Em 4 de março de 2016, durante a 24ª fase da Operação Lava Jato, seis peritos criminais federais desembarcaram numa propriedade rural do bairro Itapetinga, em Atibaia (SP). Tinham trena eletrônica de precisão milimétrica, receptor de GPS submétrico, um drone e uma pergunta simples de responder e difícil de fugir: quem, de fato, mora aqui? No papel, o sítio pertencia a Fernando Bittar e a Jonas Leite Suassuna Filho. Dentro das casas, quase tudo tinha o nome de outra família. O resultado do trabalho é o Laudo nº 0392/2016 — 67 páginas que catalogam, objeto por objeto, a ocupação real do imóvel. Abaixo, reproduzimos todas as 89 figuras do documento, em seus respectivos momentos.
01O documento: o que a PF foi fazer lá
O laudo pericial é assinado por seis peritos criminais federais — Alessandro Franus, João José de Castro Baptista Vallim, Ior Canesso Juraszek, Fernando Nadal, José Antonio Schamne e Luiz Spricigo Junior — no interesse do Inquérito Policial nº 0184/2016-4-SR/DPF/PR. O exame foi feito no cumprimento do Mandado de Busca e Apreensão nº 700001628013, e o objetivo declarado é claro: "caracterizar a ocupação do Sítio e identificar seus principais frequentadores".
São, na verdade, dois imóveis tratados como um só: o Sítio Santa Bárbara (matrícula 19.720, em nome de Jonas Suassuna) e o Sítio Denise (matrícula 55.422, em nome de Fernando Bittar) — ambos comprados na mesma data, 29 de outubro de 2010. Os peritos concluem, logo de início, que gerador, sistema de pânico e benfeitorias servem à propriedade inteira: as duas matrículas "funcionam como um único imóvel".

02A propriedade: o que um "sítio de laranja" tinha dentro
Antes das evidências, a escala. O que a documentação chama de "sítio" é, segundo a descrição pericial, um complexo de lazer: casa principal, duas casas de hóspedes, espaço gourmet, anexo com adega, piscina aquecida, dois lagos, casa de barco, pesqueiro, píer, alojamento de seguranças, gerador e até campo de futebol. As imagens aéreas do drone dão a dimensão.



A planta da Casa Principal — encontrada dentro da própria casa — mostra a distribuição dos cômodos, a piscina e o espaço gourmet. É o croqui que os peritos usaram para nomear os ambientes.

A Casa Principal
Cozinha "gourmet" com ilha, sala de estar com lareira, duas suítes (uma com lareira), piso de pedra polida, forro de madeira de lei e varanda em todo o entorno. Todos os cômodos mobiliados. Não é a descrição de um refúgio simples de fim de semana de dois amigos empresários.








Casa 01 e Casa 02 — as casas de hóspedes
A Casa 01, ligada à principal por um pergolado, tem quatro suítes. A Casa 02, do outro lado de um curso d'água retificado, tem salão de jogos, sala de TV, cozinha e duas suítes. Os peritos as trataram como acomodações de hóspedes.







Espaço Gourmet, Anexo e a adega
Próximo à piscina, o Espaço Gourmet reúne churrasqueira, forno e fogão a lenha, e no subsolo o sistema de filtragem da piscina. No Anexo, dois dormitórios e um cômodo transformado em adega climatizada, com centenas de garrafas.









Apoio: caseiro, seguranças, depósito e os lagos
Na área da matrícula 19.720 ficam a casa do caseiro, o alojamento dos seguranças (com painel de alarme etiquetado "PESQUEIRO", "PISCINA", "SALA", "QUARTO"), o depósito, a casa de barco, o pesqueiro e os dois lagos represados.








03O catálogo das 33 evidências
Aqui está o coração do laudo. Os peritos vasculharam cada construção em busca de objetos com elementos identificadores. Reproduzimos abaixo, agrupadas por local e com as fotos do próprio documento, as 33 evidências materiais que vinculam a ocupação do sítio a Luiz Inácio Lula da Silva, a Marisa Letícia e ao aparato da Presidência da República. Nenhum objeto pessoal de Bittar ou de Suassuna — os donos "de papel" — foi encontrado.
Suíte 01 — o quarto do casal
Casa PrincipalO caseiro, Sr. Élcio Pereira Vieira, indicou aos peritos que a Suíte 01 era usada "pelo Sr. Luiz Inácio Lula da Silva e pela Sra. Marisa Letícia". O armário e o banheiro confirmaram.
- 1Peças de vestuário masculinas e femininas com as inscrições "Lula", "Presidente", "Marisa" e "13".Figuras 37 e 38
- 2Roupas com as iniciais "L.I.D.S." e "M.L.R.C." — associadas pelos peritos a Luiz Inácio da Silva e Marisa Letícia Rocco Casa.Figuras 39 e 40
- 3Toalha com o nome "Lula" sobre o criado-mudo do lado direito da cama — o lado, segundo os peritos, ocupado pela pessoa do sexo masculino.Figura 41
- 4Dois quadros religiosos fixados acima da cama (Jesus Cristo de um lado, Nossa Senhora do outro) e diversas caixas de charuto, chapéus e calçados.Figura 42
- 5Dezenas de frascos de medicamentos manipulados com o rótulo "MARISA LETÍCIA LULA DA SILVA" sobre a bancada das pias e numa caixa ao lado do box.Figuras 43 a 48














Dormitório / escritório
Casa Principal- 6Pilha de caixas de papelão de mudança e um acervo de CDs e DVDs em prateleira planejada.Figuras 49 e 50
- 7Uma pasta rosa com etiqueta "Ilma. Sra. Marisa Letícia da Silva — Em mãos", contendo a lista "RELAÇÃO DAS CAIXAS ENVIADAS PARA O SÍTIO E O SEU CONTEÚDO" e os projetos das construções da propriedade.Figura 51
- 8Mais produtos manipulados em nome de Marisa Letícia Lula da Silva.Figura 52
- 9Uma caixa de ovo de Páscoa gravada com o nome "Luiz Inácio Lula da Silva" e uma toalha bordada com "Presidente Lula".Figuras 53 e 54
- 10Caixa de artesanato com cartão manuscrito: "Excelentíssimo Senhor Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e Dona Marisa [...]".Figura 55








Demais cômodos
Casa Principal- 11Uma agenda com capa personalizada "PRESIDENTE DA REPÚBLICA LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA" e o brasão da Força Aérea Brasileira em relevo.Figura 56
- 12Um relógio de bolso acompanhado de papel do "Lançamento do Programa Territórios da Cidadania, em Quixadá — CE", evento oficial da Presidência em 29/02/2008.Figura 57
- 13Um cartão de boas festas da empreiteira OAS, em envelope da empresa, com remetente "José Aldemário Pinheiro Filho" (Léo Pinheiro) e destinatário "Excelentíssimo Senhor Presidente Luiz Inácio Lula da Silva". Um segundo cartão era endereçado a "Dona Marisa".Figuras 58 a 60
- 14Uma garrafa de aguardente "Reserva Especial Itagiba" com dedicatória manuscrita: "Caro Presidente Lula [...]".Figuras 61 e 62








Espaço Gourmet · Anexo
Área social- 15Uma garrafa de aguardente Havana (2 litros) com dedicatória: "Ao eterno Presidente do Brasil Luiz Inácio (Lula)".Figura 63
- 16Uma caixa de madeira em marchetaria gravada com "Luiz Inácio Lula da Silva", guardando jogos recreativos.Figura 64
- 17No Anexo, um circuito fechado de monitoramento (rack, HD, roteador) e dois monitores de ~55 polegadas.Figuras 65 a 68
- 18Uma adega refrigerada com centenas de garrafas de vinho, uísque e licores, organizadas por país de origem.Figura 69








Casa 01 · Casa 02
Casas de hóspedes- 19Mesas idênticas com um brasão de iniciais "LM" e as inscrições "Liderar e Amar" e "DESDE 1974" — o ano do casamento de Lula e Marisa. Mesas iguais apareceram em vários cômodos.Figuras 70 e 71
- 20Uma caneca de alumínio com brasão do Corinthians e a inscrição gravada "Ilmo. Sr.: presidente Lula".Figura 75
- 21Caixas de transporte de um presépio, identificadas com destino "Depósito Infraero".Figura 74






Casa de Barco
Lago- 22Uma caixa de petrechos de pesca com etiqueta "Marisa Letícia".Casa de Barco
- 23Uma pequena embarcação de fibra, coberta por lona, com a inscrição "LULA & MARISA" pintada na lateral.Figura 76

Depósito
Área de apoio- 24Dezenas de caixas numeradas cujo conteúdo (pesca, roupas, chapéus, brinquedos, espadas decorativas, roupa de festa junina) batia com a "RELAÇÃO DAS CAIXAS ENVIADAS PARA O SÍTIO" encontrada na pasta rosa.Figuras 77 e 78
- 25Um banner com fotos de Lula e Marisa, inscrições elogiosas ao ex-presidente e diversas assinaturas.Figura 79
- 26Um cartão emoldurado de Festa Junina com dedicatória manuscrita a "Maritsa e Lula", assinada "Castro R*** 19Dic 2008" e mencionando o envio de uma foto igual "para Fidel".Figura 80
- 27Duas capas de lona pretas com os nomes "PEDRO" e "ARTHUR" — nomes de netos do ex-presidente.Figuras 81 e 82






Alojamento dos Seguranças
Área de apoio- 28Equipamento de segurança (cinto tático, coldre, coturno, carregador de rádio) num alojamento com beliches para quatro pessoas.Alojamento
- 29Um chaveiro gravado "Elias" — associado ao 3º Sargento Elias dos Reis, que, segundo o Portal da Transparência, atuou na segurança da Presidência e recebeu diárias para deslocamento a Atibaia.Figuras 83 e 89
- 30Um carregador de bateria com etiqueta "Carlos" — também na lista dos militares da segurança presidencial.Figura 84
- 31Um sistema de alarme e botões de pânico distribuído por toda a propriedade (pesqueiro, piscina, sala, quarto), comandado por um painel no alojamento.Figuras 85 e 86





A prova documental
Síntese- 32A lista "RELAÇÃO DAS CAIXAS ENVIADAS PARA O SÍTIO E SEU CONTEÚDO" traz descrições como "BRINDES CAMPANHA LULA", "MATERIAL BANHEIRO PR." e "BRINQUEDOS DOS NETOS PISCINA" — sendo "PR", segundo os peritos, associável à Presidência da República.Figuras 87 e 88
- 33O conjunto: parte da mudança do ex-presidente Lula — caixas de transportadoras espalhadas pelo depósito, adega e Casa Principal — estava, materialmente, dentro do sítio.Conclusão IV.5


04A conclusão dos peritos
O laudo não deixa margem à dúvida sobre o que a prova material mostra. Na resposta ao quesito 11 — o do animus domini —, os peritos escrevem, textualmente, na folha 64:
Criminal
Federal
Laudo nº 0392/2016 — SETEC/SR/DPF/PR — fl. 64
Diante de tudo quanto foi exposto no presente laudo, foi constatado que o casal Luiz Inácio Lula da Silva e Marisa Letícia exercia o uso das principais instalações e benfeitorias do Sítio. Igualmente, foram efetuadas construções, ampliações, adaptações, reformas, instalações de itens de conforto, bem como uso de objetos decorativos personalizados, destinados às demandas específicas do ex-Presidente Lula e de sua família.
(...) não foram identificados quaisquer objetos de uso pessoal de Jonas Leite Suassuna Filho e de Fernando Bittar.
______________________________
Peritos Criminais Federais — SETEC/SR/DPF/PR
E há um achado que liga a ex-primeira-dama diretamente às obras: a pasta rosa endereçada a ela guardava "documentos relacionados à reforma da cozinha e construção da Casa 01". O laudo conclui, na resposta ao quesito 9, que isso indica que "a Sra. Marisa Letícia teve envolvimento com as adaptações realizadas no Sítio".
05A propina: de onde veio o dinheiro das reformas
Aqui saímos do laudo de exame de local e entramos na acusação do Ministério Público Federal. Segundo a Lava Jato, o sítio — usado por Lula, mas registrado em nome de terceiros — passou por três reformas custeadas por quem tinha contratos com a Petrobras. O padrão apontado pela denúncia: a propriedade em nome de "laranjas" servia justamente para afastar o nome de Lula do pagamento.
- ≈ R$ 150 mil — reforma atribuída ao pecuarista José Carlos Bumlai.
- ≈ R$ 700 mil — obras atribuídas ao Grupo Odebrecht, que a PF associou a pagamentos de "caixa 2".
- ≈ R$ 170 mil — reforma da cozinha atribuída à OAS, de Léo Pinheiro.
Somadas as vantagens, a acusação falou em torno de R$ 1 milhão em benefícios indevidos — enquadrados como corrupção passiva e lavagem de dinheiro. É aqui que a evidência nº 13 do catálogo (o cartão da OAS ao "Presidente") deixa de ser um detalhe pitoresco e vira peça de um mosaico: o dono da empreiteira que teria pago a cozinha se correspondia, pessoalmente, com o morador de fato do imóvel.
06O processo, as sentenças e o desfecho
A ação penal do sítio de Atibaia — autuada na 13ª Vara Federal de Curitiba (processo nº 5063130-17.2016.4.04.7000) — percorreu quatro andares da Justiça. Vale acompanhar cada um, porque o desfecho costuma ser contado pela metade.
- 6 de fevereiro de 2019 · 1ª instância A juíza Gabriela Hardt (substituta de Sérgio Moro em Curitiba) condena Lula por corrupção passiva e lavagem de dinheiro a 12 anos e 11 meses de prisão.
- Novembro de 2019 · 2ª instância A 8ª Turma do TRF-4 confirma a condenação por unanimidade e aumenta a pena para 17 anos, 1 mês e 10 dias em regime fechado.
- 8 de março de 2021 · STF (Fachin) O ministro Edson Fachin anula as condenações de Lula na Lava Jato — inclusive a do sítio — por entender que a Justiça de Curitiba era incompetente: os fatos não teriam relação direta com desvios da Petrobras. Os autos vão para a Justiça Federal do DF.
- 23 de março de 2021 · STF (2ª Turma) O plenário confirma a decisão de Fachin; a 2ª Turma reconhece a suspeição de Sérgio Moro para julgar Lula. As condenações caem — por vício processual, não por julgamento do mérito.
- Depois de 2021 · Justiça do DF Redistribuído a Brasília, o caso perde força: a nova denúncia relativa ao sítio é rejeitada, e Lula recupera os direitos políticos — o que o habilitaria a disputar (e vencer) a eleição de 2022.
07Em resumo
A pergunta que abriu este dossiê — Lula tinha conhecimento e usava o sítio como se fosse dono? — é respondida pelo próprio documento da Polícia Federal, e a resposta é sim. Trinta e três evidências materiais, catalogadas por seis peritos ao longo de 67 páginas, mostram um imóvel registrado em nome de terceiros mas tomado por objetos, roupas, remédios, dedicatórias, netos e seguranças de uma só família. A conclusão pericial é literal: o casal "exercia o uso das principais instalações e benfeitorias do Sítio", com reformas e adaptações feitas para atender às "demandas específicas do ex-Presidente Lula e de sua família".
A camada seguinte — de quem veio o dinheiro das reformas — é a acusação da Lava Jato: Bumlai, Odebrecht e OAS, cerca de R$ 1 milhão, corrupção e lavagem. Ela levou a duas condenações (12 e depois 17 anos). E a última camada — o desfecho — é honesta apenas quando contada inteira: as condenações foram anuladas por competência e por suspeição de Moro, não por absolvição de mérito, e o processo se esvaziou na Justiça de Brasília. O leitor tem, aqui, o documento na íntegra e a trajetória completa — que é tudo o que uma leitura forense honesta deve oferecer.
Leia o laudo completo por conta própria: