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Economia  ·  reforma tributária e agronegócio

Imposto sobre bactérias?

Uma bactéria no solo faz a soja brasileira dispensar o adubo químico, economiza quase US$ 29 bilhões por safra e evita a emissão de 280 milhões de toneladas de gás. Hoje ela quase não paga imposto. Com a reforma tributária, vai passar a pagar cerca de 10,8%.

Debaixo de quase toda lavoura de soja do Brasil existe um trabalhador que não cobra salário, não tira férias e não aparece em foto. É uma bactéria. Ela mora em pequenas bolinhas grudadas na raiz da planta, puxa o nitrogênio direto do ar e entrega para a soja o alimento que, em outros países, o produtor é obrigado a comprar em adubo. Esse serviço invisível poupa ao agricultor brasileiro quase US$ 29 bilhões por safra. Agora, a reforma tributária resolveu cobrar imposto dele.

Raiz de uma leguminosa com nódulos arredondados claros, onde vivem as bactérias que fixam nitrogênio
O trabalhador invisível. Os nódulos (as bolinhas claras) na raiz de uma leguminosa, a mesma família da soja. Dentro de cada um vive a bactéria que captura o nitrogênio do ar. Foto: Foxy Tigre, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.

A história parece pequena, mas não é. Ela junta duas coisas que o governo gosta de repetir em discurso: inovação nacional e sustentabilidade. E mostra o governo fazendo o contrário do que diz, porque o texto da reforma vai encarecer justamente a tecnologia que mais reduz poluição no campo. Quem levantou o assunto foi o ex-ministro da Agricultura Antônio Cabrera, num post que viralizou no X, em 24 de outubro de 2026.

Fui atrás dos dados da Embrapa e do texto da Lei Complementar 214, de 2025, que regulamenta a reforma. A conclusão curta: o essencial está correto. A conta tem um detalhe que precisa de contexto, e é isso que este texto vai destrinchar, em linguagem simples, sem juridiquês.

Parte I · A tecnologiaO truque da soja brasileira

Toda planta precisa de nitrogênio para crescer. É o principal nutriente das folhas e dos grãos. O curioso é que nitrogênio é o que mais sobra no planeta: quase 80% do ar que respiramos é gás nitrogênio. O problema é que a planta não consegue usar o nitrogênio do ar diretamente. Ela precisa de alguém que traduza aquele gás numa forma que a raiz absorva.

Frasco de vidro cheio de pequenas bolinhas brancas de ureia, o adubo nitrogenado
O caminho caro. Ureia em bolinhas, o adubo nitrogenado que a bactéria dispensa. Boa parte é importada — o Irã é um dos maiores fornecedores de ureia ao Brasil. Foto: LHcheM, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

Em quase todo o mundo, esse tradutor é a fábrica. A indústria pega o gás natural, gasta muita energia e produz o adubo nitrogenado, aquele saco de ureia que o agricultor espalha na terra. É caro, depende de petróleo e gás, e boa parte é importada. Pior: fabricar e aplicar esse adubo polui.

Colônias claras da bactéria Bradyrhizobium crescendo numa placa de laboratório
A estrela do processo. A bactéria Bradyrhizobium, cultivada em laboratório. É ela que o produtor compra no inoculante e mistura à semente. Foto: Ninjatacoshell, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

O Brasil achou outro tradutor, de graça. Pesquisadores da Embrapa selecionaram bactérias do gênero Bradyrhizobium que se grudam na raiz da soja e fazem exatamente o que a fábrica faz: capturam o nitrogênio do ar e o entregam para a planta. A isso se dá o nome de fixação biológica de nitrogênio (FBN). Em troca, a soja alimenta a bactéria com açúcar. É um acordo entre a planta e o micróbio, e o agricultor só precisa garantir que a bactéria certa esteja ali.

Na prática, o produtor compra um produto barato chamado inoculante: um saquinho cheio dessas bactérias. Ele mistura na semente antes de plantar. A bactéria entra na raiz, forma os nódulos, e a partir daí trabalha a safra inteira sem custo. O inoculante é um exemplo do que a lei chama de bioinsumo: insumo agrícola feito de organismos vivos, no lugar de química pesada.

De onde a soja tira o alimento

Dois caminhos para levar nitrogênio à planta. Um passa pela fábrica, pelo petróleo e pela importação. O outro passa por uma bactéria que trabalha de graça.

O AR É 78% NITROGÊNIO (N₂) — MAS A PLANTA NÃO CONSEGUE USAR DIRETO Alguém precisa traduzir o gás numa forma que a raiz absorva CAMINHO 1 · ADUBO QUÍMICO 🏭 Gás natural + muita energia vira ureia na fábrica Caro · importado · polui 💰 ➜ 🌱 CAMINHO 2 · A BACTÉRIA (FBN) 🦠 A bactéria no nódulo da raiz puxa o N₂ do ar para a planta Barato · nacional · limpo 🫘 ➜ 🌱 vs

O resultado é que o Brasil virou uma raridade mundial. Somos o maior exportador de soja do planeta e, ao mesmo tempo, o único grande produtor que praticamente não usa adubo nitrogenado nessa cultura. Hoje, cerca de 85% da área de soja do país planta com a bactéria. O resto do mundo olha isso com inveja.

Parte IQuanto vale esse favor da natureza

Toda vez que a bactéria faz o trabalho, o produtor deixa de comprar adubo. Somando a lavoura inteira do país, a Embrapa calcula que essa economia chegou a algo em torno de US$ 28 a 29 bilhões na última safra. Para comparar, é dinheiro que, sem a tecnologia, iria embora em compra de fertilizante, boa parte importado.

O segundo número é ambiental. Como a lavoura troca a fábrica pela bactéria, deixa de soltar gás de efeito estufa na produção e no uso do adubo. A conta da Embrapa dá quase 280 milhões de toneladas de CO₂ equivalente evitadas. É muita coisa: equivale ao que milhões de carros soltariam rodando o ano inteiro. Se existe no agro brasileiro uma tecnologia que merece o rótulo de verde, é essa.

Fileiras de soja verde e uma mão segurando um punhado de solo escuro e saudável
A escala do assunto. Lavoura de soja e um punhado de solo saudável. Em cerca de 85% da área plantada no Brasil, o nitrogênio vem da bactéria, não do saco de adubo. Foto: USDA NRCS South Dakota, domínio público, via Wikimedia Commons.

Parte II · A contaO que a reforma vai fazer

Até agora, os bioinsumos como o inoculante vivem num regime camarada: a maior parte deles tem alíquota zero de PIS e Cofins, os dois impostos federais que incidiam sobre produtos. Na prática, o produtor quase não paga tributo ao comprar a bactéria. Faz sentido, porque o país tem interesse em que todo mundo use a tecnologia.

A reforma troca o sistema antigo por dois impostos novos: a CBS, federal, e o IBS, de estados e municípios. Juntos, eles devem somar uma alíquota padrão em torno de 27% para a maioria das coisas que se compra no Brasil. Insumos do agro não pagam essa alíquota cheia. A Lei Complementar 214, de 2025, lista num anexo os insumos que têm desconto, e os bioinsumos estão lá: inoculantes, biofertilizantes, bioestimulantes. O desconto é de 60%.

Desconto de 60% parece bom, até você fazer a conta. Sessenta por cento a menos sobre 27% deixa uma alíquota de cerca de 10,8%. Ou seja: o produto que hoje paga quase zero vai passar a pagar perto de 10,8%. O desconto não é sobre o que se pagava antes. É sobre a alíquota cheia nova. Por isso, na prática, é aumento.

A conta do inoculante, antes e depois

Alíquota cheia da reforma (referência)~27%
Desconto do anexo de insumos (−60%)−16,2 p.p.
Imposto que o bioinsumo pagava antes (PIS/Cofins)~0%
Imposto que vai pagar com a reforma~10,8%

O salto do imposto sobre a bactéria

O bioinsumo sai de quase isento para cerca de 10,8%. O desconto de 60% na alíquota não evita que, para quem compra, seja um encarecimento.

HOJE PIS/Cofins ~0% ~0% COM A REFORMA IBS + CBS com desconto de 60% 10,8% ➜

Parte IIA incoerência do cobrador

O ponto do ex-ministro Cabrera é esse, e ele está certo no essencial. De um lado, o governo fala em transição verde, metas de clima, agricultura de baixo carbono. De outro, o mesmo governo desenha uma reforma que encarece o insumo que mais corta carbono no campo. A tecnologia que dispensa adubo importado, economiza bilhões e evita 280 milhões de toneladas de gás vai custar mais caro para o agricultor usar.

É a lógica do Estado que cobra primeiro e pensa depois. A reforma tributária nasceu com uma promessa boa, a de simplificar um sistema que é dos mais confusos do mundo. Mas, na hora de montar as exceções, quem decide o tamanho do desconto é a conta de arrecadação, não o mérito ambiental ou econômico do produto. O bioinsumo entrou na fila dos insumos agrícolas e levou o desconto padrão de 60%, igual a produtos que não têm nada do seu benefício. Ninguém sentou para perguntar se a tecnologia que o mundo inteiro inveja não merecia tratamento melhor.

Parte III · A consequênciaA conta chega no prato

Imposto sobre insumo não fica no insumo. Ele sobe pela cadeia. O produtor paga mais caro na bactéria, soma isso ao custo de produzir, e esse custo aparece lá na frente, no preço do grão, do farelo, do óleo, da carne do frango que comeu a ração e, no fim, da comida no supermercado. É assim com qualquer tributo que entra no começo da linha.

Como o imposto sobe pela cadeia até o seu prato

O tributo entra no primeiro elo — a bactéria — e é empurrado para frente em cada etapa. Quem paga a conta somada, no fim da linha, é o consumidor.

O IMPOSTO (IBS + CBS ~10,8%) ENTRA E SE SOMA EM CADA ETAPA ↓ +++ +++ 🦠 Inoculante 🚜 Produtor 🫘 Grão de soja 🛢️ Farelo e óleo 🐔 Ração e frango 🛒 Supermercado ➜➜➜ ➜➜ Preço no começo da linha ...e mais caro no seu prato

O agro brasileiro é competitivo em grande parte porque descobriu formas baratas de produzir, e a bactéria é uma das maiores delas. Encarecer o inoculante é matar um pouco dessa vantagem. Não quebra ninguém de um dia para o outro, mas vai na direção errada: aumenta o custo de quem produz comida num momento em que o discurso oficial é de combate à inflação dos alimentos.

Por que o governo faz isso?

Porque ele precisa arrecadar a qualquer custo. Não há controle de gastos, então a arrecadação tem de ser a mais alta possível, sem freio. Calcula-se, item por item e setor por setor, quase o valor máximo que dá para cobrar de cada um. Não há critério, não há pesquisa, não há estudo de impacto. Arranca-se o máximo da sociedade e, só depois, administra-se o estrago com lobby e medidas atabalhoadas de contenção de danos.

Parte IIIO que seria justo

A defesa do agro, aqui, é simples e tem lógica. Se a reforma zera o imposto de itens da cesta básica para baratear a comida, e se concede regimes especiais a vários setores, por que não dar alíquota zero ao bioinsumo, que barateia a comida na origem e ainda corta poluição? Em vez do desconto de 60%, um desconto de 100%. Seria coerente com o discurso ambiental e com o objetivo de segurar o preço dos alimentos.

Há mais de uma forma de fazer isso. Uma é colocar os bioinsumos na lista de alíquota zero, ao lado dos insumos tratados como essenciais. Outra é dar crédito tributário a quem usa a tecnologia, como a própria lei já prevê, de forma tímida, para a produção nacional de fertilizantes e bioinsumos entre 2027 e 2031. Ou, no limite, derrubar de vez essa reforma tributária, que fez o inverso de todas as promessas e não trouxe nenhum ganho para a sociedade.

Nota sobre fontes

A tecnologia e os números: a fixação biológica de nitrogênio na soja, a economia por safra (ordem de US$ 28 a 29 bilhões), as 280 milhões de toneladas de CO₂ equivalente evitadas e a adoção em cerca de 85% da área são dados da Embrapa, divulgados em levantamentos sobre a FBN e reproduzidos pela imprensa agropecuária. O valor em dólar varia com câmbio e preço do fertilizante.

A tributação: a redução de 60% das alíquotas de IBS e CBS para inoculantes, biofertilizantes e demais bioinsumos está no anexo de insumos agropecuários e aquícolas da Lei Complementar nº 214, de 2025. A alíquota de cerca de 10,8% resulta de aplicar o desconto de 60% sobre a alíquota de referência estimada (em torno de 27%); o número exato dependerá da alíquota final definida. O regime atual de PIS/Cofins para esses produtos é, na maior parte, de alíquota zero.

O ponto de partida: o assunto foi levantado pelo ex-ministro da Agricultura Antônio Cabrera (@cabreraagro), em post de 24 de outubro de 2026. Este artigo conferiu e aprofundou as afirmações, não as repete sem verificação.

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