicta que pisára". Os paraguaios, temendo contágio, desembarcaram o doente. Ninguém sabe se foi tratado.

Em março de 1866 o Iporá os deixou na Vila do Pilar. Em maio, ouviram ao longe o estrondo da Batalha do Tuyuti; às pressas, uma escolta os arrancou dali, abandonando toda a bagagem, rumo a um lugar perdido no interior que chamavam de Boqueron.

7 Boqueron — a sede e a fome

Permaneceram cerca de dez meses em Boqueron, numa pequena propriedade rural deserta, abrigados num velho telheiro de ovelhas. A comida chegava "de 24 em 24 horas" e foi rareando. A água potável sumiu, e, "nas horas torturantes da sede", beberam "o verde liquido do pântano, colando os lábios ao limo asqueroso das poças do banhado".

O corpo cedeu. E morreu o segundo: o fiel Antônio Joaquim de Paula Reis, "vitimado por febres perniciosas", reduzido — nas palavras de Arouca — a uma "ossaria encarquilhada", os olhos "fundos, sem brilhos", até que, "as mãos crispadas, vidrento o olhar, morreu". Os companheiros o enterraram. Restavam sete.

8 Paso Pucú — a ronda da morte

Ilustração do acampamento de Paso Pucú, quartel-general de Solano López.
Paso Pucú, um dos quartéis-generais de Solano López, junto à linha fortificada de Curupayty. Foi aqui que cinco dos prisioneiros morreram em apenas 61 dias. — Ilustração de José Ignacio Garmendía (1890), Wikimedia Commons, domínio público.

Em março de 1867 os sete foram levados a Paso Pucú, retaguarda da linha de Curupayty. Carneiro de Campos, doente, atrasou-se ao vestir-se; o cabo "desembainhando a espada, fê-lo subir sem lhe dar tempo". Os cavalos magérrimos laceraram as pernas dos prisioneiros, que chegaram com chagas abertas, mal podendo "suster-se nas pernas". Ao verem-nos, soldados zombavam: "Cambahy! Cambahy!"

As celas eram "calabouços" cercados de couro. Os presos eram postos a trabalho forçado e à faxina — inclusive o coronel Carneiro de Campos, obrigado a varrer e a carregar imundície. Os companheiros tentavam "arrancar-lhe das mãos tremulas a vassoura infamante", mas as sentinelas proibiam. E, todo dia, à hora marcada, saíam dos calabouços os condenados do dia:

"Postos em linha, os olhos vendados, nem lhes deixavam articular a prece derradeira; ouvia-se a voz de comando altear-se: – Fogo! Retumbava uma descarga de fuzilaria; os condenados rolavam, estertorando... Os mortos e moribundos eram arremessados no fosso." — Pereira Arouca, em Lemos Brito (1907)

A comida deixou de chegar de vez. "Nenhum alimento lhes chegava ao calabouço; nutriam-se de couro e de hervas bravas" — o couro era o mesmo que forrava as paredes e o chão da prisão. Veio a disenteria. Numa manhã de janeiro de 1868, faminto, Almeida sussurrou a Arouca que havia "uma petisqueira": eram as vísceras de um carneiro morto na véspera, jogadas fora por imprestáveis. Mesmo fétidas, aplacaram a fome por três dias.

As cinco mortes em 61 dias

Entre 3 de novembro de 1867 e 21 de janeiro de 1868, cinco dos sete morreram — "sucumbido todos por inanição resultante da falta de alimentos", escreveu Almeida. Arouca guardou cada um:

"Se algum de vocês escapar, conte aos meus que morri pensando neles..." — Últimas palavras de Agnelo de Faria Pinto Mangabeira, 21 de janeiro de 1868

De nove, restavam dois: o escrivão João Coelho de Almeida e o piloto João Clião Pereira Arouca. E o pior ainda estava por vir.

9 Humaitá, quando os encouraçados passam

Tela Passagem de Humaitá, de Victor Meirelles, mostrando os encouraçados brasileiros forçando a fortaleza à noite.
Passagem de Humaitá, de Victor Meirelles: na madrugada de 19 de fevereiro de 1868, a divisão encouraçada brasileira forçou a célebre fortaleza paraguaia. Uma das bombas arrebentou a porta do cárcere onde estavam os dois sobreviventes. — Wikimedia Commons, domínio público.

Em 16 de fevereiro de 1868, abandonaram Paso Pucú rumo à Fortaleza de Humaitá — de novo deixando para trás a bagagem, que nunca mais reencontrariam. Fracos, levaram dois dias para vencer os dez quilômetros. Já estavam trancados e deitados quando a noite explodiu: ruídos de máquinas a vapor, o estrondo de muitas bombas, e uma delas arrebentou a porta da cela, empurrando-a para dentro. Era a esquadra imperial forçando a passagem de Humaitá, vencendo o maior obstáculo fluvial da guerra. O Brasil passava, em ferro e fogo, a poucos metros dos seus prisioneiros — sem saber que eles ali estavam.

Em Humaitá reencontraram outros cativos brasileiros: o cônsul Amaro José dos Santos Barbosa, "agonizando sobre um couro de boi", e o major Cunha Mattos — o mesmo que, mais tarde, escreveria que vê-los vivos era "um facto miraculoso".

10 A hora mais escura — San Fernando e Lomas Valentinas

De Humaitá, a marcha não parou: Timbó, no Chaco; depois San Fernando, três meses; depois as Lomas Valentinas. Era a fase mais sombria da guerra, quando López, paranoico, mandava executar até os próprios — o irmão Benigno, o ex-ministro José Berges, o coronel Paulino Allén. Os guardas tinham ordem de lancear quem não acompanhasse a marcha. Uma das torturas era amarrar os tornozelos com tiras de couro úmido que, ao secar, retesavam-se e rasgavam a carne — Arouca ainda trazia as marcas quando contou sua história. Almeida resumiu o que viu:

"Vi até fuzilar-se uma pobre velha, incepar crianças e açoitar atrozmente muitas mulheres. (...) A mortandade era considerável. Os fuzilamentos não cessavam: todos os dias, ao amanhecer, retiravam dos calabouços grande numero de cadáveres dos que sucumbiam à fome e ás flagelações." — João Coelho de Almeida, relatório de 1869

E foi ali, em 26 de dezembro de 1868, que ouviram seus próprios nomes na lista dos que seriam fuzilados. Almeida recebeu a notícia "com a maior indiferença", agradecendo a Deus o fim do sofrimento; Arouca, "de uma forma muito humana", acalentava ainda "o desejo ardente de fugir". No instante do desfecho, um soldado paraguaio os surpreendeu:

"Usted tivero suerte; carahy Supremo les perdona." — O soldado que lhes anunciou a comutação da pena de morte, 26 de dezembro de 1868

11 Cerro León, Ascurra e o massacre de Piribebuy

Enquanto os aliados tomavam Assunção, os dois eram arrastados para novos cárceres na Cordillera. Em Cerro León foram metidos numa gruta onde, segundo Arouca, cerca de "500 homens, empilhados e agrilhoados, são enterrados vivos nesse tumulo sinistro e pavoroso" — à noite, "havia blasfêmias, ais, gritos, maldições, gemidos". Comeram milho podre caído da boca dos cavalos da cavalaria brasileira que por ali passara.

Em Ascurra tiveram, por ironia, o melhor período do cativeiro: postos a plantar feijão e milho para o exército inimigo, puderam ao menos comer. Depois veio Piribebuy, onde ficaram cerca de cinco meses — e onde Arouca presenciou "uma das mais terríveis matanças ordenadas por Solano López", até hoje pouco conhecida.

Em 31 de maio de 1869, cerca de 400 prisioneiros caíram lanceados ou fuzilados. Formaram-nos em linha — havia italianos, portugueses, gente de várias nações. Um oficial, com a lista na mão, perguntava a cada um o nome, o país, a data da prisão, e sentenciava: "– Siga!" ou "– Fique!". Na vez de Almeida e Arouca, a resposta foi a mesma: fique. Quando acabou, entenderam que faziam parte de um grupo de menos de vinte sobreviventes.

12 Esta noite, a liberdade

Com os aliados se aproximando, a escolta arrastou os poucos cativos atrás do exército de López em retirada. Em 16 de agosto de 1869, perto de Campo Grande — a batalha de Acosta Ñu, em que López lançou crianças contra o inimigo para cobrir a própria fuga — Almeida e Arouca passaram de longe. E então, na noite de 18 de agosto de 1869, ao reconhecer a presença de forças brasileiras nas imediações de um arroio, o major paraguaio que os guardava tomou enfim a decisão: deu-lhes a liberdade e partiu com seus homens. Exaustos, os três ex-prisioneiros — os dois brasileiros e um tenente argentino, Vicente Constantino — deitaram-se para dormir e seguir de manhã.

Ao amanhecer, caminharam contornando os cursos d'água, fracos demais para nadar. No meio da tarde, dois cavalarianos da Guarda Nacional do Rio Grande do Sul os mandaram parar e perguntaram quem eram. A resposta:

"— Prisioneiros de cinco anos, e vossos patrícios.
— Sede bem vindos aos braços de vossos irmãos! Segui; ao voltardes àquela curva, encontrareis um destacamento que vos dará agasalho." — O reencontro, na tarde de 19 de agosto de 1869

Montados na garupa dos cavalarianos, foram levados a Caraguatay e, no dia seguinte, apresentados ao Conde d'Eu. Em 24 de agosto seguiram para Assunção. Ali, Almeida prestou contas ao conselheiro José Maria da Silva Paranhos sobre o destino de Carneiro de Campos e finalizou, em 26 de agosto, o relatório que preservaria tudo isto. Pouco depois, embarcaram no transporte Marcílio Dias rumo ao Rio de Janeiro, onde chegaram em 15 de setembro de 1869 — quase cinco anos depois de terem partido de Montevidéu.

Uma curiosidade sobre o navio do regresso

Por que já havia um navio "Marcílio Dias" em 1869?

O nome não é anacronismo. Marcílio Dias era o jovem marinheiro que, na própria Batalha do Riachuelo (11 de junho de 1865), lutou corpo a corpo contra os paraguaios que abordaram a corveta Parnaíba — e morreu dos ferimentos no dia seguinte, aos 27 anos. A Marinha imperial honrou depressa os seus heróis de Riachuelo: apenas quatro anos depois, o transporte que trouxe os sobreviventes para casa já levava o seu nome, conforme registrou a imprensa da época (Diário do Rio de Janeiro, 16 de setembro de 1869). Hoje, Marcílio Dias é o primeiro negro inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.

Em 29 de outubro de 1869, mandaram rezar uma missa na Igreja de São Francisco de Paula "pelo repouso eterno" das almas dos sete companheiros que ficaram pelo caminho. Depois, retomaram a vida: ambos voltaram à Armada, constituíram família e foram reformados no posto de capitão de mar e guerra graduado. Pereira Arouca morreu em Salvador em 1924, aos 75 anos; Coelho de Almeida, no Rio de Janeiro em 1917, aos 72.


A chamada dos nove

Estes são os primeiros prisioneiros de guerra do Brasil. Sete não voltaram. Que ao menos seus nomes voltem.

Frederico Carneiro de Campos
Coronel · Corpo de Engenheiros · presidente nomeado do Mato Grosso
† Paso Pucú, 3 nov. 1867
Antônio Antunes da Luz
Capitão primeiro-cirurgião · Exército
† Paso Pucú, 4 dez. 1867 (49 anos)
Manoel Luiz da Silva Souto
Primeiro-tenente · Armada · comandante do navio
† Paso Pucú, 31 dez. 1867 (43 anos)
José Antônio Rodrigues Braga
Sota-piloto · Armada
† Paso Pucú, 4 jan. 1868
Agnelo de Faria Pinto Mangabeira
Primeiro-tenente · Armada
† Paso Pucú, 21 jan. 1868 (47 anos)
Antônio Joaquim de Paula Reis
Fiel de 2ª classe · Armada
† Boqueron, 1866–67
José Vicente Bueno de Sampaio
Oficial de descarga · Alfândega de Cuiabá
† a bordo do Iporá, 28 jan. 1866
João Coelho de Almeida
Escrivão · Armada · mato-grossense
Sobreviveu — autor do relatório de 1869
João Clião Pereira Arouca
Sota-piloto · Armada · baiano
Sobreviveu — fonte do livro de 1907

Por onde andaram — os deslocamentos no mapa

Vale agora ver no mapa o que a narrativa contou. São três quadros: primeiro o vaivém dos prisioneiros pelos catorze cárceres; depois a movimentação das forças brasileiras pelo teatro da guerra — com os estados da região à vista; e, por fim, os dois traçados sobrepostos. Em vinho, sempre os prisioneiros; em azul, sempre o Exército. A base cartográfica é real; alguns acampamentos do cativeiro, sem coordenada exata documentada, aparecem em posição aproximada (marcador tracejado).

1 · O cativeiro dos prisioneiros

O cativeiro dos prisioneiros do Marquês de Olinda
Mapa do cativeiro dos prisioneiros do Marquês de Olinda
1. Assunção (captura · nov 1864) 2. San Joaquín (1865) 3. Villeta (dez 1865) 4. Humaitá (dez 1865 e fev 1868) 5. Vila do Pilar (mar 1866) 6. Boqueron (1866–67) 7. Paso Pucú (1867–68) 8. Timbó (1868) 9. San Fernando (1868) 10. Lomas Valentinas (dez 1868) 11. Cerro León (jan 1869) 12. Ascurra (1869) 13. Piribebuy (mai 1869) 14. Caraguatay — a liberdade (ago 1869)
O vaivém dos prisioneiros — os catorze cárceres na ordem em que os nove foram arrastados, de Assunção ao pantanal do sul e às grutas da Cordillera. Mapa esquemático sobre contornos reais (Natural Earth). Marcadores tracejados = posição aproximada. — LaudelinoRJ.

2 · A movimentação do Exército brasileiro

O Brasil lutou em frentes muito distantes. Ao sul, o grosso do Exército e a Esquadra subiram do Rio Grande do Sul e do Prata, por Corrientes, e foram rio acima até o coração do Paraguai, perseguindo López por cinco anos, de Tuiuti e Humaitá a Assunção e, por fim, a Cerro Corá. Ao norte, na imensa Província do Mato Grosso, uma coluna defendeu o território invadido e protagonizou a trágica Retirada da Laguna. E tudo começara antes, com a intervenção no Uruguai, em 1864. O mapa regional mostra os estados brasileiros da fronteira e por onde as forças se moveram.

Movimentos das forças brasileiras e aliadas
Mapa da movimentação do Exército brasileiro
A. Frente principal — do Sul e do Prata, rio acima até Cerro Corá (1865–70) B. Coluna de Mato Grosso — defesa e Retirada da Laguna (1867) C. Campanha do Uruguai — a intervenção que precedeu a guerra (1864)
O teatro da guerra — os três eixos de movimentação das forças brasileiras, do Mato Grosso ao Prata e até Cerro Corá. Base cartográfica © OpenStreetMap. — LaudelinoRJ.

3 · Os dois deslocamentos, sobrepostos

Agora os dois traçados no mesmo mapa. O contraste salta aos olhos: enquanto o Exército (azul) avançava com um rumo — sempre na direção de López —, os prisioneiros (vinho) eram levados e trazidos pela mesma região sem destino, à mercê das ordens do inimigo. O percurso dos cativos aparece simplificado; o detalhe está no mapa 1.

Forças brasileiras Prisioneiros do Marquês de Olinda
Mapa dos dois deslocamentos sobrepostos
Os dois deslocamentos sobrepostos — o avanço dirigido das forças brasileiras (azul) e o vaivém dos prisioneiros (vinho) pela mesma região. Base cartográfica © OpenStreetMap. — LaudelinoRJ.

Cinco anos lado a lado: a guerra e os nove

Posta lado a lado, a cronologia revela o quanto cada lance da guerra repercutiu sobre os prisioneiros. O estrondo de uma batalha distante decidia se eram movidos; a fuga de López lhes comutava a pena; uma bomba da esquadra imperial arrebentava a porta do seu cárcere. À esquerda, a guerra; à direita, os nove do Marquês de Olinda.

Tela panorâmica da Batalha de Tuyutí, de Cándido López, com milhares de soldados em campo.
Batalha de Tuyutí (24 de maio de 1866), de Cándido López — a maior batalha campal da história da América do Sul. Presos na Vila do Pilar, os brasileiros ouviram o seu estrondo ao longe. Um ano e meio depois, a notícia de uma suposta "vitória" paraguaia na 2ª Tuiuti precipitaria a morte do coronel Carneiro de Campos. — Wikimedia Commons, domínio público.
A guerra Os prisioneiros do Marquês de Olinda
12 de novembro de 1864
O apresamento do Marquês de Olinda é o primeiro ato da guerra contra o Brasil.
12 de novembro de 1864
A canhoneira Tacuari apresa o navio. Começa o cativeiro dos nove.
Dezembro de 1864
O Paraguai invade a Província do Mato Grosso.
13–31 de dezembro de 1864
Declarados prisioneiros de guerra; a tripulação comum é solta.
Janeiro de 1865
Levados à capela de San Joaquín — a calmaria antes da tempestade.
1º de maio de 1865
Brasil, Argentina e Uruguai firmam o Tratado da Tríplice Aliança.
11 de junho de 1865
Batalha Naval do Riachuelo: a Marinha imperial domina os rios — e incendeia o próprio Marquês de Olinda, então a serviço de López.
Fim de 1865
Acaba a calmaria: Villeta e Humaitá, os pés amarrados a bordo do Iporá.
28 de janeiro de 1866
A primeira morte: José Vicente Bueno de Sampaio.
24 de maio de 1866
1ª Batalha de Tuiuti, a maior batalha campal da América do Sul.
Maio de 1866
Na Vila do Pilar, ouvem o estrondo ao longe; são levados para Boqueron.
22 de setembro de 1866
Desastre aliado em Curupayty.
1866–1867
Boqueron: a água do pântano, a fome. A segunda morte: Paula Reis.
Março de 1867
Levados a Paso Pucú, a ronda da morte.
3 de novembro de 1867
2ª Batalha de Tuiuti: ataque paraguaio ao acampamento aliado.
3 de novembro de 1867
Ao saber de uma suposta vitória paraguaia, morre o coronel Carneiro de Campos.
Dezembro de 1867 – janeiro de 1868
Em 61 dias morrem Antunes da Luz, Souto, Braga e Mangabeira. Restam dois.
19 de fevereiro de 1868
A esquadra força a Passagem de Humaitá.
18–19 de fevereiro de 1868
Uma bomba da esquadra arrebenta a porta do cárcere onde estão os dois.
25 de julho de 1868
Queda da Fortaleza de Humaitá.
Dezembro de 1868
A Dezembrada: Avaí (11 dez) e Itá-Ivaté (21–27 dez). Derrotado, López foge.
26 de dezembro de 1868
Em Lomas Valentinas, têm os nomes lidos para o fuzilamento — e a pena é comutada na última hora.
1º de janeiro de 1869
Os aliados tomam Assunção, abandonada pelo inimigo.
Janeiro de 1869
Marcham para a gruta dos quinhentos, em Cerro León.
31 de maio de 1869
Em Piribebuy, presenciam o massacre de cerca de 400 prisioneiros. Sobram menos de vinte.
16 de agosto de 1869
Batalha de Acosta Ñu: López lança crianças contra o inimigo para cobrir a fuga.
18 de agosto de 1869
São libertados. "Sede bem vindos aos braços de vossos irmãos!"
15 de setembro de 1869
Chegam ao Rio de Janeiro no transporte Marcílio Dias.
1º de março de 1870
Cerro Corá: a morte de Solano López encerra a guerra.

Coda: o fim do navio

O vapor Marquês de Olinda em chamas após a Batalha Naval do Riachuelo, 1865.
O Marquês de Olinda em chamas, após a Batalha Naval do Riachuelo. Armado como navio de guerra pelos paraguaios, foi incendiado por uma canhoneira brasileira em 11 de junho de 1865. — Semana Ilustrada, nº 248 (1865), Wikimedia Commons, domínio público.

O navio teve fim parecido com o dos seus passageiros. Apreendido, foi armado com oito canhões e incorporado à esquadra de López. Na Batalha Naval do Riachuelo, em 11 de junho de 1865 — a vitória que selou o domínio brasileiro dos rios —, o Marquês de Olinda foi alvejado, teve a caldeira destruída, encalhou em chamas e afundou. O paquete que carregava um presidente para Cuiabá terminou queimado, virado contra a própria bandeira. Mas a sua história verdadeira não é a do casco: é a dos nove homens que ele levava, e dos dois que voltaram para contá-la.

Fontes e leituras

  1. Francisco José Corrêa-Martins, "O fim, o início e o meio: o apresamento do Marquês de Olinda e o cativeiro dos primeiros prisioneiros de guerra brasileiros a partir das memórias dos sobreviventes"Navigator: subsídios para a história marítima do Brasil, v. 16, nº 31, p. 97-120, 2020. Base principal desta reportagem.
  2. João Coelho de Almeida, Parte Oficial — Ministério da Marinha, Diário do Rio de Janeiro, nº 259, 22 de setembro de 1869 — o relatório do sobrevivente "mais antigo".
  3. José Gabriel de Lemos Brito, Guerra do Paraguay: narrativa histórica dos prisioneiros do Vapor Marquez de Olinda. Salvador: Reis & C., 1907 — escrito a partir das memórias de Pereira Arouca.
  4. Ernesto Augusto da Cunha Mattos, Parte Oficial — Ministério da Guerra, Diário do Rio de Janeiro, nos 119 e 120, 1º e 2 de maio de 1869.
  5. Efraím Cardozo, Hace cien años: cronicas de la Guerra de 1864-1870, vol. I. Asunción: EMASA, 1967.
  6. Charles A. Washburn, The History of Paraguay; George Thompson, The War in Paraguay (1869); George F. Masterman, Seven Eventful Years in Paraguay (1869) — testemunhos de estrangeiros a serviço do Paraguai.
  7. Francisco Doratioto, Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
  8. Wikipédia (PT), Captura do vapor Marquês de Olinda e Marquês de Olinda (vapor) — síntese e imagens.

Nota: trechos entre aspas reproduzem a grafia das fontes do século XIX e início do XX, com a ortografia da época. As datas e identificações seguem a pesquisa de Corrêa-Martins (2020), que corrige imprecisões da bibliografia anterior.

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