Opinião · Economia & Tributação · LaudelinoRJ
O peso do Estado sobre quem produz

O sócio majoritário que não trabalha

A empresa constrói as lojas, emprega milhares, assume o risco — e fica com R$ 86 milhões. O Estado, que não produz nada, embolsa R$ 4,7 bilhões da mesma operação. O retrato de quanto o parasita estatal pesa no pescoço de quem gera riqueza no Brasil.

Opinião Junho de 2026 Carga tributária sobre as empresas
Fachada de uma loja do Assaí Atacadista.
Trabalho de verdade. Uma loja do Assaí Atacadista move estoque, caminhões, milhares de funcionários e margens apertadíssimas — para, no fim, entregar a maior parte ao seu sócio invisível. Foto: BielMaximo, Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

Existe um sócio em todo negócio brasileiro que nunca acordou cedo, nunca arriscou um centavo, nunca atendeu um cliente — e ainda assim fica com a maior fatia do bolo. Esse sócio é o Estado. E o caso do Assaí mostra o tamanho dele.

No fim de junho de 2026, um vídeo do economista e cientista político Diego Muguet (@diegomuguetrj) viralizou com gráficos simples e uma constatação incômoda: o vilão da carestia não é o dono do supermercado — é quem cobra por trás dele. O exemplo veio do balanço recém-divulgado do Assaí, a maior rede de atacarejo do país.

▶ Vídeo no X · @diegomuguetrj

“O verdadeiro sócio majoritário do Brasil é um parasita que não trabalha. Você acha que o dono do supermercado está ficando bilionário às suas custas? Acorde. O Assaí lucrou R$ 86 milhões, mas o governo levou R$ 4,7 bilhões em impostos. O governo lucrou 56 vezes mais que a empresa…”

— Transcrição do vídeo publicado por Diego Muguet em 28/06/2026.

A reação automática de quem defende a alta carga é dizer que “imposto sobre venda não é lucro, é o consumidor que paga”. É verdade — e é exatamente o ponto. Toda essa montanha de tributo está embutida no preço. Quem o gera é a operação da empresa: ela produz, distribui, vende e, em cada etapa, é obrigada a recolher para o Estado uma quantia que faz o seu próprio lucro parecer troco. A empresa faz o trabalho; o Estado fatura em cima.


01A empresa faz tudo. O Estado leva tudo.

Veja o que cada um leva da mesma operação. De um lado, o resultado da empresa que ergueu centenas de lojas, emprega mais de 80 mil pessoas e opera com margem de atacado — fininha, de 1% a 2%. Do outro, a arrecadação que essa operação despejou nos cofres públicos.

R$ 86 mi
Ficou com a empresa
R$ 4,7 bi
Levou o Estado
≈ 55×
A mais para o sócio que não trabalha
O que a empresa ficou × o que o Estado levou
Assaí Atacadista, 1º trimestre de 2026 (R$ bilhões)
Lucro da empresa (quem faz o trabalho)R$ 0,086 bi
Impostos para o Estado (quem não faz nada)R$ 4,70 bi
A barra verde — o prêmio de todo o risco, de todo o emprego gerado, de toda a logística — é aquele tracinho à esquerda. O resto é do sócio que só aparece na hora de receber.

E não se trata de um trimestre ruim. Mesmo num bom resultado, o atacarejo vive de volume, não de margem: gira bilhões em vendas para que sobre pouco no fim. Esse “pouco” é o que sustenta investimento, novas lojas e novos empregos. A fatia do Estado, essa, é cobrada antes — chova ou faça sol, dê lucro ou prejuízo.


0265% do lucro: a mordida sobre quem dá certo

Quando a empresa finalmente apura o que ganhou, vem a segunda mordida. Segundo o estudo Doing Business, do Banco Mundial, uma empresa-padrão no Brasil entrega 65,1% do seu lucro em tributos e contribuições — uma das cargas mais altas do planeta. De cada R$ 100 que sobram do esforço, dois terços vão para o sócio que não trabalhou.

De cada R$ 100 de lucro de uma empresa no Brasil
Carga tributária total sobre o lucro · Banco Mundial (Doing Business)
Vai para o EstadoR$ 65,10
Fica com quem produziuR$ 34,90
Para efeito de comparação, a Colômbia leva 71,9% e a Argentina, mais de 100%. Estar “só” em 65% é o consolo de quem está no fundo do poço olhando para baixo.

031.501 horas: a empresa virou repartição pública

O parasita não cobra apenas dinheiro — cobra tempo. O mesmo Banco Mundial calculou que uma empresa brasileira gasta até 1.501 horas por ano apenas para apurar, declarar e pagar tributos. É a maior do mundo, contra uma média de 206 horas nos 190 países pesquisados. São quase sete vezes a média global gastas em formulário, não em produzir.

Horas por ano que uma empresa gasta só para pagar impostos
Banco Mundial (Doing Business) · Brasil × média mundial
Brasil1.501 h/ano
Média dos 190 países206 h/ano
Cada empresa mantém, de graça, um exército de contadores trabalhando para o Estado. É trabalho que não produz nada — só cumpre o sócio que não trabalha. “Leis complexas, vários tributos sobre o mesmo fato gerador e alta carga”, resume o próprio relatório.
A conta do parasita

Some as três mordidas: o Estado leva a maior fatia da operação (embutida no preço), morde 65% do que sobra de lucro e ainda consome 1.501 horas por ano de trabalho que não gera um único produto. Tudo isso sem assinar um cheque, sem assumir um risco, sem abrir uma loja.


04E não é só o Assaí: o país inteiro sob o jugo

O Assaí é só o retrato nítido de uma regra geral. A carga tributária bruta do Brasil — tudo o que União, estados e municípios arrancam — fechou a prévia de 2025 em 32,4% do PIB, o maior nível desde o início da série, em 2010. Quase um terço de tudo o que o país produz é capturado antes de chegar a quem produziu.

Quanto da riqueza do país é capturado em imposto
Carga tributária bruta como % do PIB (2025)
Brasil32,4%
Média da OCDE (países ricos)34,0%
Média da América Latina≈ 21%
Cobramos como país rico e entregamos serviço público de país pobre. A diferença para a OCDE não está no quanto se tira — está no que volta. E no de onde se tira: lá pesa sobre renda e patrimônio; aqui, sobre o consumo de todos.

A tradução disso na vida de cada um é brutal. Segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), em 2025 o brasileiro trabalhou 149 dias — até 29 de maio — apenas para pagar o Estado. Em meio século, esse cativeiro quase dobrou.

Dias de trabalho por ano só para pagar tributos
Brasil · média histórica · IBPT
76
1970
138
Anos 2000
149
2025
153
Média da década
Quase cinco meses por ano trabalhando de graça para o sócio que não trabalha. E o número só sobe.

E adivinhe onde dói mais. A maior fatia da carga recai sobre o consumo — o imposto invisível embutido no preço de tudo, do arroz ao chinelo. É o mesmo imposto que aparecia, escondido, nos R$ 4,7 bilhões do Assaí. Cobra igual do rico e do pobre, e por isso esmaga proporcionalmente mais quem ganha menos.

De onde o Estado tira: o consumo come a maior fatia
Composição da carga sobre a renda do brasileiro · 2025 · IBPT
Consumo (ICMS, PIS/COFINS, IPI…)22,7% · 83 dias
Renda (IRPF, IRPJ…)15,1% · 55 dias
Patrimônio (IPTU, IPVA, ITBI…)3,0% · 11 dias
Mais da metade do esforço tributário do brasileiro está no consumo — o terreno onde a empresa é obrigada a ser a cobradora não remunerada do Estado.

O parasita

Parasita é o organismo que vive à custa de outro, sem nada oferecer em troca. A palavra é dura, mas a definição encaixa. O Estado brasileiro se instalou como sócio majoritário de cada padaria, cada fábrica, cada supermercado — não porque construiu, arriscou ou inovou, mas porque legislou para ficar com a maior parte. Leva a fatia da operação, leva 65% do lucro, leva 1.501 horas do ano. E, quando o preço sobe, aponta o dedo para o comerciante.

O dono do supermercado não está ficando bilionário às suas custas. Ele fica com o tracinho verde. O bilhão é do sócio que não atende caixa, não carrega estoque e não corre risco nenhum — e que, ainda assim, é o primeiro a receber. Enquanto isso não mudar, todo debate sobre “ganância das empresas” é cortina de fumaça para o verdadeiro dono da conta.

Fontes

  1. Diego Muguet (@diegomuguetrj), vídeo publicado no X em 28/06/2026 — origem do caso analisado nesta reportagem.
  2. InfoMoney — “Assaí (ASAI3) lucra R$ 86 milhões no 1º trimestre de 2026, queda anual de 47%”; balanço 1T26 do Assaí Atacadista (relações com investidores), com receita líquida de ~R$ 18,6 bilhões.
  3. Banco Mundial — Doing Business: carga tributária total de 65,1% do lucro e 1.501 horas/ano para cumprir obrigações fiscais no Brasil (média mundial: 206 horas), a maior do mundo.
  4. Agência Brasil / Exame / IstoÉ Dinheiro — “Prévia da carga tributária sobe para 32,4% do PIB em 2025, maior valor da série histórica”.
  5. IBPT — “Brasileiro trabalhará até 29 de maio só para pagar impostos” (149 dias; composição consumo/renda/patrimônio; série histórica desde 1970).
  6. OCDE / Senado Federal — comparativos internacionais de carga tributária e composição por base de incidência.

Nota: este é um artigo de opinião. Os valores de lucro e de impostos recolhidos têm naturezas contábeis distintas — o tributo sobre o consumo é embutido no preço e pago pelo consumidor final, com a empresa atuando como recolhedora. O argumento do texto é justamente que essa engrenagem, somada à mordida sobre o lucro e ao custo de conformidade, faz do Estado o maior beneficiário da atividade produtiva sem nela produzir.

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