🏠 Home

Dante Alighieri  ·  uma descida e uma subida contadas por Laudelino

A Divina Comédia

Perdido numa selva escura, um homem desce ao fundo do Inferno para poder subir até Deus — a viagem que reuniu toda a Antiguidade pagã dentro da fé cristã.

← A Eneida — o poema cujo autor vira o guia de Dante O fecho da série: Homero, seus juízes, Virgílio — e agora a obra que herda todos eles.
≈ 40 min de leitura  ·  a viagem além do mundo

No fim do artigo sobre a Eneida, eu deixei uma promessa no ar: contei que, mil e quinhentos anos depois de Virgílio, um poeta o escolheu como guia para atravessar o outro mundo. Esse poeta é Dante Alighieri, e a obra é a Divina Comédia — para muitos, o maior poema já escrito, e o ponto exato onde as três histórias que viemos contando se encontram. Aqui, Homero, Virgílio, os filósofos gregos e a Bíblia deixam de ser tradições separadas e se fundem numa única catedral de versos. É o fecho natural da nossa série, e também o seu ápice.

A história é simples de enunciar e imensa de percorrer. Um homem — o próprio Dante — se perde, no meio da vida, numa floresta escura. Para se salvar, precisa fazer a viagem mais estranha que se pode imaginar: descer ao Inferno, atravessá-lo inteiro até o fundo, subir a montanha do Purgatório e, por fim, ascender pelos céus do Paraíso até contemplar o próprio Deus. Três reinos, três cânticas, uma só travessia da alma — do desespero mais fundo à luz mais alta. E, como toda grande viagem que já vimos, não é sobre geografia: é sobre um homem que precisa se perder para se reencontrar.

Retrato de Dante Alighieri, coroado de louros
Dante Alighieri (1265–1321) — o poeta que escreveu no exílio a obra que fundaria a língua italiana (retrato de Sandro Botticelli).

Antes de entrar, guarde duas chaves. A primeira: a Comédia não se chamava "Divina". Dante a intitulou apenas Comédia — no sentido antigo de uma história que começa mal (no horror do Inferno) e termina bem (na glória do Paraíso), o oposto da tragédia. O "Divina" foi acrescentado depois, pela admiração de Boccaccio, e nunca mais saiu. A segunda: Dante a escreveu não no latim erudito, mas na língua do povo, o toscano falado nas ruas de Florença. Foi uma aposta revolucionária — e ganhou de tal forma que aquele dialeto virou, graças a este poema, o italiano que se fala até hoje. Poucos livros na história literalmente criaram uma língua.

o autor e a feridaDante, o exílio e o poema

Como a Eneida, a Comédia nasce de uma ferida — e a ferida, de novo, é política. Dante Alighieri nasceu em Florença em 1265 e foi, na juventude, um cidadão ativo e importante da sua cidade, envolvido até o pescoço nas guerras de facção que dilaceravam a Itália medieval: de um lado os guelfos, de outro os gibelinos, e dentro dos próprios guelfos uma nova cisão entre "brancos" e "negros". Dante era guelfo branco. Quando os negros, com apoio do papa, tomaram o poder em 1301, ele estava fora da cidade — e foi condenado, à revelia, ao exílio perpétuo. Se voltasse a Florença, seria queimado vivo.

Ele nunca mais voltou. Passou os últimos vinte anos vagando de corte em corte pelo norte da Itália, "provando como sabe a sal o pão alheio e como é duro caminho descer e subir a escada dos outros" — são versos dele, do Paraíso, sobre a humilhação de viver de favor. Foi nesse exílio amargo, longe de tudo o que amava, que escreveu a Comédia inteira, terminando-a pouco antes de morrer em Ravena, em 1321. Nunca viu sua cidade de novo. E encheu o poema de florentinos — amigos e inimigos —, distribuindo-os pelo Inferno, pelo Purgatório e pelo Paraíso conforme o seu próprio juízo. É uma obra escrita por um homem que perdeu o mundo e resolveu, em versos, julgá-lo inteiro.

Domenico di Michelino, Dante e os três reinos, na catedral de Florença
Dante e a Comédia diante de Florença: à esquerda o Inferno, atrás a montanha do Purgatório, no alto o Paraíso (Domenico di Michelino, 1465, Duomo de Florença).

Há ainda uma segunda ferida, mais íntima, e ela move todo o poema: Beatriz. Dante a amara desde menino — uma jovem florentina, Beatrice Portinari, que ele mal conhecera pessoalmente, mas que se tornou, para ele, a imagem terrena da graça divina. Ela morreu jovem, em 1290. E é ela, do céu, quem põe em marcha toda a viagem: comovida ao ver Dante se perdendo, desce ao Limbo para pedir a Virgílio que o resgate. Guarde isso, porque é a estrutura secreta da obra: um homem é salvo do desespero pelo amor de uma mulher morta, que o puxa, degrau por degrau, para cima. A Comédia é, no fundo, a mais grandiosa carta de amor já escrita.

a engenhariaA arquitetura: o poema construído sobre o número 3

Poucas obras são tão perfeitamente calculadas. Tudo na Comédia é feito de três — o número da Trindade cristã — e a simetria é obsessiva. São três cânticas: Inferno, Purgatório e Paraíso. Cada uma tem trinta e três cantos — e o Inferno ganha um canto extra de abertura, fechando a conta em cem cantos exatos (100 = o quadrado da perfeição, 10×10). Cada reino se divide em regiões que descem ou sobem em degraus. E cada cântica termina, não por acaso, na mesma palavra: "estrelas".

Até a forma dos versos obedece ao três. Dante inventou para o poema uma métrica própria, a terça rima — estrofes de três versos encadeados num esquema (ABA, BCB, CDC…) em que a rima do meio de cada estrofe puxa a estrofe seguinte, como elos de uma corrente que nunca se solta até o fim do canto. É uma engrenagem que empurra a leitura sempre adiante, imitando o próprio movimento da viagem: não há como parar, cada terceto pede o próximo. Ler a Comédia no original é sentir essa correnteza — a forma é a jornada.

E a geografia do além é rigorosa. O Inferno é um funil invertido de nove círculos que afunda até o centro da Terra, cada círculo mais estreito e mais culpado que o de cima. O Purgatório é uma montanha de sete terraços que se ergue no hemisfério sul, por onde se sobe purificando os pecados um a um. O Paraíso são nove céus concêntricos que giram em torno da Terra, subindo até o Empíreo, a morada de Deus. Descer, subir, ascender: a alma percorre o cosmos inteiro. Nada ali é aleatório — é uma catedral gótica feita de palavras, com cada pedra no seu lugar.

o guiaVirgílio, o guia — e por que ele

Virgílio e Dante descem ao Inferno
Virgílio conduz Dante pelo abismo — a razão humana guiando o peregrino tão longe quanto ela pode ir (gravura de Gustave Doré).

Aqui a nossa série se amarra num nó perfeito. Quem Dante escolhe para guiá-lo pelo Inferno e pelo Purgatório? Virgílio — o autor da Eneida, morto treze séculos antes. Não é homenagem gratuita. Lembre-se do que contamos: Virgílio virara, para a Idade Média, o "virtuoso pagão", o poeta que quase profetizara Cristo, o sábio que chegara tão longe quanto a razão humana pode chegar sem a fé. É exatamente isso que ele representa na Comédia: a razão — capaz de conduzir a alma pelo reconhecimento do pecado (o Inferno) e pela purificação (o Purgatório), mas incapaz, sozinha, de alcançar Deus. E há uma dívida concreta: o Inferno de Dante é decalcado, cena a cena, do canto VI da Eneida, a descida de Eneias ao mundo dos mortos. Dante sabia, e faz seu personagem reverenciar o mestre com uma das declarações mais bonitas já feitas de um poeta a outro:

"Tu se' lo mio maestro e 'l mio autore; / tu se' solo colui da cu' io tolsi / lo bello stilo che m'ha fatto onore." "Tu és o meu mestre e o meu autor; és tu, e só tu, de quem tomei o belo estilo que me deu honra." Dante a Virgílio — Inferno, I, 85–87

E é justamente porque Virgílio é só a razão, e não a fé, que a viagem com ele tem um limite trágico marcado desde o início: ele pode levar Dante até o topo do Purgatório, mas não pode entrar no Paraíso. O pagão, por mais sábio e nobre, para no umbral. Guarde essa despedida anunciada — quando ela chegar, será uma das cenas mais comoventes da literatura, e o eco exato da querela que já contamos.

o começoA selva escura e as três feras

O poema abre com três dos versos mais famosos já escritos, e todo mundo que já se sentiu perdido na vida os reconhece de imediato:

"Nel mezzo del cammin di nostra vita / mi ritrovai per una selva oscura, / ché la diritta via era smarrita." "No meio do caminho da nossa vida, encontrei-me numa selva escura, porque a reta via estava perdida." Os primeiros versos da Comédia — Inferno, I, 1–3

Repare que ele não diz "minha vida", e sim "nossa vida" — desde a primeira palavra, a viagem é de todos nós. Dante tem trinta e cinco anos (o "meio" de uma vida de setenta, segundo a Bíblia), e se descobre extraviado numa floresta sombria que representa o pecado, o erro, a crise da alma que perdeu o rumo. Tenta sair subindo uma colina iluminada pelo sol, mas o caminho é barrado por três feras: uma onça (a luxúria, ou a incontinência), um leão (a soberba, ou a violência) e uma loba (a cobiça, ou a fraude), esta a mais terrível, que o empurra de volta para o escuro.

É quando tudo parece perdido que surge uma sombra: Virgílio, enviado — ele explica — por três damas do céu, e no comando de Beatriz, que desceu do Paraíso ao Limbo só para pedir seu socorro. Como a via direta está bloqueada pelas feras, só há um caminho para se salvar, e é o mais duro: será preciso ir pelo outro lado, atravessando primeiro o reino da danação. Dante hesita, sente-se indigno — "eu não sou Eneias, não sou Paulo", diz, lembrando os dois únicos vivos que a tradição dizia terem visitado o além. Virgílio o encoraja, e os dois partem. Está montado o quadro: para reencontrar a "reta via", será preciso descer ao fundo de tudo.

o umbralA porta do Inferno e os que perderam a esperança

A porta do Inferno com a inscrição
Sobre a porta do Inferno, a inscrição que tira toda esperança de quem entra (gravura de Gustave Doré).

Chegam à porta do Inferno, e sobre ela lê-se uma inscrição que é, talvez, a frase mais célebre de toda a obra — o aviso que encerra qualquer ilusão de quem cruza aquele limiar:

"Lasciate ogne speranza, voi ch'intrate." "Deixai toda a esperança, ó vós que entrais." Inscrição sobre a porta do Inferno — Inferno, III, 9

Logo depois da porta, ainda antes do verdadeiro Inferno, Dante encontra uma multidão que corre eternamente atrás de uma bandeira, picada por vespas: são os indiferentes, os que viveram "sem infâmia e sem louvor", os que nunca tomaram partido de nada. Dante os despreza tanto que nem o Inferno os quer — "não fales deles; olha e passa". É uma abertura reveladora do juízo do poeta: para ele, a pior vida é a que não escolheu lado nenhum.

Então o barqueiro Caronte — o mesmo da Eneida, que Virgílio conhece — transporta as almas pelo rio Aqueronte, e começa o Inferno de fato. O primeiro círculo é o Limbo, e aqui a nossa série treme de emoção. No Limbo estão os que viveram com virtude mas sem o batismo — as almas nobres nascidas antes de Cristo ou fora da fé. Não sofrem tormento, apenas uma tristeza sem fim: a de desejar Deus para sempre, sem jamais poder alcançá-lo. E quem mora ali? Homero, "o poeta soberano"; Horácio, Ovídio, Lucano; os heróis de Troia; e os filósofos gregos reunidos num castelo, com Aristóteles no centro — que Dante chama, numa linha perfeita, de "il maestro di color che sanno", o mestre dos que sabem. O próprio Virgílio, nosso guia, mora no Limbo: ele nos conduz pelo Inferno, mas para ali quando a viagem acaba. Toda a Antiguidade pagã que viemos celebrando nestes artigos está reunida naquele primeiro círculo — venerada e, ao mesmo tempo, para sempre à porta.

a descidaA descida pelos nove círculos

A partir daí, Dante e Virgílio descem de círculo em círculo, e cada um pune um pecado. O princípio que rege tudo é genial e cruel: o contrapasso — a pena é a própria imagem do pecado, ou o seu exato oposto. O castigo retrata a culpa. Veja alguns dos mais inesquecíveis.

Paolo e Francesca arrastados pelo vento infernal
Paolo e Francesca, os amantes arrastados para sempre pela tempestade do desejo (gravura de Gustave Doré).

No segundo círculo, o dos luxuriosos, as almas que se deixaram levar pela paixão são arrastadas eternamente por um vendaval sem repouso — como foram varridos, em vida, pelo desejo. Ali Dante encontra Francesca da Rimini e Paolo, cunhados que se apaixonaram lendo juntos um romance de cavalaria e foram mortos pelo marido traído. Francesca conta, com uma delicadeza dilacerante, como o livro foi o culpado — "Galeotto fu 'l libro e chi lo scrisse", o livro foi o alcoviteiro — e resume o amor numa fórmula que atravessou os séculos:

"Amor, ch'a nullo amato amar perdona…" "Amor, que a nenhum ser amado perdoa de amar, tomou-me deste tão fortemente que, como vês, ainda não me abandona." Francesca da Rimini — Inferno, V, 103

Dante se comove tanto com o casal que desmaia de piedade — "caí como cai um corpo morto". É um detalhe crucial: ele não julga com frieza; sofre com os condenados, mesmo sabendo-os condenados. Essa tensão entre a justiça divina e a compaixão humana é o que torna o Inferno tão humano.

A descida continua, cada vez mais sombria. Os gulosos apodrecem na lama sob uma chuva imunda, guardados pelo cão Cérbero. Os avarentos e pródigos empurram pesos rolando uns contra os outros. Os iracundos se dilaceram na lama do pântano Estige. Mais abaixo ergue-se a cidade infernal de Dis, cercada de muralhas em brasa, onde os demônios chegam a barrar a passagem dos viajantes — e só a intervenção de um mensageiro do céu abre os portões. Lá dentro, os hereges ardem em túmulos de fogo; os violentos fervem num rio de sangue (Flegetonte), guardados pelos Centauros; os suicidas viraram árvores retorcidas que sangram e falam quando se quebra um galho — porque desprezaram o próprio corpo, não terão mais forma humana.

Gerião, o monstro da fraude, carrega Dante e Virgílio
Gerião, o monstro de rosto honesto e corpo de serpente — a imagem viva da fraude — leva os dois ao abismo (Gustave Doré).

Do sétimo círculo em diante entra-se no reino da fraude, para Dante o pior dos males, porque perverte aquilo que temos de mais humano: a inteligência e a confiança. Os viajantes descem nas costas de Gerião, um monstro de rosto plácido e cauda venenosa — a cara da mentira. Abaixo se abrem as Malebolge, dez fossos concêntricos onde se punem os fraudulentos de toda espécie: sedutores açoitados por demônios, aduladores mergulhados em esterco, simoníacos enfiados de cabeça para baixo em buracos com os pés em chamas, adivinhos com a cabeça torcida para trás (quiseram ver o futuro, agora só veem atrás de si), ladrões que se fundem com serpentes, e os maus conselheiros envoltos, cada um, numa língua de fogo. Numa dessas chamas está Ulisses — sim, o nosso Ulisses da Odisseia —, punido pelo engano do cavalo de Troia, contando a Dante uma última e inventada viagem para além dos limites do mundo, em que naufragou por querer saber demais. Até o herói grego reaparece aqui, agora julgado por outra moral.

o fundoO fundo do mundo: Lúcifer preso no gelo

E chega-se ao fundo de tudo — o nono círculo, o dos traidores. Aqui não há fogo: há gelo. O centro do Inferno, o ponto mais distante de Deus, não é quente, é um lago congelado, Cocito, onde os que traíram os laços mais sagrados — a família, a pátria, os hóspedes, os benfeitores — estão presos no gelo, alguns até os olhos, incapazes até de chorar, porque as lágrimas congelam. A traição, para Dante, gela o coração; e o castigo é o frio absoluto.

Lúcifer preso no gelo no centro do Inferno
Lúcifer, gigantesco e chorando, entalado no gelo no centro exato da Terra, mastigando os três maiores traidores (Gustave Doré).

No centro exato do mundo está Lúcifer — não um demônio flamejante de chifres, mas uma criatura monstruosa e patética, gigantesca, entalada até a cintura no gelo, com três faces e seis asas de morcego cujo bater é o próprio vento que congela Cocito. Ele chora com seis olhos, e em cada uma das três bocas tritura eternamente um traidor: Judas Iscariotes, que traiu Cristo, e Brutus e Cássio, que traíram Júlio César. Repare de novo no encontro das nossas histórias: na boca do diabo, lado a lado, o traidor do fundador do cristianismo e os traidores do fundador do Império Romano. Para Dante, Igreja e Império eram os dois pilares da ordem do mundo, e traí-los era o crime supremo.

A saída é uma das ideias mais engenhosas já concebidas. Não há como voltar por onde vieram. Virgílio agarra Dante e desce pelo corpo peludo de Lúcifer, até a cintura — que é o centro de gravidade da Terra. Ali, ao passar o ponto central, tudo se inverte: o que era descer vira subir. Eles saem por uma passagem do outro lado do planeta e, depois de um longo caminho no escuro, reencontram a luz. A cântica do Inferno termina com o verso que fecha o pesadelo e reacende a esperança:

"E quindi uscimmo a riveder le stelle." "E então saímos para rever as estrelas." Último verso do Inferno — XXXIV, 139

Os nove círculos do Inferno

A geografia da danação, de cima para baixo — cada pena é a imagem do pecado (o contrapasso):

  1. Limbo — os virtuosos sem batismo. Sem tormento, só a saudade eterna de Deus. Ali estão Homero, Aristóteles e o próprio Virgílio.
  2. Luxúria — arrastados sem repouso por um vendaval, como o foram pela paixão. Paolo e Francesca.
  3. Gula — prostrados na lama sob chuva imunda, guardados por Cérbero.
  4. Avareza e prodigalidade — empurram pesos uns contra os outros, para sempre.
  5. Ira — dilaceram-se na lama do pântano Estige.
  6. Heresia — ardem em túmulos de fogo, dentro da cidade de Dis.
  7. Violência — em três anéis: o rio de sangue fervente, a mata dos suicidas, o areal em chamas.
  8. Fraude — as dez Malebolge: sedutores, aduladores, simoníacos, maus conselheiros (Ulisses), falsários.
  9. Traição — presos no gelo de Cocito; no centro, Lúcifer mastigando Judas, Brutus e Cássio.
"Deixai toda a esperança, ó vós que entrais."— A inscrição da porta do Inferno. Mas repare: cada uma das três cânticas termina na palavra estrelas. O poema do desespero é, de ponta a ponta, uma máquina de reacender a esperança.

a subidaA montanha do Purgatório

Dante à beira do rio Letes, no cume do Purgatório
No cume do Purgatório, às portas do Paraíso Terrestre, corre o rio Letes, que apaga a memória do pecado (Gustave Doré).

Do outro lado do mundo, os dois emergem ao pé de uma montanha cercada de mar, sob um céu de estrelas que nenhum vivo jamais vira. É o Purgatório — e o tom muda completamente. Se o Inferno era escuro, apertado e sem saída, aqui tudo é amanhecer, ar livre, e sobretudo esperança: todas as almas daquela montanha serão salvas; sofrem, mas sofrem contentes, porque cada dor as aproxima do céu. É o reino do "ainda não", da paciência, da alma que se limpa. Guarda a entrada Catão, o velho romano símbolo da liberdade — outro pagão nobre a serviço da história cristã.

A subida se dá por sete terraços, um para cada um dos sete pecados capitais, purificados de baixo para cima na ordem da sua gravidade: soberba, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria. Os soberbos sobem curvados sob pedras enormes, aprendendo a humildade; os invejosos têm os olhos costurados com arame, os que tanto olharam torto para os outros; os gulosos definham diante de árvores e água que não alcançam. A cada terraço vencido, um anjo apaga da testa de Dante uma das sete letras "P" (de peccatum, pecado) que ali haviam sido gravadas — e ele fica mais leve, sobe mais fácil. É a metáfora perfeita do peso que se perde quando se larga a culpa.

No caminho, um encontro sela mais uma vez o tema da nossa série: os viajantes topam com Estácio, poeta romano que, na ficção de Dante, teria se convertido secretamente ao cristianismo graças à leitura de Virgílio — dos versos da Écloga que pareciam profetizar Cristo. Estácio se ajoelha diante do mestre sem saber que é ele, e diz a frase que resume toda a reputação medieval de Virgílio: "tu foste como quem caminha de noite e leva a luz atrás de si, sem se iluminar, mas iluminando os que vêm depois". O pagão que salvou outros sem poder salvar a si mesmo. No topo da montanha, enfim, floresce o Paraíso Terrestre — o Éden perdido, um jardim de rios e cânticos. E é ali que a viagem com Virgílio chega ao fim.

a despedidaO adeus a Virgílio e a chegada de Beatriz

Beatriz, guia celeste de Dante
Beatriz — o amor que desce do céu e conduz Dante aonde a razão já não alcança (Gustave Doré).

No Paraíso Terrestre acontece a cena que a obra vinha preparando desde o primeiro canto, e é de cortar o coração. Envolta em nuvens de flores, surge Beatriz — a mulher amada, morta havia trinta anos, que agora desce do céu para conduzir Dante pelo que falta. E, no instante em que ela aparece, Dante se vira para partilhar a emoção com o companheiro de toda a jornada — e descobre que Virgílio desapareceu. Sem uma palavra, sem despedida, o guia se foi: a razão o levou até onde podia, até o umbral do céu, e ali teve de voltar. O pagão não entra no Paraíso.

Dante o chama três vezes pelo nome, e chora — chora pelo mestre perdido mesmo diante da amada reencontrada. É a mesma verdade da querela que já contamos, agora transformada em drama pessoal: por mais que se venere a sabedoria antiga, ela para no limiar da fé. Virgílio, que guiou milhões de leitores pelo Inferno, retorna em silêncio ao seu Limbo, à sua tristeza sem fim. Poucas páginas na literatura pesam tanto quanto essa ausência súbita. E, no entanto, é justa: a partir dali, quem guia não é mais o saber humano, é o amor — Beatriz, a graça, que puxa Dante para o alto pela força de um afeto que não morreu com o corpo.

o altoO Paraíso e a visão de Deus

A terceira cântica é a mais difícil e a mais luminosa. Conduzido por Beatriz, Dante ascende pelos nove céus do universo — a Lua, Mercúrio, Vênus, o Sol, Marte, Júpiter, Saturno, as estrelas fixas, o Primeiro Móvel —, e em cada esfera encontra as almas dos bem-aventurados: sábios, guerreiros da fé, justos, contemplativos, tudo em graus crescentes de luz. Não há mais paisagem, quase não há mais corpo: o Paraíso é feito de luz, música e alegria, e Dante confessa a cada canto que a linguagem humana não dá conta — que a memória falha diante do que viu. É uma poesia que se esforça para dizer o indizível, e essa tensão é a sua beleza.

A Rosa Celeste dos bem-aventurados no Empíreo
A Rosa Celeste: no Empíreo, os bem-aventurados dispostos em pétalas de luz em torno de Deus (Gustave Doré).

No cume de tudo está o Empíreo, fora do espaço e do tempo, a morada de Deus. Ali os bem-aventurados aparecem dispostos numa imensa Rosa branca, pétala sobre pétala de almas banhadas em luz, com os anjos voando entre elas como abelhas. Beatriz retoma seu lugar na Rosa, e o guia final passa a ser São Bernardo, que dirige a Maria a oração para que Dante possa dar o último passo: olhar para Deus. E Dante olha. Tenta descrever o indescritível — três círculos de uma só luz, a Trindade; dentro deles, a imagem do rosto humano, o mistério de Deus feito homem — e, no instante em que sua mente falha diante do infinito, algo se resolve, e ele compreende. O poema inteiro, cem cantos, dez mil versos, termina no verso mais famoso da língua italiana, que dá nome ao que move todo o universo:

"…l'amor che move il sole e l'altre stelle." "…o amor que move o sol e as demais estrelas." Último verso do Paraíso, e de toda a Comédia — XXXIII, 145

Repare onde ele chega. A viagem começou num homem perdido no escuro e termina na contemplação da força que rege o cosmos — e essa força não é o poder, nem o destino, nem a razão. É o amor. O mesmo amor que, no começo, fez uma mulher morta descer do céu para salvar um único homem à deriva. Do desespero da selva escura à harmonia das estrelas, tudo foi movido por isso. E a última palavra da Comédia é, como a das três cânticas, estrelas — o poema termina de olhos erguidos para cima.

para fecharPor que a Comédia fecha a nossa série

Agora dá para ver por que eu quis terminar aqui. Nós começamos com Homero e a aventura da Odisseia; passamos pela querela em que Platão pôs o poeta no banco dos réus e os alegoristas o salvaram, transformando o texto pagão em escritura secreta da alma; seguimos para Virgílio e a Eneida, a resposta de Roma a Homero, que por sua vez foi alegorizada e coroada como profecia. Cada obra foi absorvida, reinterpretada e venerada pela época seguinte. A Divina Comédia é o ponto em que esse longo processo se completa: Dante pega Homero, Virgílio, Aristóteles, os heróis de Troia, os poetas latinos — toda a Antiguidade pagã que percorremos — e os instala, com reverência, dentro de uma catedral cristã. Homero e Aristóteles no Limbo; Ulisses nas Malebolge; Catão e Estácio no Purgatório; Virgílio como guia. A herança grega e romana não foi jogada fora: foi redimida, incorporada, posta a serviço de uma nova visão do mundo.

E o gesto central de Dante é o mesmo que vimos os alegoristas fazerem com Homero e com a Bíblia: dar a um texto — e agora a toda uma tradição — um sentido mais alto do que a letra. A Comédia é a alegoria realizada em estado puro. Ela não comenta a viagem da alma rumo a Deus; ela é essa viagem, encenada num homem concreto que se perde, desce ao seu próprio inferno, se purifica e sobe. Odisseu voltava para Ítaca; Eneias fundava Roma; Dante volta para Deus — e, ao fazê-lo, mostra que as três viagens eram, no fundo, a mesma: a de todo ser humano que precisa atravessar o escuro para reencontrar a luz.

É por isso que a Comédia não envelhece, e é por isso que ela fecha estes quatro ensaios como uma abóbada fecha uma nave. Você não precisa compartilhar a fé de Dante para ser tomado por ela — assim como não precisa crer em Atena para se emocionar com Ulisses, nem em Júpiter para chorar com Dido. O que fica, em todos, é a mesma coisa: a certeza de que a grande literatura fala sempre da nossa travessia — a de nos perdermos, a de precisarmos de um guia, a de largarmos o peso que carregamos, a de sermos puxados para cima por algo ou alguém que amamos. Homero nos ensinou a ser astutos para voltar para casa. Virgílio, a carregar o dever mesmo chorando. E Dante nos ensina o que há no fim de toda travessia bem-feita, quando enfim se sai do escuro: as estrelas — e o amor que as move.

Vá além do texto · Biblioteca do Peregrino

A Divina Comédia na interpretação do Prof. Monir

Você desceu com Dante ao Inferno e subiu até o Paraíso. Agora ouça a interpretação da Divina Comédia pelo Prof. José Monir Nasser — a obra inteira comentada no acervo da Biblioteca do Peregrino.

Compartilhe este artigo
🏠 Home