Via Ápia · Cápua → Roma · 200 quilômetros · 71 a.C.
Eram seis mil cruzes.
Duzentos quilômetros de estrada.
Um homem pregado a cada trinta metros — da capital até o local da última batalha, ao longo da Via Ápia, a mais famosa estrada do mundo romano.
A crucificação romana não era rápida. Esse era o ponto.
O crucificado morria de asfixia progressiva, incapaz de sustentar o próprio peso sem renovar a dor dos pregos. Morria de sede. De sol. De infecção. O processo durava horas. Às vezes um dia inteiro. Às vezes dois.
Enquanto resistia, o crucificado podia ver o homem na cruz ao lado. E o da frente. E o da direita. E até onde os olhos alcançavam: uma fila que não terminava em lugar nenhum.
Crasso mandou crucificá-los. E não mandou retirá-los depois da morte.
Os corpos ficaram nas cruzes. Decompostos pelo calor do verão italiano. Consumidos por aves. Visíveis para qualquer viajante que precisasse percorrer a Via Ápia — durante meses.
Todo cidadão romano que viajasse entre Cápua e Roma naquele ano fez sua jornada ladeado por seis mil cadáveres em diferentes estágios de decomposição.
Appiano de Alexandria registrou o número. Seis mil. Como dado de fato — não de rumor.
Pompeu chegou depois. Encontrou grupos de rebeldes ainda fugitivos pelo campo. Mandou crucificar o que encontrou. Depois escreveu ao Senado reivindicando parte do crédito pela vitória.
A Via Ápia ficou ainda mais cheia.
Roma não registrou os nomes. Eram escravos. Escravos não tinham sobrenome na lei romana. Morreram sem nome, expostos, consumidos lentamente. Como mensagem.
Era Roma declarando, para qualquer pessoa que viajasse pela estrada mais famosa da Itália, que havia um preço para a liberdade — e que esse preço seria cobrado publicamente, com requinte de crueldade, por tempo suficiente para que ninguém, em lugar algum da República, fingisse que não tinha visto.