Uma malha de distritos eleitorais, cada um elegendo um único representante — o voto distrital puro.

Sistemas Eleitorais · Reforma Política

Voto distrital misto — e por que o puro é superior

O ministro Alexandre de Moraes disse que "o modelo eleitoral faliu" e defendeu a adoção do voto distrital misto, acompanhado de lista fechada. Ele acertou no diagnóstico e errou no remédio. Este texto explica o que é o distrital misto, de onde ele veio, quem o usa no mundo — e por que a correção honesta do problema brasileiro é o distrital puro, não um sistema que devolve o poder às cúpulas dos partidos.

Em 24 de agosto de 2026, ao ser homenageado pelo Tribunal de Contas do Município de São Paulo, o ministro Alexandre de Moraes fez um diagnóstico que boa parte do país assina embaixo — e emendou uma receita que merece discussão cuidadosa. Disse ele:

Esse modelo eleitoral faliu, porque produz candidatos e eleitos que não têm vinculação nenhuma a partidos [...] e se preocupam mais em fazer transmissões ao vivo do que debater e votar projetos. Alexandre de Moraes, ministro do STF, em homenagem no TCM-SP (24/08/2026)

Na sequência, o ministro defendeu uma transição gradual do sistema proporcional para o distrital misto — começando com 30% das cadeiras eleitas em distritos, depois 40%, 60%, e assim por diante — e sugeriu avaliar também a adoção da lista fechada, em que o eleitor vota no partido e é o partido que define a ordem dos candidatos. Tudo isso, argumentou, porque "a Constituição foi estruturada em torno de uma democracia de partidos".

O diagnóstico está correto: o sistema proporcional brasileiro de fato quebrou o elo entre o eleitor e quem ele elege. Mas a solução proposta — misto com lista fechada — resolve pela metade e, na outra metade, agrava. Para entender por quê, é preciso destrinchar três coisas que costumam ser confundidas: o que é o distrital misto, o que é o distrital puro, e o que é o "distritão". Vamos por partes.

1 Por que o modelo brasileiro "faliu"

O Brasil elege deputados federais, estaduais e vereadores pelo sistema proporcional de lista aberta. Funciona assim: os votos de todos os candidatos de um partido (ou coligação) são somados; esse total define quantas cadeiras a legenda conquista; e essas cadeiras são então distribuídas aos candidatos mais votados dentro da lista. O eleitor escolhe o nome — por isso "lista aberta" —, mas a cadeira pertence, antes, ao partido.

Hemiciclo das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados, coloridas por bancada estadual, do maior estado ao menor.

As 513 cadeiras da Câmara, distribuídas entre as 27 bancadas estaduais. No sistema proporcional, cada uma dessas fatias é preenchida pela soma dos votos do partido naquele estado — e não por distritos com um representante identificável.

O efeito colateral é o famoso "puxador de votos". Como os votos são somados, um único candidato campeoníssimo arrasta consigo companheiros de legenda que tiveram votação minúscula. Os dois casos clássicos:

Enéas Carneiro, deputado federal pelo PRONA-SP.
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votos de Enéas Carneiro (PRONA-SP, 2002) — o mais votado do país, elegeu vários colegas de legenda praticamente desconhecidos
Foto: Alesp · CC BY 4.0
Tiririca (Francisco Everardo Oliveira Silva) em 2010, ano de sua eleição.
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votos de Tiririca (PR-SP, 2010) — recordista da eleição, também "puxou" a bancada
Foto: José Cruz/Agência Brasil · 2010 · CC BY 3.0 BR

O reverso da moeda é ainda mais revelador. Numa análise das eleições de 2018 para deputado federal, apenas 27 dos 513 eleitos — 5,26% — tinham votos próprios suficientes para se eleger por si mesmos, sem depender do bolo do partido. Ou seja: quase 95% da Câmara chegou lá de carona no quociente eleitoral. O eleitor, no dia seguinte, muitas vezes nem sabe quem elegeu — e o eleito, por sua vez, não deve satisfação a nenhum território específico. Ninguém é o "deputado do seu bairro". Este é, de fato, o modelo que produz representantes sem vínculo — e Moraes está certo ao apontá-lo.

Plenário da Câmara dos Deputados lotado durante uma votação, com a mesa diretora ao fundo.
O plenário da Câmara dos Deputados. Pela regra proporcional de lista aberta, a maioria dos 513 deputados chega eleita pela soma dos votos do partido — e não por um território que possa cobrá-los. Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados — CC BY 3.0.

É como um vestibular em que a nota de corte fosse a média do cursinho inteiro: bastaria um aluno gênio tirar 1000 para aprovar vários colegas que mal apareceram na prova. Foi aprovado quem estudou? Não necessariamente — foi aprovado quem estava no grupo certo.

2 O que é o voto distrital misto

O voto distrital misto — na sigla técnica em inglês, MMP, de Mixed-Member Proportional, ou, no nome alemão, voto proporcional personalizado — tenta juntar o melhor de dois mundos. O território é dividido em distritos, e o parlamento é preenchido de duas maneiras ao mesmo tempo. O eleitor recebe dois votos:

O detalhe que muita gente não percebe é este: o segundo voto manda no resultado final. Depois de eleitos os vencedores dos distritos, o partido recebe cadeiras da lista até que o total corresponda à fatia que obteve no voto de legenda. Por isso os cientistas políticos classificam o MMP como um sistema essencialmente proporcional — com um tempero majoritário por cima. Não é meio-a-meio de verdade: é proporcional que personaliza parte das cadeiras.

A cédula do distrital misto: dois votos 1º voto — no CANDIDATO Vence o mais votado do distrito. Elege ~metade das cadeiras. ➜ é o lado "distrital" (majoritário) 2º voto — no PARTIDO (lista) Define a PROPORÇÃO total de cada partido. Preenche a outra metade pela lista fechada. ➜ é o lado proporcional (manda no total) O 2º voto governa o tamanho da bancada. A "metade da lista" continua nas mãos do partido.

No misto, o voto de legenda decide quantas cadeiras cada partido leva — e a cúpula decide, pela lista fechada, quem as ocupa.

3 De onde veio: a Alemanha de 1949

O distrital misto nasceu na Alemanha Ocidental, em 1949, na primeira eleição do Bundestag após a guerra. A escolha foi um compromisso histórico. Os alemães vinham do trauma da República de Weimar (1919–1933), cujo sistema proporcional puro havia estilhaçado o parlamento em dezenas de partidos minúsculos e ajudado a pavimentar a ascensão nazista. Ao reconstruir suas instituições, os aliados ocidentais — sobretudo os britânicos — pressionavam pelo modelo distrital puro que conheciam; os partidos alemães preferiam manter a tradição proporcional. O resultado foi soldar os dois: metade em distritos, metade em listas, com o total corrigido pela proporção.

Na estreia, em 1949, o eleitor ainda dava um voto único que servia às duas contas ao mesmo tempo. O sistema de dois votos separados — como se conhece hoje — só foi consolidado nas reformas de 1953 e 1956. Para conter a fragmentação de Weimar, a Alemanha adotou também a célebre cláusula de barreira de 5%: partido que não alcança 5% do voto de legenda (ou não vence ao menos três distritos) simplesmente não entra. É o antídoto contra o "parlamento em cacos".

O misto alemão foi desenhado para um problema oposto ao brasileiro. A Alemanha tinha partidos fortes demais e numerosos demais e quis dar rosto e território à representação. O Brasil tem o problema inverso — partidos vistos como legendas de aluguel e deputados sem território. Importar a metade "lista fechada" do modelo alemão é tratar uma doença com o remédio da doença contrária.

4 Quem usa o distrital misto no mundo

O modelo alemão foi exportado, mas é preciso separar duas famílias que costumam ser postas no mesmo balaio. Há o misto proporcional (MMP), em que o voto de legenda corrige o total — o modelo alemão de verdade — e há o misto paralelo (ou segmentado), em que os dois lados correm separados e não há correção proporcional. São coisas distintas:

Eleitores alemães numa seção eleitoral em Bonn; um deles marca a cédula dentro da cabine de votação.
Alemães votam numa seção eleitoral (Wahllokal) em Bonn. É o distrital misto em ação: cada eleitor deposita dois votos — um no candidato do seu distrito, outro no partido, que define a proporção final das cadeiras. Foto: Bundesarchiv, B 145 Bild-F074392-0010 — CC BY-SA 3.0.

É uma lista respeitável, mas pequena — e reveladora: quase todos os grandes casos de MMP são países que vinham de tradição proporcional e quiseram injetar territorialidade. Nenhuma grande democracia que já usava o distrital puro migrou para o misto por considerá-lo superior. O caminho, quando houve, foi o contrário.

5 O que é o distrital puro (e o que não é)

No voto distrital puro, a lógica é de uma simplicidade brutal: o país é dividido em tantos distritos quantas forem as cadeiras, e cada distrito elege um único representante — o mais votado. Ponto. Não há soma de votos de partido, não há quociente eleitoral, não há lista. Uma vaga, uma disputa, um vencedor. É o sistema conhecido pela expressão inglesa First Past the Post (FPTP) — "o primeiro a cruzar a linha de chegada".

É o berço, aliás, de toda a família: nasceu no Reino Unido e é lá que ganhou o apelido da corrida de cavalos. Usam o distrital puro (ou variação próxima):

⚠️ Distrital puro ≠ "distritão"

Cuidado com a confusão mais comum do debate brasileiro. O "distritão" transforma cada estado inteiro num único distrito gigante e elege os mais votados daquele estado, sem quociente e sem lista. Ele mantém a campanha estadual carésima e o culto à celebridade — só troca a regra de contagem. Não é o distrital puro. No distrital puro o estado é fatiado em muitos distritos pequenos, cada um com uma vaga. São coisas diferentes, e o distritão herda quase todos os vícios que o distrital puro corrige.

6 Por que o distrital puro é superior

Aqui está a tese central deste texto. Se o problema que Moraes diagnostica é o divórcio entre eleitor e eleito, o distrital puro é a resposta mais direta, mais barata e mais honesta a esse problema — mais do que o misto. Eis por quê:

🎯

Responsabilidade com nome e endereço. Cada eleitor sabe exatamente quem é o seu deputado — há um por distrito. Se ele trabalha mal, o eleitor sabe em quem votar para tirá-lo: no adversário. Votar num candidato é também votar contra outro. Isso é accountability de verdade, algo que a lista aberta dilui e a lista fechada apaga.

📍

Proximidade real. Distrito pequeno obriga o candidato a conhecer — e normalmente a morar — no território que disputa. O "deputado do bairro" deixa de ser figura de linguagem e vira endereço.

✂️

Fim do puxador de votos. Sem soma de legenda e sem quociente, nenhum Enéas ou Tiririca "arrasta" desconhecidos para dentro do parlamento. Cada cadeira é ganha, uma a uma, no voto direto. Acaba a carona.

💰

Campanha mais barata. Disputar um distrito custa uma fração de disputar um estado inteiro. Reduz-se a dependência de grandes financiadores e do fundo partidário — e, com ela, uma das raízes da corrupção eleitoral.

🗳️

O voto é numa pessoa, não numa sigla. O mandato pertence a quem o eleitor escolheu, e não a um lugar numa lista definida a portas fechadas pela direção do partido.

7 O poder de demitir: o recall

Há um instrumento democrático que só faz sentido — e só funciona — quando cada cadeira tem dono e endereço: a revogação de mandato, o recall. É o direito de os eleitores demitirem o próprio representante antes do fim do mandato, sem esperar a eleição seguinte, quando ele comete falta grave.

O melhor exemplo vivo é britânico. O Recall of MPs Act, de 2015, criou um gatilho: se um deputado é condenado à prisão, suspenso da Casa por má conduta ou condenado por fraudar despesas, abre-se uma petição de revogação no seu distrito. Se 10% dos eleitores daquele distrito assinam em seis semanas, a cadeira é esvaziada e convoca-se uma eleição suplementar. Não é teoria — já foi usado, e funcionou:

Repare por que tudo isso depende do distrito: a petição corre entre "os eleitores daquele deputado". Sem distrito, não há a quem recorrer. Por isso, no sistema proporcional de lista, a revogação individual é praticamente impossível — a cadeira pertence ao partido, não a um território. (No Brasil, aliás, não existe revogação popular de mandato: quem cassa um deputado é a própria Casa, os colegas — nunca o eleitor.)

No misto, metade do parlamento fica fora do alcance do eleitor

Aqui está o efeito que quase nunca se menciona. No distrital misto, só os deputados eleitos nos distritos poderiam ser revogados — são os únicos com território. Os eleitos pela lista não têm distrito algum; não existe um corpo de eleitores "deles" para assinar a petição. Metade da Casa fica blindada contra a demissão popular. E se essa metade for de lista fechada, como se propõe, são justamente os nomes escolhidos pela cúpula os que o eleitor não consegue tirar. No distrital puro, ao contrário, todos têm distrito — logo, todos podem ser demitidos pelo voto.

Dois hemiciclos: no distrital puro todas as cadeiras podem sofrer recall; no misto com lista, metade fica blindada.

Cada bolinha é uma cadeira. No distrital puro, todas podem ser revogadas pelo eleitor; no misto com lista, metade — a da lista fechada — fica fora do alcance da petição popular.

8 A armadilha do misto: a lista fechada pela porta dos fundos

Agora o ponto delicado. O que Moraes propõe não é só o distrital misto — é o distrital misto somado à lista fechada, e justificado pela ideia de fortalecer a "democracia de partidos". É aí que a proposta se afasta do problema que ela diz querer resolver.

Repare no que o misto faz com a metade das cadeiras que não vêm dos distritos: elas são preenchidas pela lista partidária. Se essa lista for fechada — como o ministro sugere —, quem decide a ordem dos nomes, e portanto quem entra, é a cúpula do partido, não o eleitor. Metade do parlamento volta a ser, na prática, uma indicação de gabinete. O vício que o distrital corrige de um lado, o misto reintroduz do outro.

🐴 O cavalo de Troia

A palavra "distrital" soa bem — remete a proximidade, a território, a controle do eleitor. O risco político é que ela funcione como embalagem para o que realmente concentra poder: a lista fechada. O eleitor compra o "distrital" e leva junto, no mesmo pacote, o instrumento que mais reforça os caciques partidários e que menos presta contas a ele. É a "democracia de partidos" — mas lida do ponto de vista de quem já comanda os partidos.

Há ainda três defeitos técnicos que pesam contra o misto quando comparado ao puro:

Duas classes de deputado. No misto convivem os eleitos no distrito e os eleitos pela lista. A quem o cidadão cobra? Quem representa o território — o que ganhou a urna local ou o que a direção nomeou? A ambiguidade é permanente e conhecida em todos os países que adotam o modelo.

🧩

Complexidade e reeducação. Dois votos, duas lógicas, correção proporcional que ninguém enxerga na hora de votar. O distrital puro cabe numa frase; o misto exige um curso.

🗺️

Gerrymandering. Todo sistema com distritos exige desenhar mapas — e mapas podem ser manipulados para favorecer quem os desenha. É um risco real (do distrital puro também), que só se neutraliza com um órgão independente e critérios objetivos de demarcação. Vale para os dois; o misto não escapa dele.

Em resumo: o misto pega metade da virtude do distrital (a personalização de parte das cadeiras) e paga por ela com toda a força da lista fechada na outra metade. Se o objetivo é reaproximar eleitor e eleito, é um negócio ruim.

9 E onde já trocaram — deu certo?

A pergunta decisiva é empírica: nos países que abandonaram o proporcional em favor de algum misto, o remédio curou a doença? A resposta honesta é: depende — e raramente foi milagre.

🇮🇹 Itália: trocou, não estabilizou e voltou atrás

É o caso mais eloquente. Cansada da instabilidade crônica do proporcional puro — governos que duravam, em média, cerca de um ano desde 1948 —, a Itália adotou em 1993 um misto majoritário, o apelidado Mattarellum, com 75% das cadeiras em distritos e 25% proporcional, na esperança de forçar bipolaridade e estabilidade. O resultado desapontou: a fragmentação sobreviveu por dentro das coligações, o sistema durou apenas três eleições (1994, 1996, 2001) e foi abandonado em 2005 — voltando a um modelo de forte peso proporcional e listas fechadas (o Porcellum). Depois disso a Itália ainda trocaria de lei eleitoral mais vezes. Mudar o sistema, por si só, não trouxe a estabilidade prometida.

PROPORCIONAL MISTO 1948 Proporcional puro 1993 Misto — Mattarellum (75% distrito) 2005 Proporcional — Porcellum (lista fechada) 2017 Misto — Rosatellum

Em três décadas a Itália oscilou entre proporcional e misto sem achar estabilidade — sinal de que a mágica não está no rótulo do sistema.

🇻🇪 Venezuela: o misto que virou rolo compressor

A Venezuela adotou um distrital misto proporcional em 1993. Em 2005, porém, o chavismo explorou uma brecha apelidada de "morochas" (gêmeas): lançou os candidatos de distrito por legendas satélites, separadas dos votos de lista, quebrando a compensação proporcional e inflando artificialmente a sua maioria. A missão de observação da União Europeia e a oposição denunciaram a manobra. A lição é dura: a "metade proporcional" do misto pode ser burlada por quem já detém o poder — e concentrá-lo ainda mais.

🇳🇿 Nova Zelândia: o contraexemplo honesto

É preciso dizer o outro lado. A Nova Zelândia fez o caminho inverso: saiu do distrital puro britânico e adotou o misto (MMP) em 1996, por referendo (53,9% a favor, com 85% de comparecimento). E gostou — num segundo referendo, em 2011, confirmou o modelo (57,8% quiseram mantê-lo). O misto ampliou a representação de mulheres, de indígenas māori e de minorias. O preço: acabaram os governos de um só partido — toda administração desde então é de coalizão. Ou seja: quem tinha o distrital puro trocou-o por representação mais plural, abrindo mão da nitidez de quem manda. É escolha legítima — mas note que caminha na direção oposta à do problema brasileiro, que é o excesso de fragmentação e a falta de vínculo, não a falta de pluralidade.

O retrato geral é este: o misto não é varinha de condão. Onde se buscou estabilidade (Itália), ela não veio; onde havia má-fé (Venezuela), o sistema foi burlado; onde se buscou pluralidade a partir do puro (Nova Zelândia), ela veio — mas ao custo de governos de coalizão. Para o mal brasileiro específico — deputado sem vínculo e sem prestação de contas —, nenhum desses casos recomenda o misto com lista fechada como cura. O que ataca a doença na raiz continua sendo o distrital puro.

10 Os quatro sistemas, lado a lado

Proporcional
(atual, lista aberta)
Distritão Distrital misto
(+ lista fechada)
Distrital puro
Elo eleitor ⇄ eleitoFracoMédioParcialForte
Puxador de votosExisteNãoNão (nos distritos)Não
Quem escolhe quem entraEleitor (dentro do partido)EleitorMetade: a cúpula (lista)O eleitor, direto
Custo de campanhaAlto (estado inteiro)Alto (estado inteiro)MédioMenor (distrito)
Território definidoNãoNãoMetade simSim, sempre
Simplicidade p/ o eleitorMédiaAltaBaixa (2 votos)Alta
Poder das cúpulas partidáriasMédioBaixoAlto (lista fechada)Baixo

O quadro é uma síntese didática. Cada sistema comporta variações (barreira mínima, dois turnos, lista aberta ou fechada no lado proporcional), mas as tendências centrais são estas.

11 Conclusão: o remédio certo para o diagnóstico certo

Alexandre de Moraes tem razão num ponto que a direita brasileira também repete há anos: o sistema proporcional de lista aberta rompeu o vínculo entre quem vota e quem é eleito. Deputados chegam de carona, sem território, sem prestação de contas a ninguém em particular. Nisso, o diagnóstico é convergente.

A divergência é no remédio. Combater a falta de vínculo com um sistema que reserva metade das cadeiras a listas fechadas — decididas pelas direções partidárias — é curar a ausência de responsabilidade com uma dose extra de poder de cúpula. É trocar o deputado sem endereço pelo deputado sem urna. A "democracia de partidos" que o ministro invoca acaba significando, na prática, mais força para quem já manda nos partidos — e menos para o eleitor.

Se o objetivo é mesmo devolver ao cidadão o poder de escolher, cobrar e demitir o seu representante, existe um caminho mais curto, mais barato e mais transparente: o distrital puro. Um distrito, um nome, um responsável. Sem lista, sem carona, sem gabinete decidindo por você. O problema que Moraes descreve é real — mas o país não precisa aceitar a lista fechada como preço para resolvê-lo.

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